segunda-feira, novembro 21

HAI KAI 6


Minha janela,
Fico pouco nela
Mas tenho a certeza
Que a vida é bela

sexta-feira, outubro 28

DOAÇÃO

Sua visão estava embaçada. Sabia que não era o para-brisas do carro, eram seus olhos mesmos. Havia chorado um pouco – agora não mais – e isso dificultava a visão. Olhou para o acento ao lado. Lá estava o envelope vermelho berrante com letras garrafais. Mudou a marcha e continuou resoluto. Aquele horário não havia muitos carros na estrada, poderia abusar da velocidade até chegar ao local desejado.
Baixou a mão do volante e passou para a terceira marcha. A mesma mão pegou uma fotografia que estava no banco do carona. Pisou mais fundo e ergueu-a até a altura dos olhos. Viu sua filha, Silvia com um largo sorriso tendo ao colo o gatinho branco que ela tanto estimava. A fotografia foi levada até seus lábios e ele a beijou. A visão ficou mais embaçada pelas novas lágrimas.
A mão que segurava a fotografia jogou a mesma sobre o painel. A fotografia não ficou ali. O vento que entrava violentamente pelas janelas abertas a fez voar e parar no banco de trás do carro.
Estava a poucos minutos do local escolhido. Com a outra mão que antes segurava o volante buscou a carteira de cigarros no bolso da frente da camisa. A mão levou a carteira até os lábios. Com os dentes violou o plástico e com a habilidade de um ex-fumante abriu a carteira. Com a ajuda dos lábios pegou um cigarro.
A mesma mão que pegou a carteira, pegou o isqueiro recém comprado no mesmo posto em que comprara o cigarro. Acendeu o isqueiro e levou de encontro ao cigarro.
Uma luz cegou-lhe. Puxou o volante para a direita a poucos segundos de colidir-se com um carro que vinha em sentido contrário. Escapou ileso por pouco. Com mais cuidado acendeu o cigarro e jogou a carteira e o isqueiro fora.
_ Não iria fumar mais mesmo – pensou -! Soltou uma baforada que encheu o carro com o cheiro de tabaco. Havia parado de fumar a pedido de sua filha, mas hoje era um dia atípico. Sorveu cada tragada com um prazer que ele nunca havia sentido antes. Eram de prazer e de dor!
Baixou a mão do volante e passou para a quarta marcha. A mesma mão pegou o celular que estava no banco do carona.
Antes de ligar, viu pelo retrovisor, caído no banco de trás a fotografia de Silvia com um largo sorriso tendo ao colo o gatinho branco que ela tanto estimava.
Silvia estava agora no hospital esperando por um transplante! Ele discou.
Assim que alguém da policia rodoviária atendeu ele falou:
_ Socorro! Venham urgente ao quilometro treze da Rodovia 20! Um acidente com um Vectra azul contra um poste! Acho que o motorista está à beira da morte... – e desligou.
A mão que segurava o celular, o jogou para fora do carro. Ele viu a placa que marcava o quilometro treze e viu logo à frente o tal poste. O poste ficava bem na curva e servia para fazer uma derivação de linha do fornecimento de energia elétrica, agora serviria para outra coisa.
Pisou fundo! Ao contrário de todos os motoristas ele segurou firme e não movimentou o volante. O poste ficou grande aos seus embaçados olhos e aquilo foi à última coisa que ele viu!
Uns poucos animais que estavam nas proximidades correram apavorados ao ouvir o estrondo. Talvez algum morador das redondezas até tenha acordado com o terrível barulho, mas voltaram a dormir. No carro o total silêncio tomou conta. Aquele intermitente soar da buzina que ouvimos nos filmes quando acontece um acidente não houve, pois o motorista nem tocou a buzina. Com o choque saltou do banco e ultrapassou o para-brisas e chocou-se contra a superfície cilíndrica do poste e caiu para o lado já sem vida.
Normalmente o socorro custa a chegar, mas aquele dia – ou noite melhor dizendo – foi bem rápido. Logo estava no local uma viatura da polícia rodoviária e uma ambulância. Buscaram sobreviventes e não acharam. Tinham de descobrir a identidade da vítima para avisar parentes ou amigos. O normal seria inquirir os bolsos da vítima a procura de documentos, mas um envelope vermelho berrante com letras garrafais dizendo: “ATENÇÃO/RÁPIDO” chamou atenção dos socorristas.
Abriram o envelope e viram que havia uma carta dizendo que “Silvia Pereira Mattos estava à espera de um coração e que ele, que havia morrido era compatível conforme atestavam documentos do hospital que estavam no mesmo envelope”

terça-feira, outubro 25

A anarquia do pseudo-anarquista

Street art é uma coisa, pichação é outra! A primeira é arte a segunda é vandalismo!
Pois um vândalo, pichou próximo a Facensa "Fora Elite Golpista" - fazendo alusão é lógico ao processo de impeachment de Rita Sanco -.
Normal que se tenha opinião a favor ou contra, mas o vândalo além de fazer sujeira na cidade nem sabe bem o que está fazendo, pois pichou junto a frase o simbolo do anarquismo, e como se sabe - menos o pichador ignorante - de ignorar, não saber - o anarquismo não defende governo A ou governo B. Aliás um anarquista é contra todo e qualquer tipo de governo. Proteste, mas se informe antes...

quarta-feira, outubro 19

"PEDIDO INUSITADO" - RE-POSTAGEM 16 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


Cincinato ainda bem jovem aprendeu o ofício de eletricista residencial com seu pai. Não acumulou o suficiente nestes vinte e cinco anos para poder dizer que tem uma vida tranqüila, mas também não se queixa, ainda mais que todo final de ano ele deixa de lado fios, tomadas e chaves testes para fazer o que mais gosta: ser Papai-Noel.
A primeira vez que ele pôs a fantasia vermelha, foi apenas para dar uma incrementada no orçamento para o final de ano, e decidiu encarar a empreitada após uma menina perguntar a mãe em uma fila de supermercado, se ele era o “bom velhinho”. Cincinato olhou para um espelho e viu que sua espessa barba e cabeleira branca lembravam Papai-Noel. Ele herdara do pai, além da profissão as precoces cãs.
A princípio era apenas mais um bico, mas com o tempo ele apaixonou-se pelo trabalho, não que desse muito dinheiro, mas era a satisfação que ele ganhava que valiam a pena. Cleide, sua ex-esposa não lhe deu um filho. Ser Papai-Noel era uma forma de suprir seu amor e carência pelo filho que não tinha. Ele sabia que não era a mesma coisa que ter um filho, leva-lo a pracinha ou ao estádio de futebol, mas se contentava com suas crianças. Sim! Ele considerava todas aquelas crianças suas, pelo menos enquanto estava com a fantasia vermelha.
À parte que Cincinato mais gostava era quando podia colocar uma criança sobre seus joelhos e ouvir as palavras amorosas que elas diziam em meio ao pedido de seus presentes, aquilo sim valia a pena em vez de ficar empoleirado em uma escada trocando fios queimados.
Deu onze da noite. Cincinato entrou no bar do Denis e sentou-se em sua mesa habitual. Denis ao vê-lo abriu uma cerveja e foi levar-lhe. Ele sabia que o “bom velhinho” – como ele costumava chamar o amigo – sempre passava ali para uma cerveja e um bom papo antes de voltar para casa.
_ Um presente bem gelado prô “bom velhinho”! – brincou o proprietário do bar.
O canto direto do lábio de Cincinato – que estava quase que completamente escondido pelo bigode branco – moveu-se como que querendo expressar um sorriso. Serviu-se de um longo gole e ficou ali quieto com o olhar perdido.
Denis continuou seu trabalho, mas não sem perceber que alguma coisa estava errado com seu amigo. Às vezes Cincinato não estava lá para muitas brincadeiras, mas em geral, quando chegava a época dele encarnar Papai-Noel ele ficava bastante alegre. Chamou a esposa que acabara de fritar uns pastéis para ela assumir seu lugar no balcão e foi ter com o amigo.
_ Posso sentar e tomar uma contigo? – Cincinato lançou-lhe um olhar triste e moveu os ombros em sinal de “tanto faz!”. Denis sentou e tomou também um longo gole.
_ O que foi meu amigo? O que está lhe incomodando para estar triste dessa maneira?
_ Ah Denis meu velho... Esse trabalho me deixa muito feliz, tu sabes bem isso!
_ Sim! Claro! É por isso...
_ Sabe cara, o que me deixa mais feliz nesse trabalho? É conversar com os “pimpolhos” e escutar os seus pedidos...
_ É sei...
_ Às vezes, é bem verdade, me parte o coração quando uma criança pede algo que percebo que seus pais não serão capazes de comprar para elas, porque quando elas pedem para o Papai-Noel elas realmente acreditam que eu sou o velhinho e, que eu irei na noite de natal em suas casas para deixar lá os seus presentes... – tomou mais um gole - Aí fico pensando, o que se passa na cabecinha delas, quando pedem um autorama e encontram embaixo do pinheirinho um carrinho de plástico bem vagabundo...
_ Que isso cara! Você não é o Papai-Noel! Isso é apenas um emprego!
_ Sei...
_ E todos os anos isso acontece e sempre irá acontecer, portanto tu não podes ficar assim homem...
_ Sabe o que é Denis... – tomou mais um gole para poder continuar - É que hoje uma menininha me pediu algo que me cortou o coração...
_ Que foi? Pediu um brinquedo muito caro?
Os olhos de Cincinato encheram-se de lágrimas que começaram a escorrer pelas bochechas e pela barba.
_ Não amigo! Ela pediu para eu falar para o pai dela, que ela deseja que ele pare de visitá-la em seu quarto à noite quando sua mãe sai para trabalhar.
Denis ficou acompanhando o amigo na cerveja e num choro mudo sem saber o que dizer.

Postado em 20.11.2009

segunda-feira, outubro 10

SUSTO


Assustou-me o olhar que vi em teu rosto
Em tão pouco tempo tua alma já corrompida
Em meio a dúvidas e nítidos arrependimentos
Vi que lá atrás uma candura fora esquecida.

Espiei-te inteira pela fechadura da vida, e
Assustei-me por ver que estavas pequena
Assustou-me novamente, muito mais ainda
Ao perceber que o meu sentimento por ti,
era apenas o de pena

quinta-feira, setembro 29

PIRISCA GRECCO & A COMPARSA

Pirisca e a Comparsa, interpretando Prenda Minha, clássico regional do RS de Telmo de Lima Freitas em Uruguaiana

segunda-feira, setembro 26

RE-POSTAGEM 15 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

Todo louco tem o seu cachorro
E todo cachorro as suas pulgas
Todo namorado tem um endereço
E certos dias, tem as suas fugas.

Todo cego tem a sua bengala
O que não vê, compensa o ouvido;
Mas é igual a todos os outros
Pois todos têm no centro um umbigo.

Quem casa quer ter a sua casa
Quem ri tem sempre sua risada
E mesmo quando é mal contada
A piada tem uma parte engraçada.

Todo passarinho nasce no seu ninho
Todo réu tem um discurso inocente
Todo jacaré tem um amigo passarinho
E o banguela tem uma boca sem dente.

Todo pé torto tem o seu chinelo torto
Todo careca tem saudade do seu pente
Todo navio que parte deixa o seu porto
Todo atirador de faca têm a sua assistente.

Todos têm
Algo que os outros também tem
O pobre tem fome, e o rico às vezes também.

Alguns têm
Algo que os outros nunca terão
O rico tem pão e o pobre: NÃO.

quinta-feira, setembro 22

RE-POSTAGEM 14 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

MEGALO ESPIRITO

Mesmo que eu utilize todas as palavras da maior biblioteca;
mesmo que eu macule o branco de todos os papéis;
mesmo que eu declame todas as odes e versos;
mesmo que eu soe todos os tons e acordes;
mesmo que eu letrerize todas as músicas;
mesmo que todo bloco tome forma ao toque de meu cinzel
e nenhuma tela permaneça virgem diante de meu pincel...
Mesmo que eu tudo faça,
tudo expresse,
tudo crie...
Não conterá um só vestígio do que envolve e revolve meu espírito.

terça-feira, setembro 6

quinta-feira, setembro 1

Fugidinha

Ivan acordou com o aroma do café. Esfregou os olhos que logo saltaram para o pulso em busca dos ponteiros que guiavam sua vida. Viu que era quase oito e trinta. Esticou-se como se de borracha fosse e lembrou da noite de amor. Silvia foi incrível como há muito tempo não era! Estava feliz!
Chutou o lençol e pulou da cama. Vestiu-se calmamente assobiando uma canção do Rei Roberto. Quando estava colocando a camisa o ombro raspou no queixo e percebeu que não podia escapar de fazer a barba antes de sair.
Foi ao banheiro e usou o novo barbeador elétrico que comprara meses antes de barbada em Rivera. Ao passar a loção ouviu o som da TV que vinha da sala. Flavinho já devia estar de pé em frente aos seus desenhos animados – pensou com um sorriso paternal -. Mijou e saiu do banheiro.
Vendo a confusão de lençóis na cama lembrou-se da noite anterior e se orgulhou de seu desempenho, mas também do de Silvia. Depois de tanto tempo, ainda estavam muito bem no quesito “cama”. Pegou a carteira no criado mudo e deixou uma nota de cinqüenta ao lado do despertador para as despesas do dia – manter a casa e Flavinho não era lá muito barato, mesmo com a parcimônia de Silvia! -.
Passou pela sala e deu um beijo na cabeça dourada do menino. Os desenhos não deixaram o pequeno nem notar no carinho recebido. Olhou para a TV. Estava passando Pica-pau – Ah se eu pudesse ficar atirado com ele assistindo essa bobagem boa o dia inteiro! Pensou – e foi para a cozinha a procura de Silvia.
Ela estava na pia lavando um resto de louça do dia anterior, com seus cabelos louros desgrenhados e com uma roupa surrada apropriada para um sábado de manhã. A mesa estava posta convidativamente para dois – Flavinho já devia ter tomado o seu “Nescau” – .
Olhou o relógio. Nove horas, começou a ficar preocupado, não podia se demorar. Olhou novamente Silvia. Mesmo assim mal vestida ela era como alguns diziam “um pedaço de mau caminho”. Ele estava nos seus cinqüenta e seis e tinha ela que estava apenas com vinte e nove. Sentiu-se orgulhoso novamente naquela manhã. Chegou-se e a beijou na nuca.
_ Bom dia preguiçoso! – ela cantou em seu ouvido ao virar-se – O café ta na mesa! – deram-se um longo beijo.
_ Vamos tomar ele então! – apressou Ivan! Ele começava a ficar nervoso. Não podia se demorar muito, pois caso contrario teria de se explicar com Neusa.
Sentaram-se e serviram-se de café e torradas. Silvia comia calmamente enquanto ele devorava o desjejum, não por fome, mas por pressa. Estava ficando cada vez mais nervoso e não sabia se era pelo horário ou pela mentira. Não tinha trabalho algum no sábado, mas usara como desculpa para ir para Neusa.
_ Amorzinho, que bom se você pudesse ficar com a gente essa manhã!
_ Nem me fale Silvia! Seria um sonho! Mas você sabe como são os compromissos... – correu os olhos para o relógio furtivamente.
_ Eu sei amor! Eu entendo! – Tomaram o resto do café em silêncio. Ivan levantou-se de um pulo.
_ Putz!... Já estou atrasado... Amor, tenho de ir. – falou nervosamente como fala quase todos os mentirosos. Beijou-a e deu um rápido beijo na cabeça de Flavinho. Pegou a maleta e as chaves do carro.
Em questão de segundos estava na rodovia. Olhava nervosamente o trafego e o relógio no pulso.
Era sempre a mesma coisa, Ivan ficava uma pilha de nervos quando tinha de sair às presas da casa de Silvia e voltar pra casa, para os braços de sua esposa Neusa e de seu filho Miguel.

quarta-feira, agosto 31

Maria Amparo Escandón



Costumo escolher filmes para assistir pelo título. Às vezes o título me chama, e já tive gratas surpresas com isso, por exemplo: “A lenda do pianista do mar” e “O homem que não estava lá”. Às vezes faço isso com livros também. Quando não tenho alguma indicação, fico a olhar os títulos nas lombadas dos livros e vez que outra surge algum que me chama a atenção.
Assim foi com o livro “A caixa de Santinhos de Esperanza”. Ed. Rocco, da autora mexicana Maria Amparo Escandón. Nunca havia lido algo dela – nem sabia que ela existia -. Peguei o livro porque achei o título curioso.
Na primeira semana li uma dezena de páginas – mas é bem verdade que estava bem atarefado nesta semana -. Na segunda, li mais uma dezena, quando enfim, na terceira semana, faltando dois dias para eu ter de entregar o livro a Biblioteca Publica Municipal Monteiro Lobato de Gravataí, li até a metade e no ultimo dia não consegui dormir enquanto não terminei o romance.
Gostei muito! O estilo da narrativa me lembrou um pouco Zélia Gattai e, a história uma mistura de Jorge Amado e Jorge Luis Borges.
Vou procurar outros títulos de Maria Amparo Escandón para ver se tem a mesma força e beleza.
O livro virou filme: Cáchame - Santitos em 1999, dirigido por Alejandro Springall. Vou ver!


para Pai Eloy e Mãe Elena


Viajaria mundos
Entraria profundo
Ao centro do mundo
Beberia a magma
Como se fosse um suco
E voltaria a fazer outra vez mais.

Cortaria as veias
Cegaria meus olhos
Mutilaria meu corpo
Não ouviria mais
Deixaria de viver minha vida
Só para dizer que lhes amo
Meus amados pais.

segunda-feira, agosto 29

"ERRATA" - Cecilia Meireles

Depois de impresso, reparo
que, embora cego, êste espelho
levanta uma sobrancelha
a apontar meu êrro claro

(Os espelhos sem reflexo
guardarão sempre algum brilho
para vírgula, ou cedilha
ou acento circunflexo...)

Como porém, cada dia
vai sendo a vidadiversa,
e, quanto mais fiel, o verso,
mais infiel, a ortografia,

pode ser que, brevemente,
o espelho, nessa moldura,
já não seja cego e impuro,
mas certo e clarividente...

Obra Poética - 1977

quinta-feira, agosto 25

Um pouco disso tudo


O que eu quero meu amor
Não é alguém que me entenda
Nem alguém que me faça rir.
O que eu procuro meu amor
Não é quem goste do que eu goste
Nem vá aos lugares que eu vou!

O que eu mais quero amor
Não alguém que me de carinho
Ou que goste dos meus carinhos
O que eu mais procuro amor
Não é alguém que adormeça comigo
E sempre acorde comigo.

O que eu mais quero meu amor
O que eu mais procuro meu amor
É apenas um pouco disso tudo
Em você amor!

quarta-feira, agosto 24

O confessor


Charles entrou na igreja de cabeça baixa. Estava acostumado a entrar ali, mas não tinha muita coragem para expor seu rosto naquele fim de tarde. Passou pelo batistério e foi direto a caldeira de água benta. Molhou o dedo indicador e fez o sinal da cruz.
Fosse um dia normal de ele estar ali, como um domingo, por exemplo - pois ele sempre ia a missa no domingo desde os tempos de criança, não por devoção, mas por ter aprendido que deveria agir assim -, ele se sentaria nas primeiras bancadas e oraria. Hoje não! Hoje era um dia muito diferente na vida do devoto cristão.
Olhou os vitrais. Conhecia todos de cor e salteado. Mas hoje eles tinham algo diferente! São João Batista continuava derramando água sobra à nuca de Nosso Senhor, Santo Antônio continuava com o Menino Jesus em seu colo, São Miguel ainda estava com seu pé sobre a cabeça do demônio e sua espada pronta para acabar com o capeta e São Jorge mantinha a sua postura de bom ginete, mas algo estava estranho!
Os olhos! Os olhos dos santos pareciam todos estarem focados nele.
Charles pensou em dar meia volta e ir embora, mas sabia que não enganaria ninguém – pelo menos os santos não, pois eles vivem ao lado de Deus e deviam saber de tudo, por isso o olhavam! - . Ficou por um tempo parado como estavam parados também os santos em seus vitrais. Corpos parados em seus eternos afazeres e olhos cravados nele.
Ouviu um pequeno ruído. Era o padre Clemente que entrava no confessionário. Entrava em silêncio, com o mesmo silêncio que deveria sair, pois o que é dito no confessionário deve ficar relegado ao silêncio. Charles na verdade achava – e isso não lhe foi ensinado, ele apenas achava que era assim, que ao sair do confessionário o padre esquecia tudo o que ouvira, pois ele apenas servira de ligação do homem a Deus! -.
Queria que houvesse uma multidão de devotas para confessar seus pecados sem graça, mas naquele dia não havia ninguém para se confessar além dele.
Mais uma vez embebeu o dedo na água benta e fez novamente o sinal da cruz. Aproximou-se e quedou-se sobre o genuflexório. Ficou mudo. Não sabia – pela primeira vez na vida – o que dizer ao confessor. Ficou mudo esperando o confessor, padre Clemente falar as palavras de praxe. Não ouviu nada. Tomou coragem.
_ Padre eu pequei! – pronto, agora iria até o fim -.
_ Sim meu filho! – ficou mais tranqüilo.
_ Na verdade eu não lembro de algo para falar desde o último dia que aqui estive que possa ser um pecado. – baixou a cabeça de resignação e vergonha. – mas tenho algo para dizer!
_ Sim! – ouviu depois de um longo silêncio.
_ Eu sou temente e seguidor das palavras de Deus. Tu bem sabes padre! – parou.
_ Fale Charles! Pode se abrir e falar seus pecados! – Ao ouvir seu nome, Charles ficou espantado, achava que assim como ele não via o padre ele também não era visto. Então o padre Clemente sabia de todos os seus pecados! Achava que o confessor ouvia os pecados dos penitentes sem saber quem falava. Ele não via a cara do padre, mas sabia que era o padre Clemente, mas achava que ficava em segredo e não era visto pela pessoa que olhava de dentro para fora do confessionário. Ficou mais envergonhado.
_ Sim?
_ Padre eu não lembro de nada de errado a não ser um pequeno roubo no jogo de carta com meu cunhado desde a última confissão. – um momento de silêncio -.
_ Abra seu coração filho!
_ Bom padre! O meu pecado não foi feito, mas será feito e por isso estou aqui.
_ Como assim filho?
_ O senhor sabe que sou caminhoneiro e fico muitos dias fora, minha mulher até diz que chora quando viajo! Pois, uns caras vieram e disseram que quando eu viajo a Cidinha, minha esposa, recebe alguém lá em casa!
_ .....
_ Na primeira vez eu briguei e afirmei que era mentira, mas quando outros vieram falar eu fiquei com a pulga atrás da orelha!
_ Não deve cair em tentação meu filho! O diabo tem várias formas de tentar nos ludibriar.
_ Eu sei padre! E acho que tudo é mentira! – estava falando alto e olhou para os lados para ver se não era ouvido por outras pessoas – Eu acredito na fidelidade de minha Cidinha, mas os caras falaram pra eu ficar de campana que assim eu descobriria tudo.
_ Bobagem! A D. Eucida é uma mulher honrada e uma boa cristã!
_ Eu sei Padre, mas não posso viver na dúvida e resolvi tirar tudo a limpo! Falei para ela que iria viajar hoje e só voltaria após uns seis dias. Mas eu vou é ficar escondido para ver se não aparece ninguém!
_ Bobagem!
_ Eu sei Padre, mas tenho de fazer isso, mesmo acreditando na lealdade de Cidinha! Se não fizer eu ficarei sempre com dúvidas, e depois os mesmos caras que falaram, disseram que se eu não flagrasse ela, eles mesmos me diriam quem era o cara que estava “fazendo” ela! - Com o perdão da palavra padre!- . Mas eu prefiro ver com os meus próprios olhos para ter certeza!
_ Meu filho! Tu não podes por a prova a honra da mulher que Deus abençoou como sua esposa, por causa de palavras de pobres pecadores!
_ Mas é isso mesmo Padre! Eu não acredito neles, mas eles mandaram eu fazer uma campana, que eu então descobriria e se eu não descobrisse eles mesmos falariam o nome do cabra que ta de caso com minha Cidinha.
_ Bobagem! Esqueça isso e segue tua viagem! Vá trabalhar e cuide de tua vida e da vida de tua esposa com muito trabalho e devoção a Deus! O que Deus une o homem não separa!
_ Sei não Padre? Na dúvida vou ficar hoje escondido no mato com a pistola pronta.
_ Isso não meu filho! Matar é pecado!
_ Mas é por isso que vim aqui Padre! Vim me penitenciar por um pecado que posso vir a cometer.
_ ...
_ Se aparecer alguém hoje a noite... depois de eu fingir que fui viajar, esse alguém vai comer chumbo!
_ Não meu filho...
_ Sim Padre! As pessoas têm de respeitar um trabalhador e as “mulhé” dos outros!
_ Tu não podes fazer isso meu Fi...
_ Posso sim Padre! Tem que ter respeito pelas pessoas! E o Senhor...
_...
_...
_ Sim meu filho?
_ O Senhor tem de manter sigilo de confessionário! Se nada houver, muito que bem, mas se houver eu serei o primeiro a ir procurar a delegacia e falar que matei os dois safados.
_ Mas...
_ Espero que nada aconteça, - quase chorou - o que muito acredito, mas se houver...
_ ...
_ Benção Padre! Já vou rezando que é para não haver o pior
Charles subiu no caminhão e deixou a cidade. Escondeu o caminhão em um posto de gasolina e voltou às pressas antes que escurecesse.
Não trazia nada além da pistola que comprara de um uruguaio na última viagem.
Entrou no mato que ficava em frente a sua casa. Ainda havia luz solar. Esperou escurecer e esgueirou-se até uma vegetação de médio porte bem em frente a sua casa e ficou de tocaia.
Depois de vários minutos veio a vizinha e puxou papo com Cidinha. Ficaram por quase duas horas no portão. A vizinha foi embora e Cidinha entrou. Charles acendeu um cigarro, mas cuidou para a brasa não aparecer para quem estava em sua casa.
Duas horas depois viu Cidinha, sua mulher passar pela janela em prantos! Ela sempre falava que chorava quando ele estava em viagens! Seria o choro por ele?
Logo veio a meia-noite! Hora ideal para um amante – pensou Charles -. Nada!
Veio a madrugada e nada aconteceu e finalmente o dia raiou.
Charles cansado, sem dormir e com uma pistola na cintura decidiu que estava errado: Sua Cidinha não o traía, ele era um babaca e acreditou nas bobagens do pessoal do trabalho.
Jogou a pistola num córrego próximo e correu ao centra da cidade. Há essa hora o padre Clemente deveria estar exasperado sem saber o que havia ocorrido, apesar de saber que o padre sabia da fidelidade de Cidinha.
Em pouco tempo chegou na casa paroquial.
Estancou! Havia um monte de gente em frente à casa do padre.
_ O que houve? Perguntou Charles a uma das beatas.
_ O padre Clemente deixou um bilhete dizendo que agiu muito mal com uma de suas ovelhas e foi embora sem dar mais explicações!
_ FILHO DA PUTA! – Só Charles, Cidinha e alguns amigos entenderiam o porque do palavrão

segunda-feira, agosto 22

RECADO

Pelo menos uma coisa boa na novela "Fina Estampa" que começou hoje(22/08), uma música do Gonzaguinha.

Recado
Gonzaguinha
Composição: Gonzaguinha

Se me der um beijo eu gosto
Se me der um tapa eu brigo
Se me der um grito não calo
Se mandar calar mais eu falo
Mas se me der a mão
Claro, aperto
Se for franco
Direto e aberto
Tô contigo amigo e não abro
Vamos ver o diabo de perto
Mas preste bem atenção, seu moço
Não engulo a fruta e o caroço
Minha vida é tutano é osso
Liberdade virou prisão
Se é amor deu e recebeu
Se é suor só o meu e o teu
Verbo eu pra mim já morreu
Quem mandava em mim nem nasceu
É viver e aprender
Vá viver e entender, malandro
Vai compreender
Vá tratar de viver
E se tentar me tolher é igual
Ao fulano de tal que taí

Se é pra ir vamos juntos
Se não é já não tô nem aqui

quinta-feira, agosto 18

Tinha de ser


Já fiz tudo para acertar
Procurei meu certo par
Busquei a cara metade
Até viver com a saudade.

Até me dei sem pensar
Beijei só por beijar
Procurei o que era certo
Até a minha cara quebrar.

Fui atrás de conselhos
Caí até de joelhos
Nada deu muito certo
E o amor estava muito perto.

Tinha medo de falar
Mas tinha de arriscar
Poderia perder uma companheira
Ou um amor pra vida inteira.

Boa Noite Amor


Quando o despertador te chamou, não foi para te aborrecer com as coisas chatas do dia-a-dia, mas para lembrar-lhe que tem alguém que te ama.
Quando aquele grãozinho de pão, no café da manhã caiu no chão foi para chamar a tua atenção para a pessoa que tanto te ama.
Quando em meio aos seus exercícios tu cansaste, foi apenas para tu perceber que tem alguém que não cansa de pensar em ti.
Quando ao meio-dia tu te alimentaste, talvez tu nem tenha percebido que alguém se alimenta do seu amor.
E hoje à noite antes de dormir, por certo este alguém irá te ligar e lhe desejar uma:
Boa noite, Meu Amor!

domingo, agosto 14

RE-POSTAGEM 13 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


Saudade é coisa de velho. Mas e daí! Além de guri eu sou velho. postado originalmente em 15 de novembro de 2009

Lembro que quando comecei a sair para as noitadas em Gravataí, só havia uma opção de bar no centro da cidade. Era o Restaurante Vila Velha, onde a gurizada e outros nem tanto, ficavam em um estacionamento em frente o Vila para beber, namorar, ouvir música e outras cozitas mais. Já na Segunda feira era Show, o Vila abria o microfone para quem tivesse a coragem de tocar e cantar, ou tentar pelo menos. Por lá passaram o Franck, o Carneiro, o Geraldo, a Mara, o Piáco e tantos outros, inclusive o Sinfra. Eram amadores, alguns nem tanto, mas era ótimo ter algo divertido varando a madrugada que não fosse comprar um Velho Barreiro no antigo Bar Azul - que ficava onde hoje é a Massaroca e era o único bar que nunca fechava e tinha “ovos cozidos atômicos” que formavam um cogumelo verde e fedorento quando a tampa do vidro era retirado pelo zumbi que atendia dia e noite - e encher a cara num banco da praça com o Goda, o Chimango, o Inhambi, o Toco, o Tita e outros tantos para depois ser abordado pela brigada porque o violão tinha “um som sonoro” conforme nos foi revelado pelo zeloso policial.
Depois veio o Tertúlia - que antes era o Espetinho – com a música nativista, mas nativismo de verdade e não os rebola tchês de hoje. Por incrível que pareça um dia ser nativista era fashion. Todo mundo usava bombacha, ia nos CTG”s e nos rodeios e ouvia milonga e tudo. O Tertúlia bombava, tinha dias que o pessoal ficava na espera por uma mesa para ouvir “Os esquiladores”.
Finalmente surge O Pandollo, que já era rabugento desde a inauguração. Música ao vivo lá só o hino do Grêmio, mas enquanto não chegava “a saída” do Dom Feliciano e do Josefina era lá mesmo o "point".
E vá caipira no Pandollo e Canelinha no Fica Frio, que ficava ao lado. O bar que tinha "báúrú" com 3 acentos e o anúncio na parede da frente oferecendo “torrada american” e na parede do lado o “a” que não coube na fachada. Vale lembrar que o Fica Frio também foi o Sócio, o Crente, o Seu Almiro e um dia “Bar Sobaca” que a gente não sabia o que queria dizer. Mas como eu não tinha muito o que fazer a não ser fazer nada, tive tempo para filosofar e acabei chegando a uma hipótese:
Se Sobaca começa-se com “ç” e invertendo-se as sílabas chegaríamos a “cabaço”.
Como o dono tinha umas filhas muito das gos........ Não! Não devia ser isso!
Bom e depois?
Depois casei.

quarta-feira, agosto 10

Sonho


Gabriel acorda com o som de seu despertador. Levanta e lava o rosto na pia que fica a poucos passos de sua cama. Escova os dentes e logo pega a pequena Bíblia que dorme embaixo de seu travesseiro. Abre uma pagina as cegas. Lê e acha que entendeu tudo o que leu, mas pelo menos alguma coisa assimilou.
Estende a cama impecavelmente e guarda a Bíblia embaixo do travesseiro. Não vai levá-la, acha que ela será mais importante para a pessoa que irá ocupar a sua cama após ele sair.
Tira o pijama e coloca a roupa que havia deixado pronta para vestir hoje. Recolhe os poucos cartões e bilhetes que tem colados na parede. Antes de guardá-los na mala lê mais uma vez o que estava escrito em cada um deles.
Olha no relógio e vê que tem mais alguns minutos. Pega uma gasta vassoura em um canto e varre o chão. Não há nada para recolher, o chão está limpo como sempre.
Pensa em retirar o rádio da mala e escutar uma música, mas o tempo seria impossível para uma música inteira, então desiste.
Ia sentar na cama, mas para não estragar a cama já feita mudou de idéia.
Olhou para a pequena janela. O sol entrava feliz contra as grades que guarneciam a cela de três por três.
Em pouco tempo viriam os agentes para libertá-lo. Cometeu um erro e cumpriu sua sentença. Agora iria sair e levar uma nova vida. Teve tempo e auxílio para repensar sua vida e nunca mais cairia em erros novamente.
Súbito, sentiu uma pancada nas costas! Foi o suficiente para acordar!
Gabriel levantou do duro e sujo chão para dar lugar para outro condenado deitar e tentar dormir na cela de dois por dois onde estava com mais doze condenados.
Estava acordado e longe do sonho que a pouco sonhava e ainda lhe faltavam seis anos e alguns meses para tentar uma condicional
Ficaria naquele inferno sonhando em poder sonhar novamente!

quinta-feira, agosto 4

Amor de Simão e Zinha


A manhã chegou ao povoado e junto dela a figura de Simão. Chegou de mansito em seu cavalo carvoado assim como seu cavaleiro. Os poucos que estavam na frente ao bolicho torceram o nariz como sempre torciam ao ver um forasteiro negro chegar ao povoado. Os negros de casa eram conhecidos e “até” respeitados, mas os de fora eram vistos como problema. Desde o fim da guerra eles andavam guaxos e arengueiros.
Além do mais, este veio com um lenço vermelho surrado que cobria quase toda a cara. _ Só bandido ou gente maleva esconde a cara!
Apeou e ajoujou o animal junto a um cinamomo bem em frente ao bolicho.
Ficou de frente a todos e levou a mão à cintura. Todos ficaram aboletados e prontos para responder a alguma toreada do recém chegado, mas ele só sacou uma flauta de taquara. Com a mão que estava livre, puxou o lenço colorado para baixo revelando a cara a todos.
_ Simão? – gritou Glorinha, moça negra que trabalhava na cozinha e estava trazendo uma linguiça assada para o regalo da clientela. A taquara tocou os grossos lábios do negro e produziu um som maravilhoso que fez com que todos ali presentes soubessem que era realmente Simão.
Logo após o acontecido em Poncho Verde, Simão sumira. Alguns davam conta que ele havia seguido Neto para o Uruguai, mas nada de muito certo.
Mas ali estava Simão. Ele era mui conhecido, pois era antes da incorporação aos Lanceiros Negros um simples mandalete do Capitão Fernandez, e que tinha certas regalias por tocar para muito gosto do patrão, melodias- que encantavam o dito – muito bonitas.
Todos ali já haviam escutado a cantoria que produzia aquele pedaço de taquara nos churrascos do Capitão. Ele – o galonado – orgulhava-se de ter em casa um escravo com dotes musicais.
Ninguém esperava ver o Simão de volta - Qual pássaro volta à gaiola após a fuga? -. Era sabido que a liberdade aos escravos incorporados aos farroupilhas era pura conversa.
Pois ali estava Simão. Tocou uma alegre melodia até perceber que os ânimos estavam acalmados. Recolheu a cintura o instrumento e mostrou as canjicas num longo e frouxo sorriso.
_ Mas então de onde vens o vivente? – perguntou um e foi o mote para Simão entrar em contato com as gentes que ali se encontravam. Perguntaram por histórias e contaram outras e Simão foi-se aboletando com eles no bolicho.
Depois de tantos causos, Simão puxou da m ala de garupa que o acompanhava algumas patacas e pediu uma canha. Foi servida, e todos os outros se serviram a suas próprias expeças de mais algumas.
Assim como a cana corria, a notícia da chegada de Simão correu à casa do Capitão Fernandez que logo resolveu ir tomar satisfações do negro fujão que abandonara seus serviços para seguir os revoltosos.
Tonho, o filho do Capitão, chamou o pai e segredou que na batalha em que ele fora ferido por uma lança Farroupilha, só não morreu pela intervenção de Simão.,.
_ ... ele recolheu-me para um capão e cuidou de minhas feridas e só depois de me ver em condições de voltar para casa, voltou para os revoltosos! – O velho Fernandez não ficou feliz em saber que seu único filho foi salvo pelo inimigo, mas ao mesmo tempo sentiu-se agradecido, pois além de Tonho, só tinha mais uma guria, a Terezinha, e era Tonho que deveria seguir a tradição da família. Tradição de grandes guerreiros e conquistadores. E se ele estava vivo era pela ajuda de Simão.
No bolicho os olhos e ouvidos estavam presos aos relatos do negro Simão...
_ e vai que o General Bento pega de sua espada e... – parou o relato ao ver que todos viraram os olhares para o lado da porta de entrada.
Era o Capitão e seu filho que chegavam! Ficaram todos parados como gambás ao receber uma paulada.
_ Ô Simão – correu Tonho ao encontro do negro e deu um abraço, cochichando para ele – não fala do ferimento da guerra.
_ Sinhô Tonho! Esse foi o macho taura que salvou a minha vida na guerra – mentiu em voz alta para todos Simão -, não fosse a fibra dos Fernandez, eu hoje seria alma penada a vagar em busca de salvação!
Ao ouvir a declaração do negro, todos erguerem seus copos dando vivas a bravura – mentirosa – do filho do Capitão.
_”Putcha!”... Esse é Fernandez mesmo! Não esquece um amigo nem na refrega! – gritou um gaiato.
_ E é assim mesmo! – trovejou a voz do Capitão Fernandez – Um Fernandez nunca esquece um amigo. – fuzilou um olhar a Simão – E mande logo uma rodada de canha pra todos em festejo pela volta de Simão.
A noite foi longa. Correu trova e canha até não mais.
Raiando o dia, Capitão Fernandez mais pelo efeito da maldita que pela bondade ofereceu a Simão: Se aboleta lá no galpão da fazenda. Amanhã teremos um churrasco dos buenos, que é aniversário de Terezinha!
Simão que nem atinava mais, para o bem ou para o mal, queria mais era deitar o pelego. Foi.
Simão acordou jogado sobre umas enxergas fedorentas. Olhou e viu que estava no velho galpão que dormia antes de se meter na guerra. Tudo era muito conhecido dele, menos o alarido que vinha de fora.
Se aprumou e saiu. Todos corriam para preparar uma grande festa. Só então veio em sua memória o aniversário da filha do capitão. Simão buscou na memória a imagem de Terezinha e lembrou de uma guriazinha magra como rancho de peão e embestada como mulher de Coronel que ele cuidava antes das refregas e muito deu suas costas pra brinquedo de montaria.
Meteu-se no meio dos azucrinados que corriam pra lá e pra cá e sentou-se num banco.
_Mas então ta de “valde” porque? – ouviu uma voz angelical em suas costas. Virou-se e viu a “cousa” mais linda de sua vida. Uma chinoca de cabelos torcidos por mãos de anjos e um olhar perigoso de mel pintado por demômios que atraia qualquer desavisado para uma ferroada.
_”Discurpe”! To atrapalhando? – perguntou vexado e recém e logo apaixonado. Simão pensou que se havia céu ele deveria ser povoado por anjos iguais ao que via em sua frente.
_ Simão? És tu?
_ Sim! Simão sou eu!
_ Zinha! Sou eu! Zinha! – abriu os braços em forma de cruz - . Não lembra da Terezinha?
O miolo do negro Simão fez voltas e viu a pequena Zinha que galopava em suas costas a brincar de cavalo de guerra e que cuidava dela quando ia tomar banho de rio.
Ao lembrar do banho de rio, Simão ficou com a cara encarnada. Era apenas uma menininha de oito ou dez anos, mas agora em sua frente estava uma linda mulher que qualquer um iria querer colocar na garupa e levar embora.
Foi abraçado e ficou mais abrazado ainda. Antes era uma menininha que nem cabelinho nas partes tinha, agora era um mulherão, mesmo que pouca idade tivesse.
Fugiu do abraço e se recompôs.
_Dona Zinha! – tentou uma voz respeitadora – mas então estás de aniversário?
_Ah! Bobão! Eu sei que tu não esquecerias! – sentou-se aos pés de Simão – Rezei muito para que tu viesses para meu aniversário! Sem meu amigo Simão não teria graça alguma!
Simão pouco ouvia, em sua cabeça estava a pergunta: como poderia um raminho tão pequenito virar uma linda flor em tão pouco tempo? – há se os banhos de rio fossem hoje...
_ Venha! Vamos ver os preparativos... – Terezinha levou o negro Simão pela mão para ver o que estava sendo feito para o seu aniversário. Mostrou as mesas, os doces, os mimos, o palco dos músicos e tudo o mais.
Simão se viu observado por olhos que não eram de boa amizade e nem de bom pensamento. Não era burro. Estava mui íntimo da aniversariante e tratou de se afastar.
_ Zinha... Tenho “cousas” a fazer! Depois eu volto – inventou para se afastar.
_ Tudo bem! Mas volte para a festa! – convidou quase que ordenando com seu sorriso juvenil.
Simão voltou para a vila sabendo que não deveria voltar – quando o tinhoso chama é hora de fugir - . Entrou no bolicho e pediu uma canha.
Tomou várias. Comeu lingüiça. Bebeu mais. Mijou na parede do lado de fora. Bebeu mais.
_ Vou embora! – tomou a decisão. Pagou o estrago e montou em seu também negro cavalo. As chilenas mal cutucaram e já estava a galope.
Vai que cruzou por um roseiral todo vermelho e Simão viu lá no meio uma rosa branca. Uma única rosa branca em meio as vermelhas! Frenou o pingo. Nunca vi só uma rosa branca no meio de tanta vermelha – diz para si o ginete -. Apeou e colheu a única branca.
Não atinando muito, deu volta e foi em direção à fazenda do Capitão Fernandez.
Chegou em meio à festa bem no momento em que o Capitão Fernandez ia chamar o “parabéns a você”. O flete de Simão parou bem em frente à mesa de Terezinha.
_D. Zinha – disse sem pensar Simão – estou indo embora para nem sei onde, mas fique com esta flor que demonstra todo meu amor! – Terezinha pegou a rosa branca contra o peito e com a outra mão – e um sorriso de orelha a orelha - grudou a mão do ginete dizendo: _ Só a aceito se junto for com quem ela me oferta!
Boa amazona que era, ela pulou com a ajuda de Simão para a garupa. O cavalo escarvou o chão e saiu em fuga.
Capitão Fernandez surpreso, desesperado e em meio à raiva, puxou seu moderno revolver de seis tiros e disparou e só então percebeu o seu desatino. Um de seus tiros podia ferir a própria filha!
Vendo o patrão disparar, todos os seus mandados sacaram de suas armas e também abriram fogo.
Foi um trovejar medonho! O ar encheu-se de pólvora, estampidos e gritos.
_ Cessar fogo! – gritou o Capitão. Mas já era tarde a ordem. Terezinha soltou a cintura de Simão e caiu para o lado. O corpo da moça tombou de bruços ao mesmo tempo em que os freios do cavalo foram puxados pelas fortes mãos do negro.
O cavalo parou e Simão pulou de pronto. Olhou o corpo de Zinha estirado ao solo e correu para ela.
Nem bem se acocorou junto ao corpo inerte e levou um tiro em pleno peito. Caiu para trás e antes de conseguir levantar-se estava cercado de peões armados até os dentes. Tentou chegar até Terezinha, mas foi alvejado por dezenas de tiros e estocadas de facões e lanças.
O Capitão chegou correndo e abriu-se o cerco. No centro estava o corpo de Simão todo esburacado e pintado de vermelho. A poucos passos dele estava como que adormecida sua filha deitada de bruços com as mãos escondidas junto ao peito.
O corpo da pobre foi erguido pelo pai e das mãos dela caiu uma rosa branca. Do vestido branco verteu uma grossa gota de sangue e pintalgou as pétalas brancas de vermelho.
As lágrimas do Capitão banharam os cabelos da filha e escorreram sobre as pétalas brancas pintadas de sangue.
O pai pegou o corpo sem vida da filha no colo e antes de voltar com ela para o local onde antes era festejado o aniversário de Terezinha, esmagou a rosa sangrenta com a sola da enorme bota em meio a um grito de raiva, pesar e dor.
Os peões ao verem o exemplo do comandante ficaram a sapatear a rosa já amassada contra o chão verde de grama, vermelho de sangue e molhado de lágrimas.
O corpo de Simão foi também sapateado até ficar todo desfigurado. Não foi enterrado, seu corpo foi jogado num fundo de capão e ali ficou até ser todo consumido pelo tempo e por animais carniceiros.
Logo após ser feito o enterro de sua filha, o Capitão Tavares mandou cercar o capão onde fora jogado o corpo do negro Simão e proibiu todos de ali entrar. Seria a partir daquele dia um local maldito.
E maldita também ficou a consciência do Capitão, e numa noite os cães vadios que circundavam a casa da fazenda alertaram para seu corpo dependurado pelo pescoço bem no meio do capão que ele mandara cercar.
No dia em que recolheram o corpo do Capitão ao Campo Santo uma negra da casa percebeu um roseiral que floria bem onde a rosa branca havia sido destroçada pelo Capitão e seus peões tempos antes. O fato seria até despercebido não fosse pela coloração das rosas que ali floriam: Todas brancas manchadas de vermelho.
Para o acontecido ser esquecido, o roseiral foi logo ceifado a facão e junto com o seu sumiço, sumiu a história da morte de Terezinha, Simão e do Capitão Fernandez, não fosse dez anos após, a propriedade ser vendida para um novo estancieiro, que mandou retirar a cerca que proibia a entrada das gentes ao capão que serviu de mortalha ao apaixonado Simão.
Fato foi que ao chegarem ao local onde putrefou e consumiu-se o corpo de Simão, vingava um roseiral com um único botão.
Botão branco pintalgado de vermelho!



quarta-feira, agosto 3



Música "Acalanto para um Punhal" de Robertinho de Recife, Hermam Torres e Fausto Nilo, do disco "Jardim da Infância - 1977" de Robertinho de Recife.
Cantam Robertinho, Fagner e Amelinha

quarta-feira, julho 27

CONVERSA DE AMIGOS


Joel sentou-se e pediu uma cerveja. Iria tomar só uma e voltar para casa e dormir, amanhã era dia de acordar cedo. Nenhum conhecido no bar. Ficou olhando as pessoas que voltavam pelo calçadão.
_ Joel meu velho... – ouviu – tu por aqui?
_ Edgar? – reconheceu – há quanto tempo cara! - Se abraçaram provando que era há muito tempo mesmo. – senta aí! Vamos tomar uma!
Pediram mais um copo e falaram bobagens como falam amigos que a muito se conhecem. O papo se alongou e veio mais cerveja.
Falaram de futebol, de reminiscências, de política e tudo o mais.
_ Mas e o trabalho? Como ta?
_ Beleza cara! Se melhorar estraga.
_ Ótimo! Eu também não tenho do que me queixar! – falaram sobre mais coisas pueris e veio mais cerveja.
Sempre que alguma mulher bonita entrava, os olhos deles eram roubados para elas e lá vinham piadinhas, até que:
_ E Marta? Como esta a nossa Marta? – perguntou Joel casualmente.
_ Sei lá! Deve estar bem! Nos separamos a uns seis meses. Agora eu quero mais é curtir a vida.
_ Poxa!... Sinto muito cara!
_ Sinta nada cara! A melhor coisa da vida foi à separação. Eu até tinha inveja do amigo!
_ Ora que é isso? Vocês sempre se amaram! A Marta é uma mulher legal e ...
_ É... Vá viver o dia todo com ela pra ver! – acendeu um cigarro – mulher é um porre! – levantou o copo para um brinde.
_ A saúde!
_ Que saúde o que? As mulheres! A pior e melhor coisa do mundo! – deram gargalhadas e tomaram mais uma gelada.
Joel esqueceu que iria voltar cedo pra casa e tomaram mais uma, mais uma, mais uma e mais uma.
_ Joel, tu sabes que sou teu amigo né cara?
_ Ué! Lógico!
_ Eu queria fazer uma pergunta meio... – e sustentou um silêncio que queria dizer: não devo falar, mas quero falar!
_ Fala cara! Sem frescuras!
_ Bom! A Sara? Tu ainda sente algo pela Sara ou é coisa do passado? – Joel mexeu-se na cadeira um pouco incomodado.
_ Posso? – pegou um cigarro de Edgar – O que tu falou mesmo?
_ A Sara?...
_ Ah! Que Sara o que cara? É como a tua Marta, isso é coisa do passado. Tu achas que eu vou ficar pensando em mulher que me separei a mais de um ano? – encheu os dois copos – Mas porque a pergunta?
_ Nada! Curiosidade de amigo. – ergueu o copo – Mais um brinde – soluçou – A amizade!
_ A amizade! – brindaram. Beberam longos goles e ficaram em silêncio. Depois de um longo hiato Joel perguntou:
_ Tu tem visto ela?
_ Quem?
_ A Sara?
_ A Sara? Ah! Não! – novos goles – e tu?
_ Graças a Deus não! Ferreira, trás mais uma aqui pra nós!
Veio mais uma garrafa. Serviram-se.
_ Faz uns quatro meses! – disse Edgar olhando pras unhas.
_ O que?
_ A Sara!
_ O que que tem a Sara? Fala Edgar?
_ Pois é! Faz uns quatro meses que não vejo a Sara!
_ Ah! – pausa – Então vocês se viam?
_ Não!
_ Ué?!
_ Eu a vi há uns quatro meses. Só isso!
_ Éééé?... Só?...
_ Sim! – Beberam a cerveja sem muito conversar.
_ Edgar, fala! – cortou o silêncio pesado que rondava a mesa.
_ Falar o que “Jô”?
_ O que tu ias falar! Do nada tu tiraste a Sara...
_ Bobagem...
_ Então fala!
_ O que?...
_ Essa bobagem!... – Seus olhos se cruzaram. Voltaram a se cruzar e desta vez fitaram-se.
_ Joel! Na verdade eu a encontrei logo depois que me separei.
_ É?
_ Isso! – bebeu um longo gole – Fui num botequim tomar umas e encontrei-a com umas amigas.
_ Hum... – Joel acendeu outro cigarro.
_ Sabe como é quando a gente se separa depois de anos de casado, né?
_ Não! Diga-me...
_ A gente fica feito peixe fora da água! Não conhece mais ninguém e nem sabe o que fazer...
_ Isso é!
_ Pois é! Aí a vi e fui conversar. Ela me apresentou “prum” monte de amigas e ficamos de trova. Dançamos e bebemos todas. A noite foi indo e as amigas foram indo embora e ficamos só nós dois. – apagou o cigarro de cabeça baixa.
Estabeleceu-se mais um longo silêncio na mesa dos dois.
_ Tá! Aí transaram? Foi isso? – perguntou em voz baixa Joel para ninguém ouvir.
_ Desculpa mano! Foi sim! – desviaram os olhares. Encheram os copos com o que restava na garrafa e Joel perguntou com o olhar no copo...
_ E vocês estão bem?
_ Que é isso mano? Eu sou teu amigo.
_ ...
_ Nunca mais nos vimos. Ela disse que mudou de celular e nem me deu o novo e disse que nunca me ligaria. Falou para eu a esquecer e que havia feito tudo como uma forma de revanche!
_ É!... Elas são assim mesmo!
_ Eu não entendi bem esse lance de revanche...
_ Sei lá! Ferreira, trás uma saideira! Joel pediu evitando os olhos de Edgar.

terça-feira, julho 26

TE DIGO TANTAS VEZES...


Te digo tantas vezes que te amo
Que às vezes acho que não crês!
Te digo tantas vezes que te amo
Que acho que te aborreço
Te digo tantas vezes que te amo
Que penso que tu pensas que não é real!

Te digo tantas vezes que te amo
Que quase esqueço de mim
Te digo tantas vezes que te amo
Que penso estar me repetindo
Te digo tantas vezes que te amo
Que tenho medo de te sufocar!

Te digo tantas vezes que te amo
Que espero o mesmo para mim
Te digo tantas vezes que te amo
Que tenho medo de amar tanto assim
Te digo tantas vezes que te amo
Que percebo que agora sou feliz!

Te digo tantas vezes que te amo
Que não canso de tanto repetir:
Que te amo!

sexta-feira, julho 22

Envelhecer é bom


Tenho 47.
Ainda não assimilei a idade que tenho! Às vezes eu paro e penso um pouco para lembrar a idade que tenho! Mas não tenho dificuldade para lembrar que é 47. ainda mais que só esqueço a idade que tenho e não o ano em que nasci. Tenho dificuldade para lembrar números, então lembro que nasci no ano do golpe militar brasileiro. A resposta vem na hora, nasci em 1964, o resto é só fazer cálculo e redescobrir a idade com facilidade.
E falando em idade, entendo totalmente aquela história – ou estória? – que a vida começa aos quarenta.

Minha infância foi muito boa. A adolescência foi bala – se falava “bala” para dizer que era bom quando eu era adolescente -. Foi bom os vinte, os trinta. Mas sem dúvida eu adorei a chegada dos quarenta. Não sei se será tão bom os cinqüenta, os sessenta e por ai vai até que para de ir e tudo acaba. Realmente adorei entrar nos quarenta. Me vi mais homem! Homem no sentido real da palavra. Cheguei nos quarenta e tinha uma visão melhor da vida.
Vi que entendia mais as coisas. Sabia ser mais tolerante como não era há pouco tempo antes. Sabia amar melhor – na forma espiritual e física -. Sabia entender melhor tudo o que antes achava que já sabia. Sabia rir mais e melhor – antes ria muito, mas sem saber muito bem o porque eu ria -. Aprendi a ler melhor. Ver melhor – não com os olhos físicos, mas com os olhos da razão e da alma -. Comecei a viver melhor. Acho que comecei a ser melhor!
Sim a barriga cresceu, a barba ficou branca – os cabelos ainda são rebeldes e teimam em serem pretos -, a agilidade diminuiu, mas também é por causa do sedentarismo que não tinha antes dos vinte e poucos e por aí vai. Mas computando tudo acho que os quarenta, “si pá” como fala a gurizada é bem melhor que os trinta, os vinte...

Meu filho tem 21 e eu “freqüento” a turma dele naturalmente como se 21 eu os tivesse. Os amigos dele me tratam e fazem festas comigo como se a idade deles eu a tivesse. Isso é ótimo! Isso faz os meus quarenta ficarem bem novinhos.
Ficar velho é questão de espírito, ou falta dele!

Tenho um amigo que quando é questionado a sua idade ele fala 33, 34 ou algo parecido, e apesar de ao olhar para ele ser possível acreditar, a forma encabulada com que ele fala, afirma que é muito mais.

Outro dia, estando eu no meu bar habitual, chegou um amigo de adolescência e sentou para tomar uma comigo.
Durante o tempo em que bebíamos e conversávamos foi chegando conhecidos mais novos e inclusive alguns da idade de meu filho. Por umas duas ou mais vezes eu apresentei o recém chegado dizendo: Este/a é fulano/a, filho/a do Sicrano/a.
Pouco depois meu amigo disse que iria embora, estava ficando deprimido. Perguntei porque e ele disse que estava constrangido, pois em nossa mesa sentava os filhos de nossos amigos e isso o estava fazendo se sentir muito velho.
Até brinquei que era bem melhor estar sentado com os filhos de nossos amigos que estar eternamente deitado com os pés juntos! Ele não entendeu como brincadeira e nem entendeu a brincadeira como sendo verdade. Foi embora.
Eu fiquei e continuo ficando!
Tenho meus amigos de quarenta, cinqüenta, sessenta e setenta e não vou deixar de ter os de trinta, vinte e até menos.

Considero-me um bom observador! E uma coisa que vejo no dia a dia é que tem gente que tem a idade que tem! Outros – assim como eu, modéstia à parte – parecem ter a jovialidade que sua Certidão de Nascimento afirma ser mentira, assim como conheço muitos jovens que tem muitos anos mais do que já viveram.
Ora! Envelhecer é bom!
É isso ou a morte prematura.

terça-feira, julho 19

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades - 25


Ele defendia que o homem não foi criado para comer carne e por isso ele só se alimentava de frutas, verduras, grãos etc... Não iria subverter a lógica, tornara-se um vegetariano.
Mas em sua casa tinha um cão e um gato, que ele alimentava só com ração, mesmo sabendo que os caninos e felinos eram animais carnívoros.

sexta-feira, julho 15

Triste a vida de uma cigarra


As cigarras tem um chilrrear que me irrita.
Mas comecei a ter pena dos bichinhos!
É triste saber que elas nascem e ficam enterradas no chão por anos como larvas. Larvas nunca são algo bonito.
Um dia elas saem e começam a voar. Param em uma arvore e começam a cantar – aquilo para mim não é cantar -. Com seu canto atraem uma fêmea para continuar essa vida besta.
Besta sim! Pois essa vida de cantores dura no máximo três dias. Após elas morrem.
Ou seja: quem não cantar bem, não vai transar e vai morrer virgem! – Nada bom ser uma cigarra desafinada -.
E só o macho canta! A fêmea escolhe o pop star que canta melhor e pari novas cigarrinhas antes de morrer.
Pois eu saí de minha cova. Voei! Ah como eu voei!
Mas agora estou cantando...
Triste a vida de uma cigarra.

quinta-feira, julho 14



Do LP "Retrato"

ESCUROS E CHUVOSOS


Os dias andam escuros e chuvosos
Mas desconfio não serem coisas da estação
É que sinto que as gotas da chuva
Tem muito das gotas em meus olhos represados
E o escuro, ser o simples produto
Do brilho que sumiu dos teus.

quarta-feira, julho 13



Ainda não encontrou o teu amor?

Também ficas sempre procurando!

O amor não fica em gôndolas
Para tu passares com teu carrinho
E colocá-lo entre sabão em pó
Sopinhas e dentifrícios.

O amor não se procura,
Ele nos acha!
E mesmo tendo nos achado,
Não é a certeza do amor procurado.

O amor é coisa de ser experimentado!
Temos de amar e sermos amados
Para termos uma pequena certeza
Se esse era o amor esperado.

segunda-feira, julho 4

RE-POSTAGEM 12 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


OS ERROS DOS OUTROS
Postado originalmente em 13 de novembro de 2009
O casal aproveitou a noite quente de verão para tomar uma cervejinha. Foi um dia cheio para ambos, nada melhor que uma cadeira de barzinho na calçada. Resolveram que não iriam jantar em casa. Talvez uma pizza! Enquanto não decidiam o que iriam comer ficaram a falar de amenidades do dia-a-dia.
Carla percebeu que o marido não estava muito interessado no que ela falava. O olhar de Paulo estava preso em algo do outro lado da rua. A principio ela não desviou o olhar para ver o que estava chamando tanto a atenção dele. Ela lembrava de uma discussão feia em que eles entraram noite adentro por ela estar “policiando” para onde ele olhava. Ela não queria passar por aquilo de novo. O melhor era fazer de conta que não estava percebendo nada e continuar a contar seu relato, mesmo sabendo que ele nem estava ouvindo.
Depois de um tempo ela parou de falar e ficou com o olhar perdido no cardápio. Não estava lendo nada. Estava apenas tentando não olhar para o ponto que o marido estava olhando. Na certa não era nada demais, mas algo dizia ao seu instinto de fêmea que só podia ser para uma outra mulher que ele tanto olhava.
Passou-se quase um minuto e ele nem ao menos percebeu que ela estava quieta. Não se conteve. Virou-se bruscamente a procura da oponente. Seus olhos correram pelo outro lado da rua, entrou em carros que estavam estacionados e outros que passavam, procurou alguma janela aberta onde ela pudesse estar, e nada!
Tentou puxar assunto. Nada! Ele só dava respostas monossilábicas. Paulo continuava com o olhar preso em algo no outro lado da rua. O garçom veio até a mesa para anotar o pedido. A muito custo ela conseguiu fazer ele se concentrar no pedido.
Tão logo o garçom se retirou, o olhar de Paulo perdeu-se no outro lado da rua novamente. Carla não se conteve...
_ Pelo amor de Deus! Que raios tu tanto olhas para o outro lado da rua? – Paulo deu um pulo como se fosse arrancado de um pesadelo.
_ Quê? – procurou uma resposta – Nada! Não estou olhando nada!
_ Como assim nada? Desde que nós chegamos que tu não para de olhar prô outro lado da rua!
_ Só tava olhando aquele menino que esta pedindo esmola!
_ Ah sim! E o que este menino tem assim de tão excepcional para tu não tirar os olhos dele?
_ Nada! Estava apenas pensando nesses irresponsáveis...
_ Quem?
_ Os pais desses meninos e meninas que ficam por ai! Se esse governo tivesse um pouco de pulso tiravam eles das ruas e jogavam numa cadeia os pais deles e deixavam para morrer no fundo de uma cadeia.
_ Nossa! Não acha que esta exagerando não? São apenas meninos...
_ Sim! Hoje são apenas meninos! Mas logo estarão com uma arma na mão, se é que já não as tem. Olhe bem para a “carinha de santo” que esse moleque tem.
_ Tá Paulo... Fale baixo... está chamando a atenção de todo mundo...
_ Esse é o problema – olhou confiante e desafiador para as pessoas que estavam nas mesas próximas -, ninguém quer enfrentar a verdade, só querem ficar em suas casas lamentando em frente a tv...
_ Tá bom... ta bom...
_ Ta bom nada! Onde está os pais desse moleque? Garanto que está na outra esquina só esperando o guri levar uns trocados pra ele tomar uma cachaça ou fumar uma pedra...

_ Paulo, o menino está vindo para cá...
_ É bom! Quero perguntar para ele onde estão os vagabundos que o pariram...
_ Aí Paulo! Coisa mais grosseira – impacientava-se –, não vai ser rude com a criança... Ele deve ter no máximo uns dez ou dose anos!
_ Criança... criança... pois sim!
_ Oi tio! Tem um trocadinho? – pediu o menino assim que chegou próximo a mesa.
_ Tenho sim! – respondeu - . E seu pai teria também, se não gastasse tudo com drogas e trabalhasse como todo mundo.
_ Para Paulo... – falou de cabeça baixa, tentando não ser notada.
_ Não tenho pai não tio! – defendeu-se assustado o menino.
_ Ah tá! Veio ao mundo pela graça divina!
_ Sei não!
_ Aposto que teu pai tá na esquina te esperando pra pegar o dinheiro que os otários te dão.
O menino, sabendo que nada ganharia em ficar discutindo e já calejado em ser escorraçado, virou as costas e foi para a mesa mais próxima tentar a sorte.
_ Viu! São uns dissimulados...
_ Acho que tu ta exagerando Paulo...
_ É... Estou sim! Vocês têm peninha deles né?
Neste momento entra uma mulher vestida com roupas que não combinavam com os freqüentadores do bar, não que o bar fosse de muito luxo, mas suas roupas sim é que pareciam que vinham do lixo.
_ Filho, vamos embora – disse a mulher para o menino -. Já está ficando tarde, vamos perder o último ônibus. – e puxou o menino pelo braço.
Foi uma fração de segundos, mas o suficiente para Paulo reconhecer a mulher.
_ Vamos embora Carla! – disse Paulo levantando-se.
_ Como assim? E nossa pizza?
_ Vamos e pronto. Vou pedir para eles entregarem lá em casa!
_ Mas Paulo... – Era tarde, ele já havia levantado-se e dirigia-se ao caixa.
Carla confusa, procurou no fundo da bolsa por alguns trocados. Achou algumas moedas.
_ Ei menino! – chamou. A mãe ao ver Carla com umas moedas na palma da mão soltou o braço do filho. O menino correu ao encontro de Carla – ou das esmolas - e pegou as moedas que ela lhe ofertava.
_ Obrigado tia – respondeu vivamente o menino -. Deus proteja à senhora. Boa noite.
_ Boa noite! – o menino correu para o encontro de sua mãe para ir embora.
Paulo voltou e tomou Carla pela mão. Saíram. Entraram no carro sem falar nada.
Enquanto ele ligava o carro ainda pode ver pelo retrovisor, o menino indo embora de mãos dadas com a antiga doméstica de seu pai que ele havia engravidado e tentara sem sucesso convencer ela a fazer um aborto dez anos atrás.

quarta-feira, junho 29

AS MUSAS



SE TIVÉR QUE LUTAR PELO AMOR
SEREI IMPLACÁVEL COMO ARES
ENFRENTAREI TODA A DOR
NA BUSCA DESTES SERES AMÁVEIS.

POIS SONHEI UM CÉU COM SOL
POVOADO DE AVES BELAS
NUM CÉU COM AS BELEZAS
TAIS OS SORRISOS DELAS.

PARA IR AOS CÉUS NÃO PRECISO TER ASAS
NEM INVENTAR FORMAS AUDÁZES
OU A TÉCNOLOGIA DAS GRANDES NAVES
APENAS TER O AMOR TERNO

DO CORPO DE MUSAS INEFÁVEIS!

segunda-feira, junho 27

HAI KAI 5


Fecho a minha janela
lá fora está frio
quando lembrei de minha bela
um lindo sol se abriu.

quinta-feira, junho 9

TENHO


Tenho mais é que viver
Esquecer o que foi ruim
Aproveitar tudo que for bom
E colher entre o lixo do mundo
Apenas jasmim.

Tenho mais é que é que ser feliz
E tentar sempre ser guri
Aceitando o que a vida me dá
E dormir sempre bem descansado
E sempre sonhar.

terça-feira, junho 7

RE-POSTAGEM 11 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


Finalmente havia chegado o dia.
Postado originalmente em 21, Outubro, 2009
Carlos está ansioso. Na última vez que olhou o relógio era cinco e trinta. Amanheceu e ele não conseguiu dormir um instante sequer. Finalmente havia chegado o dia.
Em sua cabeça, sua vida passava como se fosse um filme. Um filme triste mas que finalmente teria um final feliz!
Ele volta a um dia quente nos anos setenta. Uma viatura para em frente a sua casa. A mulher com uma cara de carrasco e dois policiais falam com sua mãe. De onde ele está não consegue escutar o que eles falam mas sabe que não é algo bom pois sua mãe cobre o rosto e chora. Assim que aquelas pessoas vão embora ele corre para a mãe que lhe fala entre soluços e gemidos que seu pai morrera em um atropelamento.
Os anos que se seguem não são muito fáceis para os dois. Carlos é obrigado a abandonar os estudos e trabalhar para ajudar a mãe a sustentar eles dois e seus irmãos. O dinheiro que ele consegue nos pequenos biscates é insuficiente para o sustento deles.
No começo dos anos oitenta Carlos é levado para uma “Casa Correcional para Menores Infratores” depois que foi preso por pequenos furtos. Lá na “Correcional” a vida fica pior ainda. Os funcionários os tratavam de forma desumana e a única ajuda que ele pode esperar era a de outros detentos.
Uma noite vem à fuga. Quase todos os adolescentes são pegos novamente mas Carlos consegue escapar. Muda-se de cidade e começa a viver de roubos e pequenos tráficos. Não ganhava muito mas era o suficiente para ir levando a vida.
Num final de semana Carlos vai a uma festa e conhece Tereza com quem tem um filho: Mateus. Carlos, agora um pai orgulhoso retorna a cidade natal para apresentar esposa e filho a sua mãe mas, fica sabendo que ela morreu, não se sabe lá do que, logo que ele havia sido levado para a Casa Correcional. Carlos sempre achou que foi de desgosto, mas nunca teve a certeza.
O tempo foi passando e chegou o ano em que o Brasil iria escolher o seu presidente depois de muitos anos de eleições indiretas. Para Carlos aquilo tudo não tinha importância alguma. Há muito ele havia esquecido o que era ser um cidadão. Tinha os seus iguais e seus códigos de condutas. A política em nada o interessava. Todos estavam indo as urnas e ele apenas esperava no local que fora combinado por um carregamento que ele havia acertado depois de guardar um bom dinheiro fruto de muitos roubos e vendas de drogas.
Na hora marcada o insuspeito carro lhe entregou a mercadoria e levou o pagamento. Agora ele iria ser grande no negócio. Não venderia mais para o “patrão” da boca, ele seria seu próprio chefe. E assim seria, não fosse o acerto entre a polícia e o “patrão”. Não teve tempo de vender uma só “trouxinha” e a polícia invadiu sua casa e o levou preso. O que mais doeu em Carlos foi ver o espantado Mateus - na época com doze anos – ver seu pai ser algemado e arrastado para dentro de um camburão.
Nos primeiros anos de cadeia Carlos recebia a visita regularmente de Tereza e Mateus. Carlos prometeu aos dois que quando saísse dali tudo seria diferente. Eles teriam uma vida descente e os dois poderiam sentir orgulho dele. Carlos procurou não se envolver em nenhuma confusão na prisão. Começou a aprender a ler e escrever com um pastor que lá ia atrás de ovelhas para seu rebanho.
Num dia de visita, Tereza veio sozinha e lhe falou que iria se casar com um “homem descente” – dessa vez de verdade, em igreja e tudo – e Mateus iria com ela e o novo marido para uma outra cidade. O já esculhambado mundo de Carlos desmoronou, mas com a ajuda do pastor e de outros crentes “residentes” da cadeia ele se ergueu.
Prometeu para si mesmo que terminaria os estudos que agora estava podendo ter na cadeia e guardaria cada centavo que ganhava nos trabalhos que desempenhava na prisão para quando sair dali e poder ir buscar seu filho: Talvez ele tivesse perdido uma mãe e uma esposa de desgosto, mas o filho não! Mateus veria que ele era uma pessoa mudada. Que era um homem descente assim como aquele que Tereza arranjou para colocar em seu lugar.
Não culpava Tereza! Ele é que fora culpado por não agir direito. Desejava que ela fosse feliz com seu “homem descente”, ele agora só pensava em sair e reencontrar o filho.
Os dias foram passando lentamente até que Carlos não conseguiu dormir a noite toda de tão ansioso por haver finalmente chegado o dia.
Carlos foi ao refeitório para o seu último café da manhã na prisão. Não sentiu gosto algum naquele café horrível que era-lhe servido todos os dias durante os últimos longos anos de prisão. Despediu-se dos poucos amigos que fizera ali dentro, principalmente do pastor Roberto.
Era dez horas quando vieram buscar-lhe na sala de triagem. Deu um desinteressado aperto de mão no cínico diretor que falava para ele e mais dois detentos que ganhavam junto com ele a tão sonhada liberdade naquela manhã : _ Espero não velos mais por aqui senhores, as acomodações são poucas! Como podem ver, sai três e entra doze no lugar! – apontava com seu gordo dedo para uma janela gradeada por onde se podia ver um pátio ao lado. O mesmo pátio que recebera Carlos anos atrás.
É meus senhores – continuava o discurso – isso aqui é um inferno e como existem muitos diabos como vocês, isso não acaba nunca! – Carlos aproximou-se da janela e viu os dois camburões que “despejava” doze novos detentos.
Carlos estava prestes a ganhar a liberdade mas preferiria morrer a não ter visto o que viu. Entre os doze infelizes que chegavam para ficar em seu lugar naquele odioso inferno, haviam um jovem que em muito se parecia com ele, e Carlos não tinha dúvida quem era esse jovem que ali chegava algemado, Era, o motivo pelo qual decidira ter uma nova vida, era o seu tão querido filho Mateus.

segunda-feira, maio 30

NOVES FORA com ELIS



Elis no "Sexta-Feira Nobre", antigo programa da Rede Globo.

sábado, maio 28

Eu faço canções


Eu faço canções que não tem rimas
Eu faço canções que não tem sons
Eu faço canções sem palavras
Eu faço canções que não tem refrões.

Eu faço canções de amor
Canções feita como os menestréis
Faço canções sem dós, sóis ou rés.

Eu faço canções de amor
Quando minha boca toca de leve
Tua nuca, tuas costas, teus pés.

sexta-feira, maio 20



Se amas alguém
E amas de verdade
Não vá querer
Impor que este alguém
Te ames
Com a mesma forma e intensidade.

Pois amar é coisa
Que cada um faz ao seu modo
Pois nem todo mundo
Precisa de um espetáculo
Para expor seu sentimento!

quarta-feira, maio 18

TEMPO


Era para ser eterno, mas agora preciso de um tempo!
Mas como assim? O que eu sentia não era verdade?
Fiz até mil planos. Era para toda a eternidade...
Será que o amor é algo que só vive por um momento?

Quando convidei-te para vir era para sempre!
Fiz do resto de minha vida, toda a minha vida
Tinha certeza. Era todo e pra sempre certeza!
Só não contei com as diferenças da gente.

Agora quero um tempo! Que tempo?
Por acaso tem poder a distância
De dar ao coração algum alento?

Agora quero um tempo! Que tempo?
Será verdade que dando um tempo
Pode-se apagar todo um sentimento?

terça-feira, maio 17

DEIXA


Deixa um cantinho de si
Para eu me encostar
Deixa um pouquinho de si
Para eu me completar.

Deixa somente uma saliva
Na boca e no beijo
Pra eu não morrer de sede
Em frente ao mar.

quinta-feira, abril 28

O GUARDIÃO DE SIMONE


Adroaldo desceu do ônibus e ficou sem saber para onde ir. Nunca havia estado na região norte do estado. Sentou em um banco e pensou em ligar para Simone. Achou melhor esperar. Estava ali para conhecer a família da mulher que ele amava. Daquela família só conhecia Simone – sua noiva -, e achou que seria inconveniente apressar seus anfitriões. Em poucos segundos percebeu que foi melhor não ligar. Logo saltou Simone de uma velha e muito bem conservada Rural Willis. Foi apresentado a duas irmãs e a dois cunhados. Foi levado até a casa – para ele mansão – da família.
Era quase hora do almoço e ele foi levado a uma mesa farta e enorme a sombra de um caramanchão. Conheceu a matriarca – sua futura sogra – da família. O nervosismo logo deu lugar a um bem estar. Todos eram bem receptivos, principalmente as pessoas mais próximas a Simone.
Após a sobremesa se aventurou até a tocar e cantar algumas músicas com um primo de Simone que estava gravando um disco de milongas. A cerveja foi sem parcimônia.
A tarde saiu com a noiva para conhecer a cidade. Conheceu os amigos dela e voltou a casa para o jantar. Conheceu mais alguns familiares e amigos dela e saiu para a varanda. Ficou sabendo que não poderiam dormir juntos como estavam acostumados a fazerem, pois a família era muito conservadora. Mesmo decepcionado aceitou de pronto. Deram alguns cálidos e “educados” beijos e foi levado por Simone até o quarto que fora reservado para ele. Ficariam no mesmo andar e mesmo corredor, mas, separados por um banheiro – que eles chamavam de quarto de banho -.
Deu um último e rápido beijo e recolheu-se para dormir. Estava tudo correndo bem! Havia pensado que seria difícil aquele contato, mas estava tudo muito tranqüilo. Colocou o pijama e foi dormir.
No meio da noite a cerveja consumida na tarde o acordou. Tinha de ir ao banheiro. Conjeturou se deveria ir ao banheiro de pijama ou trocar de roupa. Olhou o relógio e viu que era mais de três horas. Poderia sair sem medo de encontrar alguém no corredor. Saiu.
Tão logo chegou ao corredor, levou um susto ao ver um senhor de vastos bigodes e jaqueta militar parado no corredor, bem em frente à porta onde Simone esta dormindo.
Refeito do susto, deu um aceno e um sorriso para o homem que o olhava sério. Entrou no banheiro. Urinou e ficou culpando-se por ter saído do quarto no meio da noite. Teria o homem pensado que ele esgueirava-se para o quarto de Simone? – pensou.
Saiu do banheiro e percebeu sem muito olhar que ele continuava lá de guarda a porta de Simone. Deu um sussurrado boa noite e voltou ao quarto. Estava com sono e logo adormeceu.
Acordou tão logo os primeiros raios de sol bateram nas frestas da janela. Não soube se acordou pela luz que adentrava pelas frestas ou pela pressão que lhe afligia a bexiga. Havia bebido muito no dia anterior. Viu que era cinco e vinte. Todos deviam estar dormindo. Saiu para o banheiro.
Tão logo chegou ao corredor, viu no mesmo local o homem de espessos bigodes de plantão em frente a porta de Simone. Deu um bom dia que não foi respondido e entrou no banheiro. Realmente a família dela era muito conservadora. Aquele homem ficou ali a noite toda de guarda para impedir que os noivos tivessem algum contato.
Aliviou a bexiga e lavou o rosto. Abriu a porta e percebeu que o guardião de Simone havia ido embora. Voltou ao seu quarto e dormiu.
Foi acordado as oito e trinta pelo irmão de Simone. O estavam esperando para o café na cozinha. Vestiu-se e foi ao banheiro lavar-se e escovar os dentes. Ficou feliz em não ver o homem de plantão a cuidar dele – ou dela -.
Quando chegou na cozinha Simone veio correndo ao seu encontro dando-lhe bom dia e um beijo na boca. O abraçou e cochichou ao ouvido: _ Eles gostaram de ti! Caso contrário não fariam um café assim tão íntimo na cozinha, quando é café com pessoa de fora, eles fazem na sala de jantar e não aqui na parte íntima da casa.
Adroaldo foi saudado com bons dias amigáveis. Sentiu-se integrado a família. Foi levado a sentar entre a futura sogra e Simone. Serviram-lhe um fumegante e perfumado café. Esperou que alguém começasse a beber o café e só então levou a caneca aos lábios.
Em meio ao primeiro gole e a fumaça do mesmo, viu o homem de espessos bigodes que guardara o quarto de Simone em uma pintura desbotada em um quadro de bela moldura. Cessou o gole de café e com a caneca quase colada aos lábios perguntou: Quem é ele?
_ É meu avô! – respondeu Simone orgulhosa - Foi um grande herói que deu sua vida na revolução de trinta.
Adroaldo deu um apavorado grito, mas não pelo calor do café que caiu em seu colo!

sexta-feira, abril 15

Prolongando o Fim


Há muito havia acabado. Nós dois sabíamos que nada sobrara daquilo que um dia chamáramos de amor e que um dia fora um casal. Chegamos um dia ao momento que não havia mais o que esconder: Estava terminado!
Um de nós tinha de dar um basta, e foi você! Não tive a coragem de tomar a decisão, você tomou! Chorei! Você chorou! Não choramos por amor, mas pela dor de ver que tudo aquilo que um dia nós havíamos jurado ser para sempre chegou ao fim.
Como dois seres evoluídos e inteligentes resolvemos tudo terminar, mas havia coisas a serem acertadas antes de cada um ir para o seu lado. Ficou combinado que resolveríamos tudo com civilidade. Era só o tempo de acertarmos coisas que julgávamos triviais: casa, pensão, carro, família e tudo o mais que nos unia.
Pensava que tu ficarias em casa ao meu lado como sempre ficara até tudo se resolver, mas não! Tu começastes a ter imediatamente uma nova vida enquanto eu estava ainda entre o apper e a lona. Por respeito ou costume me pedias para sair e eu num fingido desdém te olhava e dizia: Vai!
Vai para tua vidinha pequena e burra, para tua noite falsa e podre, para os teus perdidos e doentes de espírito eu dono de mim dizia.
Tu ias! Eu ficava sozinho naquilo que um dia foi nosso lar. Olhava as paredes e não via as mesmas paredes que um dia serviu de redoma a nossa felicidade. Olhava os móveis que nós compartilhamos por toda uma vida e não os sentia mais como sendo meus. Olhava os retratos na estante e via uma família destruída... podre...
Não bebia! Me reclusava aos meus livros e discos mas eles não me davam o prazer que antigamente no meu silêncio mesquinho e egoísta em tua presença me davam. Vagava pelos corredores e cômodos vazios para preencher-me e mais vazio me tornava.
Não conseguia dormir! Ficava guardião dos ponteiros do relógio da sala de jantar. A todo som que vinha da rua corria para a porta de entrada esperando ver você furtivamente, alegre e embriagada entrar. Não eras tu! Era apenas mais um carro que passava em frente daquilo que um dia nós chamamos de nossa casa.
Finalmente tu chegavas e o desdém que havia lhe dado a “´permissão” de sair era metamorfoseado pela mais dolorosa e rancorosa raiva.
Perdida! Vadia! Burra! Mesquinha! Bêbada! Insana! Eram apenas os primeiros adjetivos que lhe jogava na cara. Tu tentavas ficar indiferente a tudo, mas depois de tanto ouvir imprecações explodias. Brigávamos por pelo menos uma hora até tu desistires e ir dormir no quarto que um dia fora nosso e eu me jogava louco como um kamikase no sofá da sala.
Não dormia de pronto! Em parte devido à excitação do embate e também pelos pensamentos e sentimentos que me percorria a cabeça feito carrossel. Abatido pelo cansaço adormecia.
Nem bem clareava o dia pulava do duro sofá e preparava um café para despertar-lhe - Não levava flores junto às torradas porque sabia que seria teatral demais - . e passava o dia inteiro a lhe paparicar e esforçando-me para criar em ti aquele velho sentimento que a muito estava morto, até o amor novamente como um camaleão retomar as cores do desdém.

quarta-feira, abril 13

De jardins alheios


Li essa semana “A arte de reviver” de Manoel Carlos e nas crônicas chamadas “De jardins alheios” e “De jardins alheios 2”, onde ele pinça algumas pérolas do livro “De jardins alheios” do argentino Adolfo Bioy Casares. Eu gostei e selecionei algumas:
_De Jorge Luiz Borges: “É tão estranho este mundo que tudo nele é possível, até mesmo a Santíssima Trindade”.
¬_De Luiz XV para o seu médico: “Ah! Doutor, não há melhor afrodisíaco do que mudar de mulher”.
_Do escritor Jules Renard: “Raramente faço promessas, mas quando faço não as cumpro”.
_Anúncio num jornal argentino: “Troco meu carro por qualquer veículo que ande”.
_Observação de um militar americano, depois da guerra: “Fazer amor com uma japonesa é como a masturbação, só que mais solitário”.(essa é um absurdo).
_Frase de pára-choques de caminhão: “Antes sonhava com você, Agora você não me deixa dormir!”.
_Observação de uma senhora Argentina: “Atualmente morrem pessoas que nunca morreram”.
_Duas de Grouxo Marx:
“Recebi seu livro. Desde que o abri até o momento em que eu o fechei, ri sem parar. Mas infelizmente não pude lê-lo” e;
Agradecendo a Academia de Hollywood, na festa em que recebeu o Oscar: “Senhores, vivi uma noite inesquecível. Mas não foi esta”
E por aí vai!
“De jardins alheios” Tema Grupo Editorial, Argentina, 1997.

quinta-feira, abril 7

alegria e dor

O que dói não é passar fome
E sim não saber quando de novo irei comer.
O que dói não é amar alguém
E sim não saber se serei amado igual por esse alguém.

O que alegra não é o riso
E sim saber quem provocou esse riso
O que alegra não é o beijo
E sim saber se sempre poderei saciar esse desejo.

terça-feira, abril 5

RE-POSTAGEM 10 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


Pequena Helena e os cães postado originalmente em 15/set/2009

É uma noite de quinta, fria e chuvosa. Helena com seus pezinhos encharcados de menina de 8 anos para em frente a um restaurante. O chinelinho velho de número menor não é o suficiente para aquecer aqueles dedinhos que estão brancos e enrugados de tanto frio. Da mesma forma, a fina camiseta e a calça de jeans puída nada conseguem contra o intenso frio.
Lá dentro deve estar bem quentinho! É o que chama a atenção da pequena Helena, mas não só a temperatura a hipnotiza, a tv de “sabe lá quantas polegadas” e a comida que ela vê sobre as mesas a atraem tanto quanto o calor que ela imagina existir lá dentro.
Hoje ela já foi corrida de mais de uma dezena de bares e restaurantes. Os garçons, em sua maioria, são indiferentes ao frio e a fome. Tem alguns que ficam penalizados mas nada podem fazer, existem ordens a serem cumpridas, e não deixar pedintes “importunar” os clientes é uma delas.
Mas parece que desta vez a pequena Helena está com um pouquinho de sorte! O garçom não lhe ofereceu nada de comer e nem deixou ela ir nas mesas pedir um “troquinho” mas, pelo menos, deixou ela entrar um pouco e ficar ali perto da porta de entrada onde não pegava vento e dava para ela ver tv.
Ela prende o olhar e a atenção na tv. Já faz muito tempo que a velha tv que o pai comprara num brique estava estragada. Ela já nem sabe há quanto tempo não vê tv, o que dirá ver o pai! Pelo menos com o desaparecimento do pai, pararam as visitas noturnas que apavoravam a pequena Helena.
Na tv, um programa que parece não interessar aos demais lhe chamam a atenção – mais para espantar aquele cheirinho de comida quente que vem das mesas e da cozinha - e ela descobre que existe um lugar em que as pessoas tem os olhos puxadinhos e que se chama China e haverá uma festa. Ela não sabe bem que festa será essa, mas, fica sabendo pela bonita apresentadora que irá pessoas de todos os paises para disputarem um monte de jogos.
Depois de mostrar lugares bonitos e outros nem tanto, a apresentadora começa a falar dos hábitos alimentares daquelas pessoas de olhos estranhos. A pequena descobre que naquele lugar que ela não sabe onde é mas se chama China, as pessoas comem cães. Nunca ela havia imaginado algo semelhante. Ela já havia comido galinha, vaca e até porco, mas cães!?!... Sabia que as pessoas comiam rãs, faisões –que ela não tinha a mínima noção do que era – e até lesmas com uns nomes engraçados, mas cães!?!...
O programa mostra os cães sendo preparados e também as pessoas os comendo com cara de que estão adorando. Como nunca alguém havia lhe dito aquilo, ela não se contém...
_ Tio...Tio...
Um senhor com cara de poucos amigos a encara.
_ ”Quié?”
_ O senhor sabe me dizer como eu faço para ir para esse lugar que se chama China? – a pergunta não esperada faz o homem sorrir.
_ E pra que tu quer ir pra China minha filha?
_ É que lá em casa a gente só tem o Bolinha e a mamãe não vai deixar a gente comer ele, ainda mais que ele é tão pequeninho pra “nóis tudo”!