quarta-feira, dezembro 29

Distância


Difícil medir a dor do exilado
Pois perdeu o aconchego de sua querência
Não por falta de amor
Mas por um amor imensurado.

Doída é a dor do retirante
Pois deixou a sua terra de origem
Não por não querer morar nela
Mas por ter de viver de forme errante.

Grande é a dor do expatriado
Que sonha com seu povo, sua terra
E não podendo voltar a viver nela
Vive sempre como se fosse renegado.

Mas é maior a dor, a ânsia
D’um coração totalmente apaixonado
Estar separado, pela distância.

sexta-feira, dezembro 24

Minha Diva das letras


Escrevia bobagens
Ela disse que gostou!
Ordenou-me: escreve mais...
_Mas para que se são só bobagens?
_Escreve porque eu gostei!

Por ordem ou sei lá
Continuei a escrever
E não é que até gostei!..

Pode ser bobagens...
Mas alguém me lê
E ela sendo minha Diva
Não pede... manda!
E vou continuar.

Mesmo que ninguém goste,
Minha “minina” Bárbula
Não penso em desapontar!

quarta-feira, dezembro 22

Do fundo do baú

O meu amor chegou-me


O meu amor chegou-me
Não era nada combinado
Sim! Era muito sonhado
Mas era algo não permitido
Algo que não seria tocado.

O meu amor chegou-me
De longe eu sempre olhava
Corria e nunca seria buscado
Mas sua passagem maravilhava
Como um sonho nunca sonhado.

O meu amor chegou-me
Até o dia de ser roubado
E d’eu afirmar que a desejava
E por ela queria ser desejado
Como se fosse planejado.

O meu amor chegou-me
Planejado, sonhado, tocado;
O meu amor chegou-me!

terça-feira, dezembro 21

Eis a saudade


Eis as mesmas noites de calor
Com seus bares lotados de copos e pessoas
Eis os dias tórridos e cansativos
Com suas horas de trabalho engessadas
Eis as transmissões de rádio
Com suas tristes notícias e alegres músicas
Eis a correria do cotidiano
Atropelada pelas compras natalinas
Eis os canteiros do parque
Com cães e seus dedicados donos
Eis o movimento do tráfego
Eis os vendedores ambulantes
Eis os policiais vigilantes
Eis os vadios a vagar pelas ruas...

E somente eu destoando
Desta eterna e cotidiana normalidade!
Pois eis que me habita uma imensa saudade.

terça-feira, dezembro 14

Teus olhos de mel


Me seduz o marrom da cerveja
Que vejo gelada na tulipa
Me seduz o rosa da rosa
Que nas pétalas habita.

Me seduz o laranja da laranja
Liquefeito em um suco
Me seduz o moreno do cabelo
D’um lendário súcubo.

Me seduz o argênteo da nuvem
Num fim de tarde com chuva
Enrubescendo o azul do céu.

Mas nenhuma cor me seduz
E me cabe assim como uma luva
Como a cor de teus olhos de mel.

segunda-feira, dezembro 13

RE-POSTAGEM 8 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


Cincinato ainda bem jovem aprendeu o ofício de eletricista residencial com seu pai. Não acumulou o suficiente nestes vinte e cinco anos para poder dizer que tem uma vida tranqüila, mas também não se queixa, ainda mais que todo final de ano ele deixa de lado fios, tomadas e chaves testes para fazer o que mais gosta: ser Papai-Noel.
A primeira vez que ele pôs a fantasia vermelha, foi apenas para dar uma incrementada no orçamento para o final de ano, e decidiu encarar a empreitada após uma menina perguntar a mãe em uma fila de supermercado, se ele era o “bom velhinho”. Cincinato olhou para um espelho e viu que sua espessa barba e cabeleira branca lembravam Papai-Noel. Ele herdara do pai, além da profissão as precoces cãs.
A princípio era apenas mais um bico, mas com o tempo ele apaixonou-se pelo trabalho, não que desse muito dinheiro, mas era a satisfação que ele ganhava que valiam a pena. Cleide, sua ex-esposa não lhe deu um filho. Ser Papai-Noel era uma forma de suprir seu amor e carência pelo filho que não tinha. Ele sabia que não era a mesma coisa que ter um filho, leva-lo a pracinha ou ao estádio de futebol, mas se contentava com suas crianças. Sim! Ele considerava todas aquelas crianças suas, pelo menos enquanto estava com a fantasia vermelha.
À parte que Cincinato mais gostava era quando podia colocar uma criança sobre seus joelhos e ouvir as palavras amorosas que elas diziam em meio ao pedido de seus presentes, aquilo sim valia a pena em vez de ficar empoleirado em uma escada trocando fios queimados.
Deu onze da noite. Cincinato entrou no bar do Denis e sentou-se em sua mesa habitual. Denis ao vê-lo abriu uma cerveja e foi levar-lhe. Ele sabia que o “bom velhinho” – como ele costumava chamar o amigo – sempre passava ali para uma cerveja e um bom papo antes de voltar para casa.
_ Um presente bem gelado prô “bom velhinho”! – brincou o proprietário do bar.
O canto direto do lábio de Cincinato – que estava quase que completamente escondido pelo bigode branco – moveu-se como que querendo expressar um sorriso. Serviu-se de um longo gole e ficou ali quieto com o olhar perdido.
Denis continuou seu trabalho, mas não sem perceber que alguma coisa estava errado com seu amigo. Às vezes Cincinato não estava lá para muitas brincadeiras, mas em geral, quando chegava a época dele encarnar Papai-Noel ele ficava bastante alegre. Chamou a esposa que acabara de fritar uns pastéis para ela assumir seu lugar no balcão e foi ter com o amigo.
_ Posso sentar e tomar uma contigo? – Cincinato lançou-lhe um olhar triste e moveu os ombros em sinal de “tanto faz!”. Denis sentou e tomou também um longo gole.
_ O que foi meu amigo? O que está lhe incomodando para estar triste dessa maneira?
_ Ah Denis meu velho... Esse trabalho me deixa muito feliz, tu sabes bem isso!
_ Sim! Claro! É por isso...
_ Sabe cara, o que me deixa mais feliz nesse trabalho? É conversar com os “pimpolhos” e escutar os seus pedidos...
_ É sei...
_ Às vezes, é bem verdade, me parte o coração quando uma criança pede algo que percebo que seus pais não serão capazes de comprar para elas, porque quando elas pedem para o Papai-Noel elas realmente acreditam que eu sou o velhinho e, que eu irei na noite de natal em suas casas para deixar lá os seus presentes... – tomou mais um gole - Aí fico pensando, o que se passa na cabecinha delas, quando pedem um autorama e encontram embaixo do pinheirinho um carrinho de plástico bem vagabundo...
_ Que isso cara! Você não é o Papai-Noel! Isso é apenas um emprego!
_ Sei...
_ E todos os anos isso acontece e sempre irá acontecer, portanto tu não podes ficar assim homem...
_ Sabe o que é Denis... – tomou mais um gole para poder continuar - É que hoje uma menininha me pediu algo que me cortou o coração...
_ Que foi? Pediu um brinquedo muito caro?
Os olhos de Cincinato encheram-se de lágrimas que começaram a escorrer pelas bochechas e pela barba.
_ Não amigo! Ela pediu para eu falar para o pai dela, que ela deseja que ele pare de visitá-la em seu quarto à noite quando sua mãe sai para trabalhar.
Denis ficou acompanhando o amigo na cerveja e num choro mudo sem saber o que dizer.

Postado por Stanis Fialho às Sexta-feira, Novembro 20, 2009

sexta-feira, dezembro 3




O anjo de Hiroshi


Ele sabia que era diferente! Olhava os seus pares e achava-se estranho, por certo seus pares o achava estranho também. Todos tinham aqueles membros emplumados, só ele não.
Nas brincadeiras todos levavam vantagens: ganhavam os ares, só ele não.
Cresceu triste. Procurou a razão de sua diferença com os seus. Ninguém soube dizer. Sonhou em ser como aquelas pequenas pessoinhas que viviam lá embaixo, que chegavam para seus pais e perguntavam: Papai porque sou assim? Mas não tinha essa chance. Ele não tinha pai ou mãe – quer dizer, tinha Um, mas não era a mesma coisa - . Pois ele era apenas um anjo.
Um dia o chamado chegou! É chegada a hora de você fazer a sua parte! – lhe disseram -. Foi jogado do céu como se asas tivesse. Viu lá embaixo um pequeno planeta azul com o qual se chocaria. Adormeceu!...
Acordou em uma sala branca com um monte de pessoas de roupas brancas. De dentro de uma mulher não muito branca saiu um ser que ele logo entendeu que seria a quem ele sempre deveria cuidar. Não sabia porque, mas sabia que devia.
Dali em diante ele só ficou ao lado daquele pequeno ser. Sabia que devia cuidar dele, só não sabia porque não tinha asas como os seus irmãos.
O pequeno ser não lhe deu muito trabalho. Tudo o que ele precisava, seus pais davam. Tudo era dado ao pequeno Hiroshi.
Os dias que se seguiram foram chatos, ele apenas cuidava do pequeno Hiroshi que morava em Nagazaki, pra não se machucar nas brincadeiras de meninos.
Mas ele percebia uma tensão nos pais de Hiroshi. Eles não desgrudavam o ouvido do rádio da sala que falava em uma guerra que estava acontecendo e que muitos de seus estavam morrendo por causa dela.
No dia cinco de agosto de 1945 ele teimou em soprar no ouvido do pequeno Hiroshi, dizendo que o menino deveria visitar seu avô que morava em Kobe, há quilômetros de distancia dali . No outro dia, depois do menino muito teimar, os pais aceitaram, e mandaram o pequeno para ver o avô.
Da janela do vagão, Hiroshi viu passar aviões em direção a sua cidade. Não pode ler em um deles: “Enola Gay”, mas soube que não era coisa boa que eles traziam.
Olhando para trás, o menino viu um monstruoso cogumelo surgir no local onde era sua cidade. O cogumelo cresceu, o chão tremeu, um som bizarro fez-se ouvir e passou por cima de sua cabeça, se ele estivesse a uma dezena de metros acima seria tragado pela aura demoníaca que consumiu Nagazaki.
Nesse momento, aquele anjo aleijão entendeu porque não tinha asas!
Se as tivesse, voaria e seria tragado pela bomba junto com Hiroshi. Mas não! Por estar no chão – e não voando – salvou a vida do pequeno Hiroshi!
Entendeu que alguns são diferentes, para fazer o mundo ser diferente e, não precisava fazer algo maravilhoso como voar, mas apenas fazer o que lhe era possível. E isso fazia a diferença.

quinta-feira, dezembro 2

Não quero nem pensar em namorar sério, porque do jeito que eu estou rindo e namorando já está muito bom!

segunda-feira, novembro 29

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades . 23


Ele era o tipo do cara que não tinha jeito com as mulheres, mas para defender-se perante os amigos contava muitas vantagens.
Chegou no bar e sentou-se com os amigos. Logo chamaram-lhe a atenção para uma gata que não tirava os olhos dele. “Vai lá garanhão”, “Ta na tua” diziam. Para não fazer feio tomou coragem, pediu um uísque e foi. Apresentou-se e pediu para sentar ao lado dela. Não sabia o que falar, mas por sorte ela era daquelas que gostavam de falar.
Logo estavam em vários papos. Ele orgulhoso olhava furtivamente em direção aos amigos e via que eles o observavam e cochichavam em meio a risos. Estava garantida a imagem de galã que ele tentava criar!
Mais algumas doses e foi surpreendido por um lascivo e molhado beijo. Entregou-se! Estava “podendo”. Não só conseguira uma estupenda gata como provava para os “gurizes” que era o cara.
Muitos beijos e amassos após, ela levantou-se dizendo ir ao banheiro. Enquanto ela afastava-se ele virou o rosto em direção a mesa dos amigos com cara de gostosão. Os amigos, não mais riam. Eles literalmente se rasgavam em gargalhadas.
Ele confuso olhou pra o lado e viu sua “gata” entrar no banheiro que ostentava a palavra: HOMENS.
Pagou rapidamente a conta e foi embora.

Qualquer semelhança com qualquer coisa ou pessoa é meramente qualquer coisa

sexta-feira, novembro 26

RE-POSTAGEM 7 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

SONHO DE GURI
Postado originalmente em Agosto de 2008

Pode parecer bobagem para a gurizada de hoje, mas quando eu era guri, o meu sonho era ter uma TV. Com o tempo tive outro sonho: Era ter um escafandro.
Quando eu era guri a minha visinha tinha uma TV. Luxo na época. Só pessoas muito ricas tinham TV’s – ou melhor TV, duas era uma afronta -. Por sorte, D.Evita era muito legal, e por não ter tido filhos, convidava toda a gurizada da rua para ver Rin-Tin-Tin, Perdidos no Espaço e outras maravilhas da época.
Eu logo percebi, que não existindo nada melhor que TV, deveria subornar D.Evita e ficava sempre de prontidão para todos os pequenos trabalhos que ela precisava. Ia fazer compras para ela, cuidava do jardim que era seu “xodó” e outras “coisitas” mais.
Em pouco tempo fui permitido e assistir TV três dias por semana na casa de D.Evita. Terça, quarta e quinta. Mas quarta era o melhor de tudo. Passava “Viagem ao fundo do mar” e eu sonhava em viajar no Sea-View que na época nós garotos chamávamos de civil.
Um dia, um personagem evadiu-se do submarino e andou de pé no fundo do mar com uma roupa estranha. Um macacão, botas de solas enormes, um cinturão cheio de barras de chumbo para mantê-lo no fundo e um capacete em forma de bolha de metal com três escotilhas, duas laterais e uma à frente do rosto. Todas com uma gradezinha de ferro.
Naquele exato momento soube: Meu sonho é caminhar no fundo do mar com um escafandro.
Quis fazer parte do clube de regata da cidade, não tinha nada haver com escafrandro, mas tinha o contato com a água. Meu pai achou perigoso. Não fui!
Quando comecei a trabalhar quis fazer natação, meu pai morreu e meu salário ficou direcionado ao sustento dos estudo de meus irmãos menores.
Cresci! Venci! Mas nunca caminhei no fundo do mar com um escafandro. Nunca fiz sequer hidroginástica ou uma apnéia.
Montei uma loja de materiais esportivos, mas nada que pude-se lembrar um passeio no fundo do mar.
Casei. Tive três filhos. Sou avô prematuro e não fiz nada do que sonhei em minha juventude.
Agora, depois de ser avô e meus três filhos casarem-se, minha mulher sumiu. Não reclamo por isso. Se tivesse coragem eu mesmo faria isso.
Depois de muitas viagens pelo google, comprei um escafandro e o coloquei no porta-malas.
Tomado de uma coragem não sei de onde, avisei meus filhos: Fiquem com a loja, vou viajar e viver tudo o que não vivi em toda a minha vida!
Protestaram. Não dei ouvidos.
Acham que fui errado? Dias antes, providenciei a passagem de minhas lojas para meus filhos. Eles não sabiam. Eu apenas queria caminhar no fundo do mar com um escafandro, depois disso...
Peguei meu carro e meu escafandro e parti. Não sabia nem para onde, apenas sabia que queria ir para onde havia mar. O meu objetivo era mergulhar com um escafandro, aquilo era o meu sonho.
Quando meus olhos começaram a cansar, parei em um hotel a beira mar para dormir, mas a alegria contagiante do barzinho em frente ao hotel seduziram-me.
Se você teve saco de ler até aqui, sabe que sou um cara muito careta, daqueles que só assistem TV e acham tudo chato. Sei! Eu era assim! Mas agora queria mudar.
Tomei todas e me fiz de garotão. Dei em cima das menininhas e algumas até responderam ao meu chamado – Claro que não por minha aparência, mas sim pela quantidade de dinheiro que minha aparência aparentava -. Fiquei bêbado logo! Não estava acostumado a beber.
Levei duas para o quarto.
Não lembro o que aconteceu, só sei que agora estou dentro do porta-malas do meu carro com as mãos amarradas e não sei o que vai acontecer!
Mas se jogarem o carro na água, aqui ao meu lado esta o meu escafandro.
Sonho de guri é batata!...

quinta-feira, novembro 18

JORNALISTA RETRÓGRADO

E EU QUE PENSAVA QUE "CERTOS" JORNALISTAS AQUI DO RS ERAM RETRÓGRADOS!

quarta-feira, novembro 17

RE-POSTAGEM 6 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

Postado originalmente em AGO.2008

O VISITANTE
Ninguém mais sabe o que é um cântaro, mas era assim que estava chovendo. O ônibus parou como sempre parava e Lucia apeou. Não com a mesma desenvoltura com que costumava descer na época em que as pessoas sabiam o que era “chover a cântaros”, desceu com um certo cuidado, agora havia um pouco o peso da idade e não era mais a mesma mocinha e além do mais havia a chuva. Calçada molhada é um convite a fraturas no cóccix.
Droga... Deveria ter pegado a sombrinha antes de descer pensou Lucia. Correu para baixo de uma marquise. Puxou a gola do casaco ao encontro das orelhas para melhor se proteger.
Poderia abrir a porta de metal envidraçada que estava a sua frente, mas não o fez. Olhou o outro lado da rua pela imagem embaçada no vidro da porta e viu que o “Sérgius” estava aberto. Pensou em dar uma rápida passadinha lá para tomar algo para esquentar o corpo, afinal havia molhado-se ao descer do ônibus.
Virou-se decidida e rumou para o bar. Não olhou para os lados, não queria ser vista entrando num bar as 23:30h pelos vizinhos. Sabia que o fato de olhar para frente não impediria de ser vista, mas aquilo lhe dava alguma segurança.
Pensou em parar em frente à porta do “Sérgius” e ponderar se deveria entrar ou não, mas não o fez.
Tão logo entrou, sentiu um calor familiar vir ao seu encontro, só então percebeu o quanto estava frio lá fora.
Tentou tirar o peso da água que escorria e tornava pesado seu leve casaco. Viu ao fundo uma mão acenar, fez de conta que não viu, não queria conversar com ninguém e além do mais detestava essas pessoas que freqüentam bares. São pessoas fúteis, pessoas de vida sofrida e que aborrecem os outros com suas histórias e, aquela mania que elas tem de achar que só elas tem uma história triste a aborrecia.
Sentou-se num familiar banco alto e desconfortável em frente ao balcão. Não vou demorar muito – resolveu.
_Oi D. Lucia. Como vai? Vai querer o que?- O sujeito não era idiota, ele falava aquilo sempre só para começar a conversa, idiota era a pergunta, pois ele sabia o que ela queria.
_Acho que fiquei sem cigarro... Dê-me um maço, por favor.- Sérgio fez como sempre fazia havia dois anos e alguns meses. Entregou o cigarro e ficou esperando o próximo pedido. Pedido que ele já sabia qual seria, mas não ousava sugerir sem antes esperar uma deixa.
Lucia olhou de soslaio para a prateleira um pouco acima a sua direita. Viu o que realmente queria e falou que havia molhado-se e poderia ficar resfriada.
_Quem sabe à senhora não toma alguma coisa para esquentar-se antes de recolher-se?
_É... Acho que seria bom... Dê-me um gim com tônica.- falou aquela frase como se fosse a primeira vez em dois anos e alguns meses.
_Tó!- Idiota, porque falar “tó” em vez de “aqui está”?
_ Obrigado Sérgio, vou tomar este e cair na cama que amanhã tenho muito o que fazer na repartição.- pegou o copo com uma certa aflição. Sabia que deveria tão logo terminar aquele drinck ir direto para casa e dormir.

* * *

Sérgio deu as costas para Lucia e foi cuidar de seus afazeres, um dono de bar não pode dar dedicação exclusiva a um só cliente, ele aprendera com seu falecido pai que ser dono de boteco é algo mais. “Um dono de bar é como um pastor para as suas ovelhas” vaticinava o falecido pai. É verdade que o pai falava em pastor no sentido religioso, ele não, o casamento com Belmira o ensinou a não brincar com coisas de religião, ele preferia usar o termo como o de um pastor cuidando no campo de animais. Sim! Muitos daqueles pobres animais precisavam de amparo e, ele não se furtava a essa obrigação e só por isso não se sentia culpado em fornecer bebidas aqueles pobres e carentes animais.
Lucia bebeu vagarosamente seu gim tônica. O primeiro era sempre mais demorado. Conferiu no display do celular – 00:02h -, já era muito tarde, teria de ir embora.
_ A conta, por favor. – Sérgio abandonou os conselhos que dava a um cliente de sempre e foi ter com ela. Deu o valor da despesa e como de praxe ofereceu: _Mais um?
_É... Acho que mais um não seria demais! – E assim ficaram como sempre ficavam até o momento em que as pálpebras de Lucia começaram a pesar e a visão ia acompanhando o peso do sono.
Pagou e saiu tesa para não dar na vista que as pernas já não eram dominadas somente por ela. Abriu a porta e novamente percebeu que lá na rua estava frio.
Parou perto ao meio-fio. Já não chovia. Divisou a porta de seu prédio no outro lado da rua e foi em passos firmes – ao menos assim ela imaginava.
Parou em frente à porta e procurou na bolsa as chaves. – Porque as mulheres são tão idiotas e sempre carregam tantas coisas na bolsa – praguejou em meio à vã tentativa de achar as chaves. Passaram alguns segundos e nada de as encontrar. Não havia jeito, teria de emborcar o conteúdo da bolsa na soleira da porta para poder encontra-las.
Fez! Nada! Nem sinal das chaves. Tornou a recolocar aquele infindável conteúdo na bolsa. Pendurou-a no ombro e escondeu as mãos do frio nos bolsos do casaco. Os interiores dos bolsos eram confortavelmente aquecidos, mas o da direita havia algo duro e frio. Eram as chaves, só então lembrou que havia separado-as ainda no ônibus para não ter o trabalho de procura-las ao chegar em casa.
Não foi muito penoso encontrar o buraco da fechadura. Girou as chaves no sentido horário, enquanto olhava pelo espelho embaçado do vidro da porta se alguém a observava. Ninguém! Ainda bem, ela sabia que havia bebido mais da conta como normalmente fazia há dois anos e alguns meses.
Não pegou o elevador e foi pelas escadas. Pela manhã ela sempre usava o elevador, mas a noite sentia um certo enjôo. Sabia que era o efeito do gim, mas não aceitava o que sabia. Era só dois andares, mas era terrível. – Esses malditos arquitetos fazem escadas fora de padrão. – cada degrau tinha uma altura diferente e o pior é que amanhã essas alturas mudam novamente.
Abriu a porta de seu apartamento. Entrou na ponta dos pés para não fazer barulho. Tateou a parede e encontrou o interruptor. CLIC!...
Não adiantou o cuidado para não fazer barulho, lá estava Osvaldo sentado no sofá de sempre olhando ela chegar.
Procurou não olha-lo ou pelo menos não olhar em seus olhos baços. Ela não suportava aquilo. Fechou a porta e largou a bolsa sobre o outro sofá. Com a ponta do sapato esquerdo descalçou o direito e após fez o mesmo com o outro pé. As chaves caíram com um ruído metálico sobre a mesa de centro, mas Osvaldo continuou ali a fitá-la como sempre fazia quando ela retornava da repartição altas horas da noite sob o efeito do álcool.
Não falou nada e foi para o dormitório apagando a luz da sala. Bateu a porta e acendeu a luz. Estava cansada, não sabia se mais pelo dia de trabalho ou pelo gim.
A cama já estava pronta. Deixava a cama sempre pronta antes de sair para o trabalho, pois sabia o quanto era penoso arruma-la à noite naquele estado.
Às vezes ela antes de deitar fazia aquelas promessas de no outro dia voltar cedo para casa e não beber, mas fazia tempo que havia desistido, pois sabia que era em vão. Ela não teria coragem de voltar para casa cedo e “de cara” enfrentar o olhar triste de Osvaldo.
Abriu o guarda-roupas e tirou o pijama. Olhou-se no espelho interno da porta do móvel e viu uma mulher que chegava aos cinqüenta e ainda guardava um pouco da beleza de tempos atrás. O cabelo estava um pouco molhado e dava um tom um pouco sensual ao seu rosto. Resolveu não seca-lo. Tirou o casaco e o vestido, ficou de lingerie. Olhou-se. Tirou o resto da roupa e ficou a olhar-se no espelho.
_Posso não ser uma menina, mas aposto que muito homem ainda me deseja. – Fez uma pose que ela lembrou de ter visto em uma revista masculina. Achou-se sexy. Virou-se um pouco de lado para fazer outra pose e viu Osvaldo a olha-la parado em frente à porta do dormitório.
_Sai! – gritou ao mesmo tempo em que colocava rapidamente o pijama. Osvaldo continuava impassível.
Vestiu-se e pulou na cama. Apagou a luz e cobriu-se até a cabeça. Ficou imóvel por um longo tempo. Aos poucos foi frouxando a musculatura e virou-se de bruços. – como ela gostava de dormir.
Tentou pegar no sono, mas logo sentiu, não um toque, mas uma sensação que seus cabelos estavam sendo acariciados. Um frio correu-lhe pela espinha e fez ela pular de sua posição para a posição sentada. Deu um grito que na certa acordou alguns visinhos que nem sequer deram atenção, já acostumados que estavam com ela. Acendeu a luz...
_Osvaldo – falou para um pálido e triste Osvaldo que estava estaqueado em sua frente com a mão suspensa – eu já lhe falei um monte de vezes, você não pode mais vir aqui. – Osvaldo a ouvia petrificado assim como os seus olhos também estavam.
_Isso não é certo! Vá embora! Me deixe! Você não vê que isso não é normal? – e virou-se de bruços novamente.
Lucia espichou o braço, mesmo sem olhar - pois seus olhos estavam fechados de uma forma que até causavam dor – e apagou a luz.
Vá embora pelo amor de Deus! – e apertou os olhos mais ainda e começou a contar lentamente...
_Um...dois...três... – e foi até o dez, cada vez mais lento até adormecer.

* * *

07:00h.
Lucia acorda. Sente um amargo na língua e no céu da boca. Está desperta, mas parece que o corpo nada dormiu.
Lembra de Osvaldo e pula para fora da cama. Não precisa acender a luz, pois a claridade já invade seu apartamento – sempre depois da chuva vem um dia de sol – e olha para todos os lados a procura do falecido marido.
Nada! Mais um dia que Lucia ficará na dúvida se as visitas de Osvaldo é fruto do álcool ou realmente ele sempre a espera chegar em casa desde o trágico dia em que ele foi fatalmente atropelado.
Stanis Fialho, 10.06.2007

segunda-feira, novembro 8

Vida de cão


Nasci na rua! Não sei dizer em que cidade. As únicas coisas que lembro é que foi embaixo de um vão de escada de um prédio abandonado e que era frio e chovia muito. Minha mãe - não posso reclamar - até que foi muito cuidadosa. Meu berço era alguns papelões e jornais com muitas palavras que nunca entendi o que queriam dizer. Minha mãe me cobria com a única coisa que tinha: seu velho e cansado corpo.
Ela sabendo que eu teria uma vida difícil, tratou de ficar sempre do meu lado e me ensinou onde deveria buscar os restos. Os restos sempre foram nossa comida e aprendi onde buscar os melhores restos e brigar para garantir meus restos. Vendo minha mãe disputar o que havia nas lixeiras nos melhores bairros a unhas e dentes, logo estava pronto para defender meu pão de cada dia com garra, gana e fome.
Quando minha mãe percebeu que eu já podia me defender por minhas próprias forças, tratou de ir embora e deixou-me dormindo sozinho em um parque. Acordei sozinho e entendi que estava por minha conta e nunca mais veria aquele ser amado que me trouxe ao mundo e agora iria seguir seu destino sem um fardo tão pesado que era seu filho.
Cresci ali pelo centro da cidade vivendo dos restos que alguém me jogava com desdém ou para aliviar a consciência. Do frio e da chuva buscava os vãos mais escondidos que havia.
Já calejado de viver de um lado para o outro, e a própria sorte e pela boa fé de alguns, certa noite fria fui até a lixeira que sabia que sempre haveria algo para comer. Ali sempre tinha um pedaço mordido de pizza ou uma metade de hambúrguer jogada fora. Mas de súbito o encontrei rasgando o saco com seus dentes sujos e afiados. Buscava comida assim como eu. Preparei-me para correr com ele de minha lixeira preferida quando ele me viu e ficou de lado deixando-me os restos de alimentos para mim. A princípio pensei que fosse por medo, mas logo percebi que não. Na verdade ele viu em mim um ser dá mesma espécie e vendo-me com fome, deixou-me comer.
Comi sem cerimônia os restos. Ele ficou ali parado me olhando com a cabeça baixa. Após estar saciado virei as costas e rumei para praça onde eu sempre dormia. No caminho eu virava furtivamente e sempre via ele me seguindo com a cabeça baixa. Cheguei ao local onde sempre dormia e vi ele sentado com um olhar abobalhado a me olhar. Deitei sobre meus jornais e dei-lhe um olhar que ele entendeu que era um convite. Chegou-se sorrateiro e roçou a cabeça em meu peito carinhosamente para provar sua amizade. Dormimos juntos aquela noite lado a lado sabendo que mesmo nós não sendo da mesma raça e família vivíamos na mesma situação.
A amizade estava feita. Ele por mais estranho que possa parecer virou a minha família. Vagávamos juntos pelas cidades, revirávamos as mesmas lixeiras e dividíamos sempre a comida, apesar dos olhares perplexos das pessoas que passavam.
Nas noites de frio ele se enrolada ao meu corpo, nos de calor ele sempre descobria um local mais fresco e sempre que alguém queria fazer-me mal ele botava dos dentes de fora e saia em minha defesa.
Viver na rua é triste! Ainda mais vendo iguais a nós comendo do bem e do melhor e tendo o tratamento VIP que tem.
Mas felizmente eu encontrei um morador de rua um dia buscando alimentos no lixo e que se tornou meu grande amigo, caso contrário minha vida de cão de rua seria muito ruim.

sexta-feira, novembro 5

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades . 22


Ontem ela foi embora. Finalmente falou aquilo que nós já sabíamos: O amor terminou.
Recolheu suas calcinhas que se confundiam com minhas meias e cuecas, resgatou sua escova de dentes, as intrusas pinturas, as pseudas lembranças e infelizmente levou alguns CD’s.
Não dei bola! Esperava este momento a muito, só não tinha tido a iniciativa para não magoa-la. Crescemos em uma sociedade machista e não admitimos errar. É melhor esperar o erro alheio delas para não termos de ouvir a culpa jogada no nosso covarde rosto.


Qualquer semelhança com qualquer coisa ou pessoa é meramente qualquer coisa

quinta-feira, novembro 4

O OURO DO AMOR


Desde muito moço ele foi instruído nas artes, na religião, nas lógicas do ocultismo e nas loucuras da ciência. Não renunciou o Deus natural, mas esqueceu o Deus criado a semelhança do homem. Aventurou-se pelos caminhos da alquimia. Tencionava transformar as matérias mais simples e paupérrimas na complexa e cobiçada matéria batizada pelos homens com o nome de ouro. Viveu os melhores dias de sua juventude entre tratados e discussões, pipetas e frascos, metais e ácidos, pensamentos e escritos, sono e insônia, adulações e ojeriza, observações e dissecações, erros e acertos até os dias – e noites, muitas noites - comerem-lhe o viço.
Já cansado - o corpo mas não o espírito -, velho – de corpo mas não de espírito – e pobre – de matéria mas não de espírito – recolheu-se a uma pobre choupana oferecida por um primo próspero no interior - mais por vergonha para tira-lo dos olhares dos confrades do que por bondade – , e por não ter mais força física que aparelhasse com seu hercúleo pensar, viu-se obrigado a dispor do auxílio de uma empregada.
Hertha, uma cinquentona fastidiosa para as coisa da carne e buliçosa para os afazeres domésticos veio habitar um quartinho nos fundos da pobre casa. Apesar da falta de instrução ela tornou-se uma grande ajudante em seus estudos além de manter o casebre limpo, organizado e aquecido.
O mundo obtuso e reduzido dela logo foi sendo edificado pelos conhecimentos e palavras estranhas daquele homem, ao mesmo tempo em que o mundo aberto e infinito dele começou a ficar embebido pela imagem daquela mulher que alem de fazer o que as mulheres faziam tinha uma curiosidade – até então para ele: coisa de homem. Poucos homens – pelo oculto e a ciência.
Os vinte anos que os separavam fez com que ela tivesse de auxilia-lo a fazer a barba, seca-lo após o banho e corrigir os botões da casaca em suas respectivas casas. Este contato – até então proibidos para seu recato – aumentaram sua adoração pelo patrão.
As mesmas duas décadas e os cuidados de Hertha, fizeram pela primeira vez os olhos atentos aos mistérios da física e do oculto, a anatomia dos corpos dissecados e das formações rochosas, aos movimentos das marés e dos astros a perceberem os mistérios, formas e movimentos daquele corpo virgem de meio século.
No segundo inverno que ela residia com ele, uma noite deixou de ser a cena das bruxas e demônios para dar guarida ao cupido. Cupido que veio em forma de uma violenta chuva com ventos piores ainda.
O parco telhado do quartinho de Hertha voou como se mariposa fosse e ela teve de buscar abrigo nos aposentos do velho patrão. O frio e os anos de libido represado os uniu. O vento e a chuva já estavam a inúmeras léguas de distancia e seus corpos ainda buscavam proteção um ao outro.
Desde aquela noite, uma chuva e um vento imaginário enxota Hertha a procurar a guarida do velho alquimista que deixou de querer transformar tudo em ouro, e descobriu o segredo de transformar carne e sentimentos em prazer e amor.

sexta-feira, outubro 29

OVO PARTIDO


Cardoso quando soube que Lígia estava grávida teve a certeza que o dia em que ela desse a luz seria o dia mais feliz de sua vida. Para ele até então o dia de seu casamento fora o dia mais feliz de sua vida, mas agora haveria outro melhor ainda. Sempre que ele olhava a intumescência do ventre de Lígia ele tinha essa certeza.
Ele nunca fizera alguma alusão daquele ventre com algo, mas no dia em que teve a noticia que o feto estava em uma posição que dificilmente possibilitaria um parto normal começou a velo como a um ovo. Um ovo que é partido ao meio para liberar a clara e a gema. Era uma imagem que não o agradava, mas que não saía de sua cabeça. Via aquela barriga como um ovo que era fendido com uma leve pancada de uma colher em cutelo e após era aberto por dois dedos estranhos que o separava em duas partes e deixava escorrer aquilo que um dia poderia vir a ser uma vida, não fosse a agressão sofrida.
Pensou até em análise para deixar de pensar naquilo, mas com o tempo acostumou-se. Barriga ou ovo tanto fazia: dali sairia sua filhinha e seria o dia mais feliz de sua vida.
Chegado o esperado dia, fumou uma carteira de Marlboro Lights, apesar de já ter largado do vício há mais de seis anos. - Achava que aquilo era o que um pai fresco deveria fazer para acalmar a espera -.
Passada uma hora e pouco, vieram informar que sua pequenina havia nascido. Ficou naquele momento o homem mais feliz do mundo. Gastou todos o créditos de seu celular a avisar a todos a boa nova. Até para seu irmão Pedro, com quem estava brigado a mais de dois anos ligou.
Levaram-no para ver a pequena Marta – nome que ela iria herdar da mãe dele – e chorou copiosamente com ela nos braços. Quis ver a esposa. Nesse momento descobriu que o dia mais feliz de sua vida na verdade não o seria. Ligia havia perecido na mesa de parto. Martinha havia dado muito trabalho e mesmo a maravilhosa e cara tecnologia não fora suficiente para garantir a vida da mãe, somente da filha. O dia mais feliz de sua vida, havia tornado-se um dia sombrio. Nuvens negras, não apenas metafóricas, mas de verdade cobriram o céu. Choveu muito no dia que seria o dia mais feliz da vida de Cardoso.
Passados velório, enterro e dias de muita chuva e choro, Cardoso estabeleceu-se em casa nova. Não conseguia viver embaixo do teto em que fora feliz.
Os anos passaram e Martinha foi crescendo. Cardoso com a ajuda de uma babá cuidou para que sua filha tivesse uma vida digna e feliz apesar de não ter a presença de uma mãe. A babá chegava cedo da manhã e Cardoso ia para o banco trabalhar, quando voltava entristecido para casa, ficava somente ele e a pequenina.
No dia em que ela completou seis anos deu uma festa com a presença de todos familiares e amigos. Até o irmão Pedro esteve presente.
Fim da tarde, com todos os convidados tendo ido embora, começou a limpar a casa que estava de ponta cabeça devido à bagunça da festa. Recolheu brinquedos, cinzeiros sujos, restos de docinhos e salgadinhos, copos e pratinhos. Lavou o que estava sujo e guardou tudo em seus respectivos lugares.
Após tudo pronto, dispensou a babá e sentou-se para fumar um merecido cigarro – desde o dia que Lígia morrera voltou a fumar com uma voracidade que parecia ser para compensar os seis anos sem fumo -.
O cigarro chamou uma dose de uísque. Serviu sem cerimônia. Voltou a sentar-se para mais um cigarro. Martinha que brincava com uma bola nova, recém ganha de uma tia acertou o copo ainda cheio de bebida que rolou sobre a mesa de centro molhando um jornal ainda não lido e a carteira quase cheia de cigarros. Cardoso pulou em vão tentando evitar o desastre.
A pequena Marta assustou-se com o movimento desesperado do pai e começou a chorar. Cardoso de joelhos no chão ao ver o jornal e os cigarros molhados virou-se abruptamente e gritou para sua filha calar a boca.
_ Chega!
O grito causou o efeito contrário. Assustada a menina chorou ainda mais. O jornal e os cigarros molhados, somados ao estridente choro e soluçar tirou o resto de paciência que habitava a cansada e confusa cabeça do pai. Levantou-se com um grito de “chega” e puxou a pequena pelo pulso. Com uma mão a prendia e com a outra dava violentas palmadas nas pernas e nádegas com o acompanhamento de novos “chega”.
Cansados, o pai parou de bater ao ver a pele branca maculada por manchas avermelhadas e a filha, parou de chorar ao ver os olhos vermelhos e insanos do agressor.
Pegou-a no colo e correu até o quarto da menina. Soltou-a sobre a cama e como um cego e louco mandou-a dormir. Saiu e bateu a porta. Estancou com as costas arfantes contra a porta recém fechada. Correu para a sala e jogou-se no sofá.
Chorou! Chorou talvez mais que a própria filha havia chorado, tentando buscar no fundo do cérebro ou do peito a resposta para a pergunta que lhe atormentava: Chorava porque havia batido na pequena Marta ou porque creditava a ela a morte de Lígia?
Algo estava partido! Algo estava entre eles fendido como se fosse uma casca de ovo.
Tentou em vão lembrar da barriga de Lígia, mas só veio-lhe a memória a maldita imagem de um ovo . Um ovo partido.

quinta-feira, outubro 28

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades . 21


Após uns quatro ou cinco dias sem ir ao bar por não ter um “pila” sequer para uma cerveja ele aparecia. Se algum amigo de copo perguntava o motivo de sua ausência ele aproveitava para contar vantagens dizendo que estava aqueles dias todos transando com uma garota. Estranho é que essas garotas ninguém conhecia.
Qualquer semelhança com qualquer coisa ou pessoa é meramente qualquer coisa

sexta-feira, outubro 22

RE-POSTAGEM 5 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração



Postado em Junho de 2008
Santiago dá um pulo. Não tão alto como o grito que seus trêmulos lábios regurgitam, mas é um pulo suficiente para assustar alguém, se houvesse alguém em seu quarto àquela hora, o que seria improvável, pois desde que Celeste o abandonou há três anos, mais ninguém a não ser o próprio Santiago, transpôs a porta principal daquele apartamento.
A cabeça lateja, dói muito. Onde estou? , é a primeira pergunta que vem a cabeça dolorida do assustado e confuso Santiago. Um abajur com motivos japoneses e a cortina improvisada com uma velha manta azul marinho o reconduz a realidade. Está em seu quarto, em sua cama. Tudo fica familiar, menos o suor no corpo e nos lençóis.
O suor escorre pelo rosto assustado de Santiago. O colarinho do surrado pijama está colado ao pescoço. Gotas de suor percorrem suas costas como se fossem pequeninos insetos fugindo em direção ao encharcado lençol.
É julho. O inverno este ano está rigoroso. Ele não deveria estar suando daquela maneira. Mas também com um sonho tão real como aquele... Santiago sentia ainda um pouco de sono, o dia fora cansativo, mas não tinha coragem de voltar a dormir – vai que o pesadelo volte! Pensou Santiago - . Dali a pouco começará a amanhecer. O melhor que pode fazer é tomar uma ducha e um bom café preto com torradas.
Jogou as pesadas cobertas no chão. Ele parecia uma criança mijada com as calças do pijama ensopadas. Um banho...Preciso de um banho!
Entrou no banheiro e foi logo abrindo o chuveiro. Jogou o pijama molhado em um canto e ficou por um longo e reconfortante tempo recebendo a água quente na nuca. Aos poucos a dor de cabeça o deixou.
Está de olhos fechados, mas mesmo no negror das pálpebras cerradas, ele percebe – ou imagina perceber – uma sombra passar pelos peixinhos azuis estampados na cortina plástica do box.
Sem pensar em nada, apenas agindo com o mais primitivo dos instintos humanos, ele abre a cortina e prepara-se para o embate.
Não fosse pelo vapor produzido pela água quente e de seu próprio reflexo no embaçado espelho sobre a pia, ele estava só. Bobagem... Não foi nada, apenas manifestações dos nervos que ainda estavam chocados com o sonho que o acordara no meio da noite.
Sons estranhos vindos do interior de seu abdômen o lembram daquele café preto com torradas. Enxuga-se com a áspera e fedorenta toalha floreada. Enrola-se com a mesma e sai pelo corredor a tempo de ver um vulto movimentar-se do corredor para a sala. Estaca. Quem será?
Procura ao seu redor algo com que possa se armar. Nada! Afinal está no corredor! Volta para o banheiro. Olha em torno e... nada. Em um banheiro não há nada que possa meter medo em um intruso no meio da noite.
Arma-se com o que lhe resta: a coragem – talvez apenas a necessidade – e vai em frente. Avança com o corpo colado a fria parede. Nem de calças está. Se cair a toalha... Aquela não era hora para pudores, mas também não era o pudor que o afligia. É que sem dúvida, seria bastante vexatório se engalfinhar com quem quer que seja estando nu.
Tentou dar um nó na toalha na linha da cintura. Sem jeito. A gordura estava bem localizada justamente na cintura. Pela primeira vez deu importância a um regime.
Sem pensar em mais nada pulou como um cão raivoso no meio da sala pronto para o embate. Ele – o intruso - por certo sairia correndo ao ser surpreendido e não haveria a necessidade de uma luta. O que seria muito bem, ainda mais agora que ele finalmente dera-se conta que estava completamente fora de forma.
Ao perceber que estava só não conteve uma gargalhada. Sentiu-se bobo ao ver-se refletido no vidro da porta de correr que dava para a sacada. Parecia um obeso havaiano com aquela floreada toalha amarrada a enorme cintura.
Já tinha idade suficiente para saber que a mente costumava pregar peças quando assustada ou confusa. O que ele viu, ou pensou ter visto não era nada. Talvez o efeito do farol de algum automóvel que tenha passado lá embaixo. Ele estava no segundo andar, bem que poderia ser, ou talvez a confusa imaginação.
Já estava solucionado o problema, quando ouviu o barulho que veio lá da despensa. Um baque surdo. Algo havia caído no chão, ele soube não só pelo barulho mas também pelo pequeno tremor provocado no piso.
Veio-lhe então novamente a cabeça o tal vulto que ele agora começava a acreditar realmente não ter visto. Terá alguém na despensa. Só há uma forma de saber. Mas desta vez não iria assim tão desprotegido. Correu até a cozinha a abriu a gaveta do balcão da pia. Havia inúmeras facas ali. A de serrinha não pareceu ser a adequada. A espátula nem pensar. Sim! Essa... A faca de churrasco é ideal. Afinal para que serve uma faca de churrasco? Cortar carne! E se estiver acontecendo o que ele temia que estivesse acontecendo...
Voltou na ponta dos pés para não fazer barulho. Bobagem! Pensou: Depois do pulo do obeso havaiano não tenho mais a vantagem da surpresa. Ao pensar no havaiano, lembrou da toalha. – Desta vez enfrentaria o perigo com mais dignidade – Correu ao closet e colocou a primeira calça que encontrou. Pronto, agora sim não era mais um havaiano obeso. Sentia-se mais como um samurai com aquela enorme faca nas mãos. Um samurai gordo, mas um samurai!
Voltou a postar-se frente à porta da despensa. Foi uma mão trêmula que tocou na maçaneta.
No exato momento em que ia abrir a porta, ouviu aquele barulho. Deu um grito junto a um pulo e o coração saltou fora do peito, assim como a faca saltou-lhe da mão, deu dois giros no ar e caiu no chão fazendo grande estardalhaço, mas não sem antes deslizar o afiado metal nas costas da mão de Santiago.
Novamente o barulho. Era a campainha. Quem poderia ser àquela hora?
Finalmente Santiago percebeu que havia cortado a mão. A faca estava no chão com um filete de sangue na lâmina. Um quente pingo vermelho e redondo caiu sobre a unha do dedão. Outro... Agora no piso. E lá vieram outros. Santiago ficou espantado com a quantidade de sangue que saia de tão pequeno ferimento. A campainha insistia. Santiago correu novamente para a cozinha e enrolou o pano da louça a mão ferida – será que a gordura centenária depositada no pano não prejudicaria o ferimento? – perguntou-se. A campainha insistia.
Mas era para sorte de Santiago alguém tocar sua campainha àquela hora, afinal, até que provem o contrário tem alguém que não foi convidado, dentro de sua despensa. Com mais alguém, poderia ser mais seguro enfrentar a situação. Santiago não era de flertar com o perigo.
Abriu a porta. Do outro lado estavam dois homens de ternos. Disseram o nome de Santiago e foram logo entrando e anunciando-se como sendo da polícia.
Santiago ficou aliviado. Era tudo o que precisava. Dois policiais para lhe ajudar com o intruso. Só um deles usava gravata e isto deu a Santiago a certeza que era aquele que mandava. As gravatas servem para isso. Para dar distinção as pessoas, pelo menos era isso que ele pensava. Os olhos profissionais do homem de gravata localizaram em um instante a faca no chão. O pano enrolado a mão que rapidamente ficava vermelho, até o outro homem que não portava sinais de sagacidade já havia notado.
_Machucou-se, Sr Santiago? Perguntou o primeiro, colocando-se bem próximo a Santiago, como se quisesse certificar-se que ele não faria nenhum movimento indesejado.
Santiago respondeu prontamente que sim, a faca de churrasco havia caído de sua mão e ferira a outra, mas era providencial a chegada deles...
_Por que Sr. Santiago?Seria algo sobre sua esposa?- Santiago não entendeu, o homem que ele julgava ser o chefe, falava coisas sobre o desaparecimento de Celeste, sua cabeça voltou a doer. Mas como assim desaparecimento? Celeste havia desaparecido? Quando? Faziam mais de três anos que não a via...A dor aumentava.
_Deixe de tolices homem, se ela foi vista com o senhor há três dias...
– Não!. Aquele policial devia estar maluco, pensou Santiago mais confuso ainda. E aquela faca? O policial quis saber o que Santiago fazia com a faca. O intruso na área de serviço veio à memória de Santiago em meio aquela loucura toda, ele até havia esquecido. Foi em meio a gaguejadas que ele relatou sobre o intruso. Mas agora – afirmava – que vocês estão aqui, podemos pegá-lo.
Santiago abaixou para pegar à faca. Mesmo com os policiais ali, não iria abrir a porta de despensa sem uma arma. Foi seguro por duas mãos fortes e advertido para não tocar na faca. Sem entender e lutando contra a dor de cabeça quis explicar que era para revistarem a despensa. Já havia perdido muito tempo, o intruso poderia muito bem ter pulado pela janela, afinal quando se quer fugir de alguém o pulo de um segundo andar não é algo assim tão espetacular.
Seu braço foi torcido para as costas. O homem sem gravata estava com uma pistola na mão. Sentiu que seus pulsos foram presos com algemas. Foi jogado, sentado a um sofá que ficava de frente para a despensa. Tentou protestar, mas as palavras e o tom de voz do homem da gravata o intimidaram.
_Fique quieto senhor Santiago – disse o homem com um dedo apontado para o nariz de Santiago como se fosse uma arma pronta para o disparo -, vamos ver o que temos aqui! – Com um lenço o policial pegou a faca tinta de sangue e colocou em um saco plástico. Santiago lembrou dos filmes de TV, aquilo era para preservar as digitais dele na faca, mas era absurdo tudo aquilo. Era lógico que as digitais seriam dele, ele que estava com a faca e além do mais a única pessoa que talvez tenha tocado nela era Celeste, e isso a uns três anos.
A porta da despensa foi aberta pelo policial que falou com um misto de asco e triunfo na voz... “Mas o que temos aqui!”. E Santiago mergulhou em um abismo confuso. O que era aquilo? Como seria possível? Celeste estava jogada no chão em meio a uma enorme poça vermelho escuro de sangue coagulado. Reconheceu-a mais pelas roupas que pelo rosto. Ele- o rosto – antes belo estava irreconhecível diante de tão hedionda violência que havia sofrido.
_Senhor Santiago, o senhor está preso pelo assassinato de Dona Celeste, sua esposa...
Santiago dá um pulo. Não tão alto como o grito que seus trêmulos lábios regurgitam, mas é um pulo suficiente para assustar alguém, se houvesse alguém em seu quarto àquela hora, o que seria improvável, pois desde que Celeste o abandonou há três anos, mais ninguém a não ser o próprio Santiago, transpôs a porta principal daquele apartamento.
A cabeça lateja, dói muito. Onde estou? , é a primeira pergunta que vem a cabeça dolorida do assustado e confuso Santiago. Um abajur com motivos japoneses e a cortina improvisada com uma velha manta azul marinho o reconduz a realidade. Está em seu quarto, em sua cama. Tudo fica familiar, menos o suor no corpo e nos lençóis...

Gravataí, 06 de Janeiro de 2008.

quarta-feira, outubro 20

Efeitos de 3D em fotografias



Mas uma que surrupiei do Bar do Bulga( ver nos ABC ao lado ).

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades . 20



Após cinco dias sem Olívio aparecer no escritório, o pessoal começou a ficar preocupado. Como ele era um solteirão convicto e além de morar sozinho e sempre estar sozinho resolveram ir conferir seu apartamento. Mateus Costa, seu chefe, meteu o pé na porta. Encontrou Olívio morto em sua cama. Na mão o celular.
Mateus pegou o aparelho e olhou as mensagens. Todas as mensagens eram muito carinhosas e sensuais. Olhou o nome da remetente: Rita Costa, sua esposa. Excluiu todas as mensagens antes que os outros pudessem ver.
Fingiu estar sentido pela morte, não pela perda, mas para não expor seu já fragmentado casamento com Rita.



Qualquer semelhança com qualquer coisa ou pessoa é meramente qualquer coisa

segunda-feira, outubro 18

SONETO PARA UM ANJO


Vejam só, eu não sabia de nada!
Achava que só nos escritos bíblicos
Ou nas fábulas, contos e fantasias
Que existiam esses seres oníricos.

Hoje sei que os anjos existem
Hoje sei que os anjos cantam
Hoje sei que os anjos dançam
Hoje sei que eles também amam.

Não vivem no céu, nem no paraíso
Não possuem asas e para viverem,
Só um amor de verdade é preciso.

Não tocam harpa, sequer algum banjo
Eu apenas sei que eles existem porque
Hoje tenho em minha vida um anjo.

sexta-feira, outubro 15

Sete dias


Sete são as cores do arco-íris
Sete as cores da saudade
Sete foram os dias de espera
Cada um em sua cidade.

Sete são os dias da semana
Sete, na fábula eram os anões
Sete era a melhor carta de ouro
E somente eram duas as paixões.

Triste, sozinho num feriado
Contou impaciente os sete dias
Por ter um coração enamorado.

Feliz, retomou seu dia-a-dia
Esquecendo sete dias de agonia
Vendo-a, tornou-se em pura alegria.

quinta-feira, outubro 14

EU


Ainda bem pequeno, com a alma muito pura
Viajou nos sonhos da mãe e sonhou em ser frei;
Com o avô, cuidando de galinhas, porcos e cavalos
Achou que sua vocação era a de ser veterinário;
Quando foi seduzido pelos filmes de aventuras na tv
Resolveu que um dia seria nas telas um famoso ator;
Como não gostava de carrinhos de plástico e bola
Mergulhou no mundo dos quadrinhos e resolveu ser desenhista;
Vendo o sofrimento pela doença de um irmão
Pensou até ser um dia um médico cirurgião;
Depois se encantou pelas músicas nordestinas
E achou que poderia ser um cantor ou compositor;
Descobriu um mundo não muito honesto e feliz
E achou que sendo político poderia muda-lo;
Acostumado com a companhia dos livros
Tentou em vão ser um grande escritor;
Cresceu, apaixonou-se e virou pai de família
Levou até onde deu e tentou tudo recomeçar;
Passados os sonhos e vivendo na pura realidade
Finalmente ficou feliz ao perceber que era simplesmente:
EU!

quinta-feira, outubro 7

Onda verde?


O segundo turno, em minha opinião mostrará que a chamada “onda verde” não existiu. A votação de Marina Silva(PV) não se deu simplesmente porque as pessoas pensavam em ecologia, mas também em grande parte porque não queriam Dilma ou Serra e muitos outros porque viam em Marina o voto do candidato “bacaninha”, “intelectual” ou “moderninho”. Isso já aconteceu com Heloisa Helena e em 89 com Roberto Freire e, ambos estão de certa forma esquecidos. – Freire nem sei se concorreu, mas Heloisa não conseguiu se eleger-.
Porque mostrará que a onda verde não existiu? Porque Marina, e muito menos o PV não conseguirá transferir votos. Se fossem votos ideológicos ela transferiria, mas não o são. São votos de descontentes e dos que vêem na terceira via o caminho certo.
Os votos de Marina e dos nanicos serão pulverizados em Dilma, Serra e Nulos.
E alguém pode me explicar, quando foi que Marina percebeu que o governo Lula era ruim? Quando estava no governo ou quando levou um pé na bunda?
É igual à Heloisa Helena. Falava contra o Delúbio mesmo tendo sido eleita no mesmo momento em que ele operava a grana da campanha. Como ela conseguiu separar a grana que vinha para sua campanha para dizer que a de todos petistas era fruto de corrupção e só a grana que ia para a sua campanha era honesta?
Para mim: Marina é a Helena de amanhã!

quarta-feira, outubro 6

Fundamentalismos religiosos são ameaça à democracia brasileira

Um dos problemas que afloraram nesta eleição é o da emergência dos fundamentalismos religiosos católicos e protestantes, tentando influir nas decisões políticas do país. Até mesmo a famosa organização fascista-católica Opus Dei, de grande penetração na Península Ibérica, estaria presente em São Paulo, apoiando o candidato do PSDB.
Luís Carlos Lopes


POSTADO NO http://blogoleone.blogspot.com/2010/10/debate-aberto-fundamentalismos.html#links

terça-feira, outubro 5

ALGUÉM


Alguém corre pela rua
Não é de medo
Não foge dos carros
Talvez de alguns olhos.

Alguém gira na cama
Não é de insônia
Não é de dor
Talvez de amor.

Alguém corre no meio-fio
Não é equilibrista
Não é alguma fuga
Talvez seja apenas festa.

Alguém sobe lombas
Mas não de frente
Mas rindo de costas
E eu imito.

Sou louco?

Sim!
Por ela!

quarta-feira, setembro 29

Continho Miudinho - 8

Ele: Me desculpa amor! Quando eu falei, eu falei algo que eu não queria realmente falar...
Ela: O que importa é que falou!
Ele: Sim, mas é que eu só fui entender o que eu falei...
Ela: Quando era tarde e eu já havia entendido!

terça-feira, setembro 28

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades . 19

Na disputa pelos votos dos eleitores de Gravataí, um candidato a vereador - que não digo o nome nem sob tortura! Sob suborno talvez! -, promoveu um sopão num bairro de classe baixa.
Quando o panelão já estava borbulhando com umas folhas de repolho a boiar, ele proferiu a celebre frase em seu discurso:
Vocês não devem votar nestes candidatos engravatadinhos do centro, porque eles não entende vocês. Eu sim! Porque eu também já fui “chinelão”.



Qualquer semelhança com qualquer coisa ou pessoa é meramente qualquer coisa

segunda-feira, setembro 27

RE-POSTAGEM 4 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração



O táxi parou. Perguntei naquele dialeto arrastado e pastoso que só os taxistas que trabalham a noite ou porteiros de boites entendem, o quanto devia. Paguei. Se fui logrado? Vá saber?!
Não levei muito tempo a achar a chave certa. Abri a porta e acendi a luz.
Joguei as chaves que produziram um estridente som ao bater no tampo de metal da mesa de centro. Olhei para o pé do balcão da pia.
Correu de lá – o que eu já sabia – um camundongo. Meus olhos correram assim como o camundongo para a geladeira. O camundongo passou como uma flecha.
Ele agora iria passar da geladeira para baixo do fogão. Eu já sabia o trajeto havia dias – seriam semanas? Meses? -. Podia pular e com o pé acabar com o infeliz.
Passou. Agora - isso eu também já sabia, sairia do fogão e passaria em uma distância um tanto perigosa frente ao inimigo: Eu, e correria para o banheiro.
No banheiro, por mais que eu procura-se não o encontraria. Havia um local secreto que aquele ser habitava durante o tempo que eu não estava presente – ou não estava acordado -, que eu não conseguia achar.
Teve um dia que me esmerei em procura-lo, mas foi em vão. O danado tinha um local só dele. Desisti. O mais fácil é ir a uma agropecuária e comprar um veneno.
Há pessoas habilitadas para tudo. Talvez as coisas não sejam tão simples na vida como a gente pensa ser. Em vez de procurarmos um eletricista, nós mesmos fazemos, e por isso mesmo nem sempre fica da forma que queríamos. Em vez de um encanador nós mesmos metemos a mão na massa e depois ficamos com aquele cano sempre a pingar.
Procurei quem sabia. O cara com cara de profissional falou que aquele determinado produto era tiro e queda. O bichinho morreria na hora, mas tinha outro que tinha um efeito retardado. Tinha um cheiro sedutor ao meu “amiguinho” e que depois de ele ingerir aquela “maravilha”. iria dar uma necessidade enorme a ele de beber água. “Quando a água entrar em contato com o produto no interior do organismo dele, vai petrifica-lo!”. Ele morreria e o próprio produto ia ressecá-lo e não produziria nenhum odor. Mesmo que eu não achasse o pequeno cadáver, não teria nenhum incomodo, ao contrário do outro que eu enfrentaria o odor da putrefação. Era esse mesmo que eu queria. Comprei.
Essa compra foi há muito tempo atrás.
O produto, eu o guardei em uma gaveta em sua embalagem. Nunca fora aberta. Algo me impedia de abri-la.
Fazia quase dois anos que eu estava morando sozinho. Não tinha filhos e minha mulher havia ido embora sabe lá Deus para onde.
Foi assim:
No começo, foi uma maravilha. Nunca havia sentido uma liberdade tão grande. Nunca havia podido viver desta maneira, sair e voltar a hora que bem entendesse sem dar satisfações a ninguém – havia meu chefe é claro, mas isso para o relato não conta -. Estava me sentindo finalmente livre.
Passei os primeiros dias a tomar cerveja e indo as boites que meus amigos falavam e eu nunca havia ido.
Mas havia dias que voltava para casa tão logo terminasse o expediente. Fazia minha caipira, um jantarzinho, tomava um banho, um chimarrão e via TV e dormia esperando o dia de amanhã.
Com o tempo o vazio da casa começou a me encher. Ouvia barulhos que não haviam e ficava preocupado. Vezes que outras, vultos passavam por trás de mim enquanto lavava a louça. Sabia que era a solidão. Não eram fantasmas. Fantasmas são lembranças que esquecemos de esquecer.
Com o tempo meus afazeres ficaram entediantes e comecei a voltar para casa cada vez mais tarde.
Quando percebi, minha fruteira era um cemitério de frutas gestantes, um ventre fértil de seres nojentos e um mundo convidativo a insetos indesejados.
Fiz uma grande limpeza em um sábado. Pronto: Só porcaria chama porcaria!
Com um fogão inativo e uma geladeira com água e cerveja, adotei os bares como locais de minha alimentação. Quando o último amigo abandonava o bar lembrava que também tinha uma casa.
Foi numa dessas noites em que eu voltava para casa com mais umas duas ou mais garrafas em uma sacola plástica que eu o vi pela primeira vez. Era pequenino. Cinza. Até bonitinho era.
Ao abrir a porta ele correu e fez o trajeto que nós já sabemos. Era metódico o bichinho.
Enquanto eu ficava na rua ele reinava naquela casa vazia.
No começo não dei muita importância a ele. Ia trabalhar e nem lembrava de sua existência, mas com o tempo e com tantas vezes vendo ele fazer o mesmo trajeto, resolvi: Tenho de me livrar deste ser abjeto, e como já falei, comprei o veneno...
Pela manhã não colocava o veneno – nos cantinhos como falou o cara que vendeu-me -, nem lembrava sequer dele ou do veneno. À noite ao ver ele correr, ficava com pena do bichinho. Ele era como eu! Quando eu ia ao trabalho ele fazia o seu mundo. Quando voltava, altas horas, ele se recolhia e deixava eu reinar sobre aquele silencioso mundo.
Assim ficamos por muito tempo. Ele rei de dia eu rei à noite. Se ele se aventurava enquanto eu dormia? ...Eu não sei, mas acho que não! Ele era o meu único amigo fiel.
Sim! Fugia quando eu chegava. Mas imaginem, quem não fugiria tendo aquele “tamanhinho” em frente a um gigante? E um gigante mau que compra veneno para matar seres pequeninos?
Assim ficamos meses. Vendo-nos como se não nos víssemos. E para dizer a verdade, muitas vezes fiz olhos de cego para suas investidas fortuitas. Ele achando que eu não o via passava despreocupadamente próximo ao meu pé.
Não fosse a solidão...
Ele também me via quando eu não o via. Eu sabia. Quantas vezes ouvi um frenético bater de pés no piso do banheiro quando me desfazia do excesso de álcool na privada, ou quando bradava impropérios sozinhos na sala.
É!...Nunca tive coragem de matar meu amiguinho!
Talvez um dia quem sabe?... Após dias sem eu não aparecer ao trabalho, a polícia venha e arrombe minha porta e encontre a embalagem do veneno aberta, caída ao chão, ao lado de meu corpo sem vida, e ao lado o cadáver de um camundongo.


Postado por Stanis Fialho às Segunda-feira, Abril 28, 2008

sexta-feira, setembro 24

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades . 18

Quando eles eram casados, presentear com flores ou chocolates, dar carinhos ou prestar atenção às pequeninas coisinhas que ela vinha contar ou então notar uma nova calcinha ou um novo corte de cabelo era para ele uma frescura. "Coisa de mulher" ele dizia.
Agora que ele a percebia feliz longe dele e a casa estava vazia e aquele monte de amigos não estavam mais ao seu lado, ele passou a reparar tudo nela e a presenteá-la com os mais variados mimos



Qualquer semelhança com qualquer coisa ou pessoa é meramente qualquer coisa

quinta-feira, setembro 23

Olhos de Iracema


Lá fora a vida corre apressada
Em um ritmo de gente preocupada
Na fúria de quem se consome;
E a gente aqui embalado pelo ritmo
De uma velha canção da Simone.

Claro que aqui dentro de nosso castelo
Tudo o que temos e fazemos é belo
Estamos resolvidos e não vivemos dilemas;
E eu fico refém de teus beijos e abraços
Deliciando-me com os teus olhos de Iracema.

Pode sumir o sol, sumir até a lua
Aqui tudo se encaixa como a uma luva
Afinal, tudo começou numa noite de chuva!

terça-feira, setembro 21

PRIMAVERA

Com o sol a aquecer à tarde
O passeio ficou pintado de pessoas alegres
E o silêncio habitual virou sons de piqueniques.

Mães correram a passear com os filhos
A aproveitar a trégua dada aos intermináveis dias de chuva;
Jovens cansados de televisão e vídeo-games
Ganharam os parques com seus trajes esportivos
Alguns a procura do prazer de exercícios físicos
Outros – vaidosos – apenas para mostrar o corpo;
Cães ha muito aprisionados em apartamentos
Corriam satisfeitos junto a seus donos;
E livros ha muito fechados, exibiam suas folhas abertas
Como se fossem folhas verdes a processar uma literata fotossíntese.

Eu domino minha heliofobia
E junto-me a esse alegre panorama;
Vou só, com meus discretos e corriqueiros trajes
Com um livro fechado preso ao braço;
Não estou interessado em exercícios ou literatura.
Com a chegada da primavera só tenho um interesse: as flores...

Estas flores que passam sorridentes sob o sol da tarde.
Flores loiras, ruivas, negras e – sempre... sempre – morenas
Principalmente as flores morenas de folhas revoltas e esvoaçantes.

Não sou o único que se dedica a essa botânica sensual
Inúmeros olhos masculinos correm de uma flor a outra
Buscando aquela que lhes pareça à ideal.
As mais enfeitadas ganham maiores quantidades de olhares
Mas meu olhar logo perde o interesse nelas
Pois encontro neste enorme jardim uma flor que não precisa de enfeites para ser bela;
A simplicidade e o despojado trajar a torna a rainha entre estas flores
E mesmo todos os olhares e sorrisos deste saboroso ramalhete
Não se comparam ao seu jeito amado de menina moleca.

terça-feira, setembro 14

RE-POSTAGEM 3 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


Coisas que acontecem
postado em abril de 2008



Não tem um aviso. Não é como o corte do fornecimento de energia elétrica, que chega com um comunicado alertando que se não houver o pagamento da fatura ficarei no escuro. Não é como a carta de uma amante ressentida ou entediada que diz: acabou, ou a bravata de um inimigo que alerta que serei atacado. Apenas fico sabendo.
Chego em casa para dormir, como todos os outros dias. Mas em determinados dias percebo: é hoje.
Tento de todas as formas postergar a hora de dormir. Pois será exatamente na hora do sono que irá acontecer. Penso em virar a noite acordado. Em vão tento passar toda à noite lendo um livro, mas o sono vem. Se ligo a TV logo meus olhos começam a pesar como se de chumbo fossem. Inutilmente jogo água fria ao rosto. À vontade – necessidade ou ordem – me levam de novo a cama.
Uma força que vem não sei de onde, sempre me encaminha para a cama. Não sinto medo. Apenas sei que devo deitar.
Um sentimento idiossincrático, me obriga a dormir, vencendo um paradoxo sentimento muito primitivo que tenta um duelo. Mas não há razão, a lógica perde o sentido, o sentimento de preservação é obscurecido como o de um viciado em frente à droga, É o néctar da adrenalina de um pára-quedista, que mesmo sabendo que pode se estatelar ao chão; arrisca-se. Sou como o Gnú que sabe que o rio está infestado de crocodilos e mesmo assim tento a travessia. Assim sou eu, atiro-me aos braços de Morpheu.
Em uma última tentativa de fuga, deito de bruços.
Há a proteção do lençol, do colchão, do lastro da cama, da forração do piso e o piso. Estou no quarto andar. Abaixo de mim, há concreto, aço, mobílias e um monte de coisas que sei que não irão impedir de meu peito ser tocado, mas mesmos assim como uma última tentativa, eu tento.
Disseram-me que contar carneirinhos ajuda a dormir. Já fiz isso em noites de insônia. Perdi as contas de quantos carneirinhos contei e junto com eles, perdi a chance de dormir. Com o passar dos dias – ou melhor, as noites -, aprendi que tentar relembrar o último livro lido ou filme que havia assistido, me trariam o sono perdido. Isso é para mim muito precioso, pois sofro de uma interminável insônia. Parece que só durmo normalmente – se é que pode ser chamado de normal -, quando sinto que será “naquela noite”.
Já falei que meus olhos pesam como chumbo! Nunca fiz yoga! Mas deve ser assim que ficam os grandes mestres ao atingir a plenitude da concentração. O tempo some. Meu corpo fica leve. O coração – órgão que nunca sinto, em outros momentos – começa a retumbar calmamente como ao de um cortejo fúnebre. E vai diminuindo, diminuindo, diminuindo até eu não o perceber mais.
Não tenho mais senso de equilíbrio e de espaço, não sei mais se estou de bruços ou não. Ouço coisas que não sei dizer o que são, apenas sei que são aprazíveis. É como um gozo! Não um gozo normal. Não é carnal...
Mesmo não sabendo nada, sei que sentirei algo entrando em meu peito. É como um braço com uma mão não humana percutindo todo o interior de meu interior. A sensação não é ruim, mas também não causa nenhum prazer.
Essa mesma “mão” sobe pela garganta e detém-se em meu cérebro, e é nesse momento que tudo some. Não lembro de mais nada, e no outro dia acordo sem lembrar de nada, nem sequer do que estou revelando agora. No outro dia é como se nada houvesse acontecido.
Sei que hoje ira acontecer de novo, por isso estou escrevendo, pois logo não conseguirei mais concatenar nenhum pensamento e terei de ir dorm.........

quarta-feira, agosto 25

O amor e o prazer


O prazer esquenta
O amor acalenta
O prazer explode
O amor agüenta.

O prazer sabe avançar
O amor sabe esperar
O amor tem os pés no chão
O prazer “as” cabeças no ar.

O prazer esquece
O amor permanece
O prazer volta pra casa
O amor sempre amanhece.

O prazer duvida
O amor compreende
O prazer revida
O amor transcende.

O prazer apraz
O amor ama
Para o prazer tanto faz
Para o amor só a chama.

E eu vou...

quarta-feira, agosto 18



Quando bebo muito eu me transformo no Quarteto Fantástico:
Fico uma Coisa, feito um doido de pedra;
Num fogo, virado uma tocha
Com a lingua mole que nem borracha
E meus atos ficam invisíveis,
Pois no outro dia não lembro de nada

terça-feira, agosto 17

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades . 17

O cardiologista aconselhou ela a trocar o anticoncepcional por outro método. O casal de comum acordo resolveu usar a velha e competente camisinha. Desde que eles mudaram para a camisinha que ele guarda as mesmas no criado-mudo – bem a mão - e, não "imagina" nem porque adotou uma mania de marcar as embalagens com uma pequena marquinha feita com uma esferográfica.
Depois de dois dias fora, ele resolveu tirar o atraso, mas acabou saindo de casa, é que todas as sete camisinhas que ele deixou lá, lá estavam, porém as marquinhas de esferográfica...


Qualquer semelhança com qualquer coisa ou pessoa é meramente qualquer coisa.

sexta-feira, agosto 13

RE-POSTAGEM 2 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

Postado em 2008

ALEGRES JANTARES DE CASAIS

Quando terminar de fazer a caipirinha, tu podias me ajudar a descascar as batatas! Pediu Júlia para Antônio que olhava com um olhar esquecido o fogo no interior da churrasqueira. O fogo sempre exerceu um certo fascínio no homem desde tempos mais imemoriais. Antônio não sabia onde havia escutado aquela frase sobre o fogo, mas filosofava para si como se sua frase fosse. Protestou. Não podia se ocupar com as batatas, pois tinha de espetar a carne. Estava um pouco aborrecido, naquela sexta-feira, a janta seria no apartamento deles. Amanhã terá aquele monte de coisas para limpar e colocar no lugar.
Bem que o pessoal podia chegar! Comentou Júlia com uma lágrima produzida pela cebola que ela cortava. Júlia sabia que quando era churrasco sempre sobrava para ela. Churrasco é comida machista. Os homens ficam em volta do fogo como se eles fossem sacerdotes a cuidar de um poder divino e as mulheres que se ferram na cozinha.
Bateram a porta. Antônio foi abrir. Era Silvio e Cláudia. Antônio não deu muita atenção à chegada do casal, primeiro ele queria ver se Nara, a irmã de Cláudia vinha junto para o churrasco. Sim! O sorriso maroto surgiu por baixo do bigode espesso de Antônio. Entrem...Entrem! Convidava em meio a abraços, beijos, apertos de mãos e olhadas furtivas para Nara que nada parecia perceber.
Não chegou a fechar a porta, pois Zeca e Sandra já entravam com um fardo de latas de cerveja e aquele olhar falso de Sandra que Antônio odiava. Depois dos abraços e beijos, Sandra reparou contrariada que teriam a presença de Nara àquela noite. Devia manter-se em prontidão.
Quando Otávio e Carla chegaram, os homens já estavam na sacada em frente à churrasqueira, cada um com a sua cerveja, somente Antônio continuava na caipira, o que desagradava Júlia. Só faltava ele encher a cara e começar a brigar com Sandra- preocupava-se a esposa-. As mulheres estavam na cozinha. Tomavam com parcimônia suas cervejas. Somente Nara parecia ter uma sede um pouco maior. Falavam de novelas, do trabalho e de alguma fofoca qualquer.
Zeca, olhando para a cozinha cortou Silvio que falava da traição acontecida entre um casal conhecido do grupo para falar: Olhem lá! As mulheres já estão fazendo fofoca! Silvio baixou os olhos para o braseiro e ficou em dúvida: teria Zeca falado aquilo para debochar dele ou ele não havia percebido que eles estavam fazendo o mesmo que elas? Aquele palhaço! Claro que era uma provocação, mas não iria estragar a noite por causa daquele idiota. Com desculpa de ir ao banheiro, foi para a sala escolher um CD. Música! Era isso que estava faltando. Todas as sextas à noite eles ouviam música.
Na cozinha estourou uma rizada geral. Era Nara que contava piadas. Somente Sandra continuava séria – as piadas eram engraçadas, mas como era vulgar ver Nara dizer aquelas coisas e fazer aqueles gestos lascivos-. Antônio com seu avental de churrasqueiro segredou a Cláudio que a cunhada deste estava uma “coisinha”. Cláudio concordou com uma careta que o amigo entendeu que queria dizer “Nem me fala!”. Há coisas entre as pessoas de um mesmo sexo que não é preciso ser pronunciadas, um leve erguer de olhos, uma torção de lábios ou algo que o valha é o suficiente para os iguais se entenderem. Pena que com os do outro sexo as coisas não funcionavam assim. Mesmo com toda a argumentação possível, nunca se chega a um lugar comum.
Zeca estava desistindo de escolher o CD, pois não agüentava mais as mesmas músicas todas as sexta, quando percebeu Nara chegando com um copo vazio. Era a deixa. Encheu o copo dela e começou a conversar sobre amenidades. Os olhos provocantes de Nara o hipnotizavam. Só não ficava os fitando o tempo todo, porque aquelas longas e morenas pernas com pelos dourados raptavam seus olhos a todo o momento. A conversa ficou animada e Zeca não percebia os dois amigos os olharem e fazerem comentários entre rizinhos, fingindo não estarem com inveja. Olha o Zeca - dizia Antônio -. Não vai defender a honra de tua cunhadinha? Ao que Silvio rebatia: O quê? Aquele ali não pega nem dengue! E davam gargalhadas altas como para atrair a atenção de Nara. Ela que viesse ali para a sacada onde havia homem de verdade - concordavam sem saberem o que se passava na cabeça um do outro.
Finalmente escolheram um Zeca Pagodinho. Mal começou os primeiros acordes, Nara largou o copo sobre a mesa de centro e puxou Silvio para dançarem. Silvio não era o que se podia chamar de pé-de-valsa, mas não podia perder aquela chance. Ao sentir o volume dos seios de Nara contra seu peito, decidiu-se: Convenceria a esposa a ir na mesma clínica e pagaria para colocar os mesmos “eme-éles” que sentia contra si. Zeca em seu devaneio não percebia o olhar perigoso que vinha da cozinha - Essa vagabunda agora vai se esfregar no meu marido - reprovava Sandra- . O que queria “essazinha” metendo-se em jantares de casais, se não tinha um marido que fosse caçar onde houvesse solteiros.
Júlia que acabara de aprontar as saladas cochichou no ouvido de Cláudia “que gostava de Nara, mas ela não precisava vir com roupas tão curtas aos jantares de sexta”. Mas a probidade da irmã foi defendida com a afirmação que Júlia quando solteira vestia-se da mesma forma.
Cláudia foi ter com o marido que a chamava. Júlia então voltou à carga dizendo a Sandra que aquilo era falta de respeito, onde já se viu se atirar assim daquele jeito, mas Sandra tentando mostrar despreocupação disse que não era nada, que o marido inclusive não suportava Nara, só estava dançando para não ser mal educado.
Como a dança se prolongava, Sandra convenceu a todos que já era hora de sentarem-se à mesa. Com um olhar de facas, Sandra desencorajou o marido de sentar ao lado de Nara, mas ficou em dúvida o que era pior, ficarem de lado ou frente a frente? Bom! Como já estava decidida não podia baixar a guarda e ficou o tempo todo a procurar um olhar da parte de um deles que fosse correspondido. Zeca deu-se por satisfeito com a dança, não iria provocar a fúria da esposa. A carne chegou em uma fumegante bandeja e puseram-se a jantar.
Como se fosse um protocolo a ser seguido, os homens falavam de futebol, da qualidade da costela e lembravam outros churrascos fantásticos que haviam comparecido. As mulheres falavam da novela, de algo acontecido na casa de alguém ou com o filho de alguém na escola. E assim, aquelas histórias e estórias já há muito conhecidas eram repetidas como se da primeira vez fosse.
Antônio foi buscar mais carne. Desta vez decidiu ir servindo um a um em seus próprios lugares, se ficasse ali na mesa à carne esfriaria, o que era um pecado com uma costela tão maravilhosa. Todos acharam acertada a decisão dele. Júlia seria contra se soubesse que aquilo era apenas uma desculpa para ele chegar por cima dos ombros de Nara e ter uma visão privilegiada do bondoso decote. Mas aquilo não durou muito tempo, pois Antônio percebeu um olhar que o fuzilava vindo de Cláudia em socorro da irmã. Um rubor subiu-lhe a face. Antônio terminou o jantar sem falar muito.
Após o jantar, foram para a sala ouvir música e fumar. Júlia não tirava o olhar repreendedor sobre aquela mocinha que sentava ao chão com as longas pernas cruzadas e a cabeça repousada no joelho da irmã. Júlia achou que era chegada a hora de rivalizar com aquela exibição. Falou que estava muito quente e foi ao dormitório trocar de roupa. Voltou com a mesma camisa, porem amarrada em vez de abotoada e com um pequeno calção de jeans. Antônio ficou contrafeito, aquela não era a melhor maneira dela se vestir na frente de seus amigos.
Com exceção de Nara que estava completamente absorta, brincando com os dedos do pé da irmã, todos perceberam as intenções de Júlia. Se era guerra que queria ela estava pronta. Sentou-se no espaldar do sofá ao lado de Antônio. Sentiu olhares não muito interessados passarem por suas pernas. A conversa continuava normalmente. Disfarçadamente Júlia corria os olhos de suas pernas para as pernas de Nara, viu que a idade tinha lhe tirado um pouco da beleza, não que tivesse as pernas feias, mas as de Nara eram perfeitas. Sentiu-se envergonhada em achar as pernas da outra bonitas. A pretexto de uma dor de cabeça, desculpou-se e disse que iria deitar um pouco. As visitas disseram que iriam embora que não queriam incomodar, mas ela dizia que não era nada, podiam ficar, ainda havia muita cerveja e nem tinham provado o sagú com mousse de maracujá que estava na geladeira.
Júlia foi deitar-se e abafou o choro com o travesseiro. Ficou combinado que provariam a sobremesa e iriam embora. Todos estavam cansados - desculpavam-se -. Zeca que já estava bem embalado fez questão de que a próxima janta de sexta fosse em sua casa. Sandra, fingindo concordar, reafirmou o convite, e para parecer segura de si em relação ao seu casamento pediu que Cláudia não esquecesse de levar Nara junto. Zeca ficou mais contente com o convite que a própria convidada. Terminaram a sobremesa e iam saindo quando Nara protestou. “Não iria embora enquanto estivesse um garfo que fosse sujo ou fora do lugar”. Cláudia concordou mesmo diante aos protestos do dono da casa. Nara como se dona da casa fosse, distribuiu as funções para desgosto de Sandra: Ela lavaria a louça, este recolheria os pratos, copos e talheres, esta varreria o piso, aquela outra secaria e Antônio trataria de organizar as coisas do churrasco.
Finalizada a limpeza de tudo, tomaram uma saideira e despediram-se todos. Antônio fechou a porta e abriu mais uma cerveja, não queria deitar-se tão cedo, ele sabia que a dor de cabeça de Júlia era para acobertar algum descontentamento sobre alguma coisa que a pesada consciência dele não sabia o que era. Bem pelo menos a limpeza estava feita, isso talvez amenizasse a zanga que iria ter de ouvir.
Lá embaixo Zeca viu o carro de Silvio partir com as duas mulheres a ressonarem no banco traseiro. Bem! Na próxima sexta ele e Sandra seriam os anfitriões e ele se esforçaria para impressionar a cunhada de Silvio.
Ao perceber que Sandra o olhava com um olhar muito sério perguntou: “E aí, gostou da noite?”
_Cala a boca! – Ordenou-lhe a esposa entre dentes. Zeca foi todo o caminho para casa quieto pensando no que Antônio havia dito-lhe certa vez:
_Essas nossas jantas são um saco. Nos só as fizemos para não termos de ficar a noite de sexta sozinhos com nossas esposas, “E elas conosco” completou mentalmente a frase do amigo.



Stanis Fialho, 19.11.2007