terça-feira, setembro 14

RE-POSTAGEM 3 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


Coisas que acontecem
postado em abril de 2008



Não tem um aviso. Não é como o corte do fornecimento de energia elétrica, que chega com um comunicado alertando que se não houver o pagamento da fatura ficarei no escuro. Não é como a carta de uma amante ressentida ou entediada que diz: acabou, ou a bravata de um inimigo que alerta que serei atacado. Apenas fico sabendo.
Chego em casa para dormir, como todos os outros dias. Mas em determinados dias percebo: é hoje.
Tento de todas as formas postergar a hora de dormir. Pois será exatamente na hora do sono que irá acontecer. Penso em virar a noite acordado. Em vão tento passar toda à noite lendo um livro, mas o sono vem. Se ligo a TV logo meus olhos começam a pesar como se de chumbo fossem. Inutilmente jogo água fria ao rosto. À vontade – necessidade ou ordem – me levam de novo a cama.
Uma força que vem não sei de onde, sempre me encaminha para a cama. Não sinto medo. Apenas sei que devo deitar.
Um sentimento idiossincrático, me obriga a dormir, vencendo um paradoxo sentimento muito primitivo que tenta um duelo. Mas não há razão, a lógica perde o sentido, o sentimento de preservação é obscurecido como o de um viciado em frente à droga, É o néctar da adrenalina de um pára-quedista, que mesmo sabendo que pode se estatelar ao chão; arrisca-se. Sou como o Gnú que sabe que o rio está infestado de crocodilos e mesmo assim tento a travessia. Assim sou eu, atiro-me aos braços de Morpheu.
Em uma última tentativa de fuga, deito de bruços.
Há a proteção do lençol, do colchão, do lastro da cama, da forração do piso e o piso. Estou no quarto andar. Abaixo de mim, há concreto, aço, mobílias e um monte de coisas que sei que não irão impedir de meu peito ser tocado, mas mesmos assim como uma última tentativa, eu tento.
Disseram-me que contar carneirinhos ajuda a dormir. Já fiz isso em noites de insônia. Perdi as contas de quantos carneirinhos contei e junto com eles, perdi a chance de dormir. Com o passar dos dias – ou melhor, as noites -, aprendi que tentar relembrar o último livro lido ou filme que havia assistido, me trariam o sono perdido. Isso é para mim muito precioso, pois sofro de uma interminável insônia. Parece que só durmo normalmente – se é que pode ser chamado de normal -, quando sinto que será “naquela noite”.
Já falei que meus olhos pesam como chumbo! Nunca fiz yoga! Mas deve ser assim que ficam os grandes mestres ao atingir a plenitude da concentração. O tempo some. Meu corpo fica leve. O coração – órgão que nunca sinto, em outros momentos – começa a retumbar calmamente como ao de um cortejo fúnebre. E vai diminuindo, diminuindo, diminuindo até eu não o perceber mais.
Não tenho mais senso de equilíbrio e de espaço, não sei mais se estou de bruços ou não. Ouço coisas que não sei dizer o que são, apenas sei que são aprazíveis. É como um gozo! Não um gozo normal. Não é carnal...
Mesmo não sabendo nada, sei que sentirei algo entrando em meu peito. É como um braço com uma mão não humana percutindo todo o interior de meu interior. A sensação não é ruim, mas também não causa nenhum prazer.
Essa mesma “mão” sobe pela garganta e detém-se em meu cérebro, e é nesse momento que tudo some. Não lembro de mais nada, e no outro dia acordo sem lembrar de nada, nem sequer do que estou revelando agora. No outro dia é como se nada houvesse acontecido.
Sei que hoje ira acontecer de novo, por isso estou escrevendo, pois logo não conseguirei mais concatenar nenhum pensamento e terei de ir dorm.........

2 comentários:

Cultura Subjetiva disse...

Pra mim ficou dificil entender exatamente sobre o que tu estava falando, fiquei em duvida entre a morte e o adormecimento durante o sono. Prefiro então usar uma palavra que é mais universal do que essas duas e que é inerete à elas, o ''vazio''.
Ficou, de certo modo claro, o receio do sujeito de cair no vazio, num lugar onde o tempo não passa, entretanto, mesmo o tempo não passando uma hora ele acorda (falta um pouco de lógica universal aqui).
A falta de memoria transforma o momento anterior em um momento vazio,''tu não lembra o que aconteceu, e mesmo assim aconteceu'', mas como provar pra si mesmo que algo aconteceu se não há registros conscientes na memoria?

Cesar disse...

Vejo um desabafo,mas que não fica claro,pois não se sabe o que ele (autor) esta falando faz ele sucumbir ou simplesmente dormir para tentar deletar o que lhe aflige.