domingo, junho 22

ESPIRAL


Santiago dá um pulo. Não tão alto como o grito que seus trêmulos lábios regurgitam, mas é um pulo suficiente para assustar alguém, se houvesse alguém em seu quarto àquela hora, o que seria improvável, pois desde que Celeste o abandonou há três anos, mais ninguém a não ser o próprio Santiago, transpôs a porta principal daquele apartamento.
A cabeça lateja, dói muito. Onde estou? , é a primeira pergunta que vem a cabeça dolorida do assustado e confuso Santiago. Um abajur com motivos japoneses e a cortina improvisada com uma velha manta azul marinho o reconduz a realidade. Está em seu quarto, em sua cama. Tudo fica familiar, menos o suor no corpo e nos lençóis.
O suor escorre pelo rosto assustado de Santiago. O colarinho do surrado pijama está colado ao pescoço. Gotas de suor percorrem suas costas como se fossem pequeninos insetos fugindo em direção ao encharcado lençol.
É julho. O inverno este ano está rigoroso. Ele não deveria estar suando daquela maneira. Mas também com um sonho tão real como aquele... Santiago sentia ainda um pouco de sono, o dia fora cansativo, mas não tinha coragem de voltar a dormir – vai que o pesadelo volte! Pensou Santiago - . Dali a pouco começará a amanhecer. O melhor que pode fazer é tomar uma ducha e um bom café preto com torradas.
Jogou as pesadas cobertas no chão. Ele parecia uma criança mijada com as calças do pijama ensopadas. Um banho...Preciso de um banho!
Entrou no banheiro e foi logo abrindo o chuveiro. Jogou o pijama molhado em um canto e ficou por um longo e reconfortante tempo recebendo a água quente na nuca. Aos poucos a dor de cabeça o deixou.
Está de olhos fechados, mas mesmo no negror das pálpebras cerradas, ele percebe – ou imagina perceber – uma sombra passar pelos peixinhos azuis estampados na cortina plástica do box.
Sem pensar em nada, apenas agindo com o mais primitivo dos instintos humanos, ele abre a cortina e prepara-se para o embate.
Não fosse pelo vapor produzido pela água quente e de seu próprio reflexo no embaçado espelho sobre a pia, ele estava só. Bobagem... Não foi nada, apenas manifestações dos nervos que ainda estavam chocados com o sonho que o acordara no meio da noite.
Sons estranhos vindos do interior de seu abdômen o lembram daquele café preto com torradas. Enxuga-se com a áspera e fedorenta toalha floreada. Enrola-se com a mesma e sai pelo corredor a tempo de ver um vulto movimentar-se do corredor para a sala. Estaca. Quem será?
Procura ao seu redor algo com que possa se armar. Nada! Afinal está no corredor! Volta para o banheiro. Olha em torno e... nada. Em um banheiro não há nada que possa meter medo em um intruso no meio da noite.
Arma-se com o que lhe resta: a coragem – talvez apenas a necessidade – e vai em frente. Avança com o corpo colado a fria parede. Nem de calças está. Se cair a toalha... Aquela não era hora para pudores, mas também não era o pudor que o afligia. É que sem dúvida, seria bastante vexatório se engalfinhar com quem quer que seja estando nu.
Tentou dar um nó na toalha na linha da cintura. Sem jeito. A gordura estava bem localizada justamente na cintura. Pela primeira vez deu importância a um regime.
Sem pensar em mais nada pulou como um cão raivoso no meio da sala pronto para o embate. Ele – o intruso - por certo sairia correndo ao ser surpreendido e não haveria a necessidade de uma luta. O que seria muito bem, ainda mais agora que ele finalmente dera-se conta que estava completamente fora de forma.
Ao perceber que estava só não conteve uma gargalhada. Sentiu-se bobo ao ver-se refletido no vidro da porta de correr que dava para a sacada. Parecia um obeso havaiano com aquela floreada toalha amarrada a enorme cintura.
Já tinha idade suficiente para saber que a mente costumava pregar peças quando assustada ou confusa. O que ele viu, ou pensou ter visto não era nada. Talvez o efeito do farol de algum automóvel que tenha passado lá embaixo. Ele estava no segundo andar, bem que poderia ser, ou talvez a confusa imaginação.
Já estava solucionado o problema, quando ouviu o barulho que veio lá da despensa. Um baque surdo. Algo havia caído no chão, ele soube não só pelo barulho mas também pelo pequeno tremor provocado no piso.
Veio-lhe então novamente a cabeça o tal vulto que ele agora começava a acreditar realmente não ter visto. Terá alguém na despensa. Só há uma forma de saber. Mas desta vez não iria assim tão desprotegido. Correu até a cozinha a abriu a gaveta do balcão da pia. Havia inúmeras facas ali. A de serrinha não pareceu ser a adequada. A espátula nem pensar. Sim! Essa... A faca de churrasco é ideal. Afinal para que serve uma faca de churrasco? Cortar carne! E se estiver acontecendo o que ele temia que estivesse acontecendo...
Voltou na ponta dos pés para não fazer barulho. Bobagem! Pensou: Depois do pulo do obeso havaiano não tenho mais a vantagem da surpresa. Ao pensar no havaiano, lembrou da toalha. – Desta vez enfrentaria o perigo com mais dignidade – Correu ao closet e colocou a primeira calça que encontrou. Pronto, agora sim não era mais um havaiano obeso. Sentia-se mais como um samurai com aquela enorme faca nas mãos. Um samurai gordo, mas um samurai!
Voltou a postar-se frente à porta da despensa. Foi uma mão trêmula que tocou na maçaneta.
No exato momento em que ia abrir a porta, ouviu aquele barulho. Deu um grito junto a um pulo e o coração saltou fora do peito, assim como a faca saltou-lhe da mão, deu dois giros no ar e caiu no chão fazendo grande estardalhaço, mas não sem antes deslizar o afiado metal nas costas da mão de Santiago.
Novamente o barulho. Era a campainha. Quem poderia ser àquela hora?
Finalmente Santiago percebeu que havia cortado a mão. A faca estava no chão com um filete de sangue na lâmina. Um quente pingo vermelho e redondo caiu sobre a unha do dedão. Outro... Agora no piso. E lá vieram outros. Santiago ficou espantado com a quantidade de sangue que saia de tão pequeno ferimento. A campainha insistia. Santiago correu novamente para a cozinha e enrolou o pano da louça a mão ferida – será que a gordura centenária depositada no pano não prejudicaria o ferimento? – perguntou-se. A campainha insistia.
Mas era para sorte de Santiago alguém tocar sua campainha àquela hora, afinal, até que provem o contrário tem alguém que não foi convidado, dentro de sua despensa. Com mais alguém, poderia ser mais seguro enfrentar a situação. Santiago não era de flertar com o perigo.
Abriu a porta. Do outro lado estavam dois homens de ternos. Disseram o nome de Santiago e foram logo entrando e anunciando-se como sendo da polícia.
Santiago ficou aliviado. Era tudo o que precisava. Dois policiais para lhe ajudar com o intruso. Só um deles usava gravata e isto deu a Santiago a certeza que era aquele que mandava. As gravatas servem para isso. Para dar distinção as pessoas, pelo menos era isso que ele pensava. Os olhos profissionais do homem de gravata localizaram em um instante a faca no chão. O pano enrolado a mão que rapidamente ficava vermelho, até o outro homem que não portava sinais de sagacidade já havia notado.
_Machucou-se, Sr Santiago? Perguntou o primeiro, colocando-se bem próximo a Santiago, como se quisesse certificar-se que ele não faria nenhum movimento indesejado.
Santiago respondeu prontamente que sim, a faca de churrasco havia caído de sua mão e ferira a outra, mas era providencial a chegada deles...
_Por que Sr. Santiago?Seria algo sobre sua esposa?- Santiago não entendeu, o homem que ele julgava ser o chefe, falava coisas sobre o desaparecimento de Celeste, sua cabeça voltou a doer. Mas como assim desaparecimento? Celeste havia desaparecido? Quando? Faziam mais de três anos que não a via...A dor aumentava.
_Deixe de tolices homem, se ela foi vista com o senhor há três dias...
– Não!. Aquele policial devia estar maluco, pensou Santiago mais confuso ainda. E aquela faca? O policial quis saber o que Santiago fazia com a faca. O intruso na área de serviço veio à memória de Santiago em meio aquela loucura toda, ele até havia esquecido. Foi em meio a gaguejadas que ele relatou sobre o intruso. Mas agora – afirmava – que vocês estão aqui, podemos pegá-lo.
Santiago abaixou para pegar à faca. Mesmo com os policiais ali, não iria abrir a porta de despensa sem uma arma. Foi seguro por duas mãos fortes e advertido para não tocar na faca. Sem entender e lutando contra a dor de cabeça quis explicar que era para revistarem a despensa. Já havia perdido muito tempo, o intruso poderia muito bem ter pulado pela janela, afinal quando se quer fugir de alguém o pulo de um segundo andar não é algo assim tão espetacular.
Seu braço foi torcido para as costas. O homem sem gravata estava com uma pistola na mão. Sentiu que seus pulsos foram presos com algemas. Foi jogado, sentado a um sofá que ficava de frente para a despensa. Tentou protestar, mas as palavras e o tom de voz do homem da gravata o intimidaram.
_Fique quieto senhor Santiago – disse o homem com um dedo apontado para o nariz de Santiago como se fosse uma arma pronta para o disparo -, vamos ver o que temos aqui! – Com um lenço o policial pegou a faca tinta de sangue e colocou em um saco plástico. Santiago lembrou dos filmes de TV, aquilo era para preservar as digitais dele na faca, mas era absurdo tudo aquilo. Era lógico que as digitais seriam dele, ele que estava com a faca e além do mais a única pessoa que talvez tenha tocado nela era Celeste, e isso a uns três anos.
A porta da despensa foi aberta pelo policial que falou com um misto de asco e triunfo na voz... “Mas o que temos aqui!”. E Santiago mergulhou em um abismo confuso. O que era aquilo? Como seria possível? Celeste estava jogada no chão em meio a uma enorme poça vermelho escuro de sangue coagulado. Reconheceu-a mais pelas roupas que pelo rosto. Ele- o rosto – antes belo estava irreconhecível diante de tão hedionda violência que havia sofrido.
_Senhor Santiago, o senhor está preso pelo assassinato de Dona Celeste, sua esposa...
Santiago dá um pulo. Não tão alto como o grito que seus trêmulos lábios regurgitam, mas é um pulo suficiente para assustar alguém, se houvesse alguém em seu quarto àquela hora, o que seria improvável, pois desde que Celeste o abandonou há três anos, mais ninguém a não ser o próprio Santiago, transpôs a porta principal daquele apartamento.
A cabeça lateja, dói muito. Onde estou? , é a primeira pergunta que vem a cabeça dolorida do assustado e confuso Santiago. Um abajur com motivos japoneses e a cortina improvisada com uma velha manta azul marinho o reconduz a realidade. Está em seu quarto, em sua cama. Tudo fica familiar, menos o suor no corpo e nos lençóis...

Gravataí, 06 de Janeiro de 2008.

Um comentário:

Mateus Ferraz de Farias disse...

Muito bom.
Imaginei vários finais mas nenhum tão original.

Abraço!