sexta-feira, setembro 4

Vazio e Sozinho



Ilustração:Mari Lopes,1999
"Homem Lendo o Jornal", 2m X 1m50
Têmpera acrílica sobre tela
Acervo da TV Cultura-SP, Brasil

O despertador o tirou de um sono cansado e conturbado na mesma hora de todos os dias. Pulou da cama como sempre fazia. A cabeça e o corpo não queriam acordar, mas era um movimento maquinal que já estava acostumado. Correu para o banheiro. Fez a barba ainda sob a água do banho e percebeu que estava cansado para o dia que o aguardava. Ainda com espuma no corpo percebeu que fazia aquilo há muitos anos a fio sem perceber que o fazia.
Tomou uma decisão que nunca havia pensado que um dia a faria. Secou-se e colocou uma roupa que não era a que normalmente colocava após o banho. Viu-se no espelho e quase achou que não era ele. Camiseta de malha branca, calça jeans e tênis.
Ligou para o escritório e disse que não iria trabalhar naquele dia. Teve medo – e não fez – de dizer que iria tirar o dia de folga. Ele, logo ele que era o patrão tinha medo de faltar ao dia de trabalho.
Para Luciana, a competente e fiel secretária disse que estava doente. Não precisou o mal que o acometia, disse apenas que não estava bem e, a competente, e fiel Luciana não perguntou nada. Não quis saber o que ele sentia, apenas ouviu suas palavras como uma ordem e pronto.
Tentou ver TV, mas nada o interessou. Saiu para a rua a pé. Aquilo era algo inusitado para ele. Sair sem o carro e sem o motorista...
Bernardo, o motorista, estranhou, mas não ponderou nada, afinal ele era pago para fazer o que o patrão mandava e não perguntar o porque das ordens do patrão. Ganhou um dia de folga. Adorou. Era dia de jogo do Grêmio e ele poderia ir para casa assistir o jogo ou encontrar-se com os amigos que não tinham nada para fazer como ele naquele dia.
Para onde vou? Foi a primeira coisa que o patrão de folga pensou. Nunca havia tido um dia de folga no meio da semana. Caminhou e descobriu uma padaria a duas esquinas de seu prédio. Nunca havia visto aquele estabelecimento, mas pelo letreiro comido pelo tempo como um nariz de uma esfinge, afirmou-lhe que ela estava ali à vida toda.
Entrou. Havia uma pequena fila. Algumas pessoas ele percebeu que eram muito conhecidas das atendentes, pois elas as tratavam pelo nome.
Quando chegou sua vez, uma menina que devia ter a idade de sua filha que ele não via há mais de duas semanas o chamou de “tu” com um sorriso encantador que ele achou até promiscuo. Como alguém que não o conhecia o tratava como se fossem amigos?
Não soube o que pedir. Tentou lembrar o que se pedia em uma padaria quando se tem fome.
A “promiscua” atendente vendo o seu embaraço perguntou se ele queria pão. Estou com fome!, foi o que saiu de seus lábios. Como ele não falou mais nada ela perguntou se ele queria um sanduíche de mortadela e queijo e uma taça de café. Aceitou.
Sentou em uma cadeira de plástico branco em frente a uma mesa de plástico branco. Acharam estranho não haver toalha, apenas um porta guardanapos com propagandas de um refrigerante e um paliteiro de qualidade duvidosa.
O inusitado desjejum foi servido pela mesma atendente. Foram colocados a sua frente o sanduíche, uma xícara de café e um açucareiro. Ele só usava adoçante, mas ficou em dúvida se não seria grosseiro pedir para trocar. Adoçou o café e o provou.
Aprovou! Deu uma pequena mordiscada no pão com queijo e mortadela. Mortadela... Até que não era ruim. O pessoal da fabrica deve adorar a mortadela que é servida no café no turno da noite. Parece ser até melhor que presunto...
Saiu sem saber para onde ir. Parou em frente a uma banca de jornal. Não havia lido nenhum periódico aquela manhã. Não sabia de nada que estava acontecendo no mundo das finanças e da política. Comprou o jornal que sempre lia. Sentou-se em um banco na primeira praça que encontrou. - Nem sabia que havia aquela praça ali tão perto.
Seus olhos correram por todas as páginas, mas não leram nada. Por mais que tentasse sua cabeça não acompanhava seus olhos. Lia as palavras, mas não consegui coloca-las em uma ordem lógica. Folheou o jornal sem prestar atenção em nada até parar em uma página com vários desenhos bobinhos que ele nunca olhava.
Leu as tirinhas de uns tais de Laerte, Iotti e Maurício e deu gargalhadas que estavam represadas desde a infância. Entendeu – ou achou que entendeu – o porque seus funcionários liam aquilo e riam. Ficou com vergonha, não por ter entendido, mas por estar lendo aquilo.
Deixou o jornal no banco e saiu a caminhar sem rumo pelas ruas da cidade. Passou por ruas que ele sempre passava com seu blindado e viu o que ele nunca via. Casas lotéricas com suas filas intermináveis, pequenos bares com pastéis e croquetes em meio a balas e chocolates baratos, brechós com roupas de todos os tipos e gostos, salões de barbeiros com conversas animadas, lojas de roupas, livrarias, farmácias, óticas, sapatarias até encontrar uma nova – pelo menos para ele – praça.
Escolheu um banco e sentou. Nos brinquedos do playground a meninada fazia a festa enquanto babás, mães e tias liam romances surrados ou conversavam animadamente.
Lembrou da filha. Tudo o que ela pedia ganhava, mas não lembrava de ver sua filha com a mesma alegria que havia estampada na cara daquelas crianças. Eram apenas gangorras, balanços e escorregadores e não a Disney, a Europa ou um carro novo que ele dera a filha, e mesmo assim elas estavam em êxtase.
Depois de muito tempo a barriga o lembrou que era a hora do almoço. No trabalho a hora de comer era após a reunião ter terminado ou algum negócio ter sido consumado. “A fome vem só após a obrigação” aprenderam com seu pai.
Viu que muita gente comia algo comprado em uma “carrocinha” no meio da praça, mas teve medo. - Vai lá saber o que eles estão comendo!
Do outro lado da rua tinha um restaurante chamado “Saigon”. Era movimentado. Devia ser boa a comida. Dirigiu-se para o tal “Saigon” e pediu o prato do dia, não porque era o que ele queria, mas porque ouviu o pedido do senhor que ele achou “bem apessoado” que estava a sua frente na fila.
Arroz, feijão, massa com molho de carne, batata frita, um bife estranho, alface, tomate, pepino e repolho. O cheiro era bom.
O senhor “bem apessoado” sentou em uma mesa dois lugares com uma toalha de plástico transparente não muito nova.
Com licença, ele pediu e o tal senhor não falou nada que o proibisse. Ele sentou.
Depois de umas boas garfadas na comida que ele achou deliciosa, ele puxou assunto sobre o tempo... Será que chove?. Seu “bem apessoado” companheiro de mesa só respondeu algo com os ombros que ele não entendeu. Resolveu terminar a refeição em silêncio.
Após o almoço voltou para a praça e ficou a observar as crianças nos brinquedos e a fumar um cigarro atrás do outro até perceber que não havia recebido nenhuma ligação. Tateou os bolsos e percebeu que havia esquecido o celular. Ficou a principio preocupado, mas com o tempo achou bom o esquecimento. Não estava com vontade de receber ligação de ninguém mesmo, pois seriam só preocupações referentes ao trabalho e hoje, ele decidira que não iria trabalhar.
Olhou para o outro lado da rua e viu um cinema. Era um dos últimos que existia fora dos shopings. Não leu nem o título do filme. Comprou o maior pacote de pipocas que havia e assistiu ao filme como assistia em sua época de guri lá no interior.
Após o filme vagou pelos sebos a rever velhos quadrinhos e foi a uma exposição itinerante de fotografias em um ônibus na praça central. Saiu comprou um picolé e vagou pelas ruas que ele só conhecia de nome ou de dentro de seu carro blindado.
Parou em frente a uma banca de jornal e comprou de um impulso uma revistinha da Mônica e riu novamente como criança sentado em um banco de um ponto de ônibus entre um maluco e um vendedor de DVDs piratas.
A luz natural começou a rarear e as públicas junto com os letreiros das lojas o fizeram perceber que estava anoitecendo. Não sabia muito bem onde estava e passou a perguntar onde estava. Um menino que vendia balas explicou aquele senhor perdido onde era o endereço que ele queria encontrar. Não havia vendido muito, pois a concorrência era grande, mas a gorjeta daquele “perdido” valeu a pena.
Chegou de volta ao seu apartamento. Estava tudo escuro. Não acendeu a luz. Tirou a roupa pouco usual ali na sala mesmo. Foi para o banheiro tomar um banho e chorou junto com o chuveiro ao perceber que de nada adiantava ter “tudo” se estava vazio e sozinho.

3 comentários:

Bárbara disse...

Ai que coisa mais linda lalauuuu!!!
Adorei! Que saudade de ti!
Beijos mil!

Mari Lopes disse...

Olá Stanis

Adorei a sua crônica.
Sou autora da obra "Homem Lendo o Jornal" que você usou como ilustração.
Quero te pedir encarecidamente que insira os seguintes créditos:

Mari Lopes,1999
"Homem Lendo o Jornal", 2m X 1m50
Têmpera acrílica sobre tela
Acervo da TV Cultura-SP, Brasil

Agradeço muito
Parabéns pelo blog
Mari Lopes

Stanis Fialho disse...

Obrigado Mari Lopes, e parabéns pela sua obra.
Abraço