sexta-feira, agosto 29

Sonho de Guri


Pode parecer bobagem para a gurizada de hoje, mas quando eu era guri, o meu sonho era ter uma TV. Com o tempo tive outro sonho: Era ter um escafandro.
Quando eu era guri a minha visinha tinha uma TV. Luxo na época. Só pessoas muito ricas tinham TV’s – ou melhor TV, duas era uma afronta -. Por sorte, D.Evita era muito legal, e por não ter tido filhos, convidava toda a gurizada da rua para ver Rin-Tin-Tin, Perdidos no Espaço e outras maravilhas da época.
Eu logo percebi, que não existindo nada melhor que TV, deveria subornar D.Evita e ficava sempre de prontidão para todos os pequenos trabalhos que ela precisava. Ia fazer compras para ela, cuidava do jardim que era seu “xodó” e outras “coisitas” mais.
Em pouco tempo fui permitido e assistir TV três dias por semana na casa de D.Evita. Terça, quarta e quinta. Mas quarta era o melhor de tudo. Passava “Viagem ao fundo do mar” e eu sonhava em viajar no Sea-View que na época nós garotos chamávamos de civil.
Um dia, um personagem evadiu-se do submarino e andou de pé no fundo do mar com uma roupa estranha. Um macacão, botas de solas enormes, um cinturão cheio de barras de chumbo para mantê-lo no fundo e um capacete em forma de bolha de metal com três escotilhas, duas laterais e uma à frente do rosto. Todas com uma gradezinha de ferro.
Naquele exato momento soube: Meu sonho é caminhar no fundo do mar com um escafandro.
Quis fazer parte do clube de regata da cidade, nada tinha nada haver com escafrandro, mas tinha o contato com a água. Meu pai achou perigoso. Não fui!
Quando comecei a trabalhar quis fazer natação, meu pai morreu e meu salário ficou direcionado ao sustento dos estudo de meus irmãos menores.
Cresci! Venci! Mas nunca caminhei no fundo do mar com um escafandro. Nunca fiz sequer hidroginástica ou uma apnéia.
Montei uma loja de materiais esportivos, mas nada que pude-se lembrar um passeio no fundo do mar.
Casei. Tive três filhos. Sou avô prematuro e não fiz nada do que sonhei em minha juventude.
Agora, depois de ser avô e meus três filhos casarem-se, minha mulher sumiu. Não reclamo por isso. Se tivesse coragem eu mesmo faria isso.
Depois de muitas viagens pelo google, comprei um escafandro e o coloquei no porta-malas.
Tomado de uma coragem não sei de onde, avisei meus filhos: Fiquem com a loja, vou viajar e viver tudo o que não vivi em toda a minha vida!
Protestaram. Não dei ouvidos.
Acham que fui errado? Dias antes, providenciei a passagem de minhas lojas para meus filhos. Eles não sabiam. Eu apenas queria caminhar no fundo do mar com um escafandro, depois disso...
Peguei meu carro e meu escafandro e parti. Não sabia nem para onde, apenas sabia que queria ir para onde havia mar. O meu objetivo era mergulhar com um escafandro, aquilo era o meu sonho.
Quando meus olhos começaram a cansar, parei em um hotel a beira mar para dormir, mas a alegria contagiante do barzinho em frete ao hotel seduziram-me.
Se você teve saco de ler até aqui, sabe que sou um cara muito careta, daqueles que só assistem TV e acham tudo chato. Sei! Eu era assim! Mas agora queria mudar.
Tomei todas e me fiz de garotão. Dei em cima das menininhas e algumas até responderam ao meu chamado – Claro que não por minha aparência, mas sim pela quantidade de dinheiro que minha aparência aparentava -. Fiquei bêbado logo! Não estava acostumado a beber.
Levei duas para o quarto.
Não lembro o que aconteceu, só sei que agora estou dentro do porta-malas do meu carro com as mãos amarradas e não sei o que vai acontecer!
Mas se jogarem o carro na água, aqui ao meu lado esta o meu escafandro.
Sonho de guri é batata!...

Um comentário:

Poderoso disse...

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