terça-feira, agosto 21

RE-POSTAGEM 20 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 

O anjo de Hiroshi


Ele sabia que era diferente! Olhava os seus pares e achava-se estranho, por certo seus pares o achava estranho também. Todos tinham aqueles membros emplumados, só ele não.
Nas brincadeiras todos levavam vantagens: ganhavam os ares, só ele não.
Cresceu triste. Procurou a razão de sua diferença com os seus. Ninguém soube dizer. Sonhou em ser como aquelas pequenas pessoinhas que viviam lá embaixo, que chegavam para seus pais e perguntavam: Papai porque sou assim? Mas não tinha essa chance. Ele não tinha pai ou mãe – quer dizer, tinha Um, mas não era a mesma coisa - . Pois ele era apenas um anjo.
Um dia o chamado chegou! É chegada a hora de você fazer a sua parte! – lhe disseram -. Foi jogado do céu como se asas tivesse. Viu lá embaixo um pequeno planeta azul com o qual se chocaria. Adormeceu!...
Acordou em uma sala branca com um monte de caras de roupas brancas. De dentro de uma mulher não muito branca saiu um ser que ele logo entendeu que seria a quem ele sempre deveria cuidar. Não sabia porque, mas sabia que devia.
Dali em diante ele só ficou ao lado daquele pequeno ser. Sabia que devia cuidar dele, só não sabia porque não tinha asas como os seus irmãos.
O pequeno ser não lhe deu muito trabalho. Tudo o que ele precisava, seus pais davam. Tudo era dado ao pequeno Hiroshi.
Os dias que se seguiram foram chatos, ele apenas cuidava do pequeno Hiroshi que morava em Nagazaki, pra não se machucar nas brincadeiras de meninos.
Mas ele percebia uma tensão nos pais de Hiroshi. Eles não desgrudavam o ouvido do rádio da sala que falava em uma guerra que estava acontecendo e que muitos de seus estavam morrendo por causa dela.
No dia cinco de agosto de 1945 ele teimou em soprar no ouvido do pequeno Hiroshi, dizendo que o menino deveria visitar seu avô que morava em Kobe, há quilômetros de distancia dali . No outro dia, depois do menino muito teimar, os pais aceitaram, e mandaram o pequeno para ver o avô.
Da janela do vagão, Hiroshi viu passar aviões em direção a sua cidade. Não pode ler em um deles: “Enola Gay”, mas soube que não era coisa boa que eles traziam.
Olhando para trás, o menino viu um monstruoso cogumelo surgir no local onde era sua cidade. O cogumelo cresceu, o chão tremeu, um som bizarro fez-se ouvir e passou por cima de sua cabeça, se ele estivesse a uma dezena de metros acima seria tragado pela aura demoníaca que consumiu Nagazaki.
Nesse momento, aquele anjo aleijão entendeu porque não tinha asas!
Se as tivesse, voaria e seria tragado pela bomba e teria abandonado Hiroshi. Mas não! Por estar no chão – e não voando – salvou sua vida junto com de Hiroshi!
Entendeu que alguns são diferentes, para fazer o mundo ser diferente e, não precisava fazer algo maravilhoso como voar, mas apenas fazer o que lhe era possível. E isso fazia a diferença.


quarta-feira, agosto 8



 








Depois de desligar a TV
Fui dormir em paz
Com a lembrança bela de Paes
Não era como quando garoto
Em que tinha noites de insônia
Com a lembrança sensual de Sônia.

segunda-feira, julho 16

RE-POSTAGEM 19 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 

Vida de cão





Nasci na rua! Não sei dizer em que cidade. As únicas coisas que lembro é que foi embaixo de um vão de escada de um prédio abandonado e que era frio e chovia muito. Minha mãe - não posso reclamar - até que foi muito cuidadosa. Meu berço era alguns papelões e jornais com muitas palavras que nunca entendi o que queriam dizer. Minha mãe me cobria com a única coisa que tinha: seu velho e cansado corpo.
Ela sabendo que eu teria uma vida difícil, tratou de ficar sempre do meu lado e me ensinou onde deveria buscar os restos. Os restos sempre foram nossa comida e aprendi onde buscar os melhores restos e brigar para garantir meus restos. Vendo minha mãe disputar o que havia nas lixeiras nos melhores bairros a unhas e dentes, logo estava pronto para defender meu pão de cada dia com garra, gana e fome.
Quando minha mãe percebeu que eu já podia me defender por minhas próprias forças, tratou de ir embora e deixou-me dormindo sozinho em um parque. Acordei sozinho e entendi que estava por minha conta e nunca mais veria aquele ser amado que me trouxe ao mundo e agora iria seguir seu destino sem um fardo tão pesado que era seu filho.
Cresci ali pelo centro da cidade vivendo dos restos que alguém me jogava com desdém ou para aliviar a consciência. Do frio e da chuva buscava os vãos mais escondidos que havia.
Já calejado de viver de um lado para o outro, e a própria sorte e pela boa fé de alguns, certa noite fria fui até a lixeira que sabia que sempre haveria algo para comer. Ali sempre tinha um pedaço mordido de pizza ou uma metade de hambúrguer jogada fora. Mas de súbito o encontrei rasgando o saco com seus dentes sujos e afiados. Buscava comida assim como eu. Preparei-me para correr com ele de minha lixeira preferida quando ele me viu e ficou de lado deixando-me os restos de alimentos para mim. A princípio pensei que fosse por medo, mas logo percebi que não. Na verdade ele viu em mim um ser dá mesma espécie e vendo-me com fome, deixou-me comer.
Comi sem cerimônia os restos. Ele ficou ali parado me olhando com a cabeça baixa. Após estar saciado virei as costas e rumei para praça onde eu sempre dormia. No caminho eu virava furtivamente e sempre via ele me seguindo com a cabeça baixa. Cheguei ao local onde sempre dormia e vi ele sentado com um olhar abobalhado a me olhar. Deitei sobre meus jornais e dei-lhe um olhar que ele entendeu que era um convite. Chegou-se sorrateiro e roçou a cabeça em meu peito carinhosamente para provar sua amizade. Dormimos juntos aquela noite lado a lado sabendo que mesmo nós não sendo da mesma raça e família vivíamos na mesma situação.
A amizade estava feita. Ele por mais estranho que possa parecer virou a minha família. Vagávamos juntos pelas cidades, revirávamos as mesmas lixeiras e dividíamos sempre a comida, apesar dos olhares perplexos das pessoas que passavam.
Nas noites de frio ele se enrolada ao meu corpo, nos de calor ele sempre descobria um local mais fresco e sempre que alguém queria fazer-me mal ele botava dos dentes de fora e saia em minha defesa.
Viver na rua é triste! Ainda mais vendo iguais a nós comendo do bem e do melhor e tendo o tratamento VIP que tem.
Mas felizmente eu encontrei um morador de rua um dia buscando alimentos no lixo e que se tornou meu grande amigo, caso contrário minha vida de cão de rua seria muito ruim.

postado originalmente em 11.2010

terça-feira, junho 5

RE-POSTAGEM 18 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


O OURO DO AMOR


Desde muito moço ele foi instruído nas artes, na religião, nas lógicas do ocultismo e nas loucuras da ciência. Não renunciou o Deus natural, mas esqueceu o Deus criado a semelhança do homem. Aventurou-se pelos caminhos da alquimia. Tencionava transformar as matérias mais simples e paupérrimas na complexa e cobiçada matéria batizada pelos homens com o nome de ouro. Viveu os melhores dias de sua juventude entre tratados e discussões, pipetas e frascos, metais e ácidos, pensamentos e escritos, sono e insônia, adulações e ojeriza, observações e dissecações, erros e acertos até os dias – e noites, muitas noites - comerem-lhe o viço.
Já cansado - o corpo mas não o espírito -, velho – de corpo mas não de espírito – e pobre – de matéria mas não de espírito – recolheu-se a uma pobre choupana oferecida por um primo próspero no interior - mais por vergonha para tira-lo dos olhares dos confrades do que por bondade – , e por não ter mais força física que aparelhasse com seu hercúleo pensar, viu-se obrigado a dispor do auxílio de uma empregada.
Hertha, uma cinquentona fastidiosa para as coisa da carne e buliçosa para os afazeres domésticos veio habitar um quartinho nos fundos da pobre casa. Apesar da falta de instrução ela tornou-se uma grande ajudante em seus estudos além de manter o casebre limpo, organizado e aquecido.
O mundo obtuso e reduzido dela logo foi sendo edificado pelos conhecimentos e palavras estranhas daquele homem, ao mesmo tempo em que o mundo aberto e infinito dele começou a ficar embebido pela imagem daquela mulher que alem de fazer o que as mulheres faziam tinha uma curiosidade – até então para ele: coisa de homem. Poucos homens – pelo oculto e a ciência.
Os vinte anos que os separavam fez com que ela tivesse de auxilia-lo a fazer a barba, seca-lo após o banho e corrigir os botões da casaca em suas respectivas casas. Este contato – até então proibidos para seu recato – aumentaram sua adoração pelo patrão.
Os cuidados de Hertha e as mesmas duas décadas que os separavam, fizeram pela primeira vez os olhos atentos aos mistérios da física e do oculto, a anatomia dos corpos dissecados e das formações rochosas, dos movimentos das marés e dos astros a perceberem os mistérios, as formas e os movimentos daquele corpo virgem de meio século.
No segundo inverno que ela residia com ele, uma noite deixou de ser a cena das bruxas e demônios para dar guarida ao cupido. Cupido que veio em forma de uma violenta chuva com ventos piores ainda.
O parco telhado do quartinho de Hertha voou como se mariposa fosse e ela teve de buscar abrigo nos aposentos do velho patrão. O frio e os anos de libido represado os uniu. O vento e a chuva já estavam a inúmeras léguas de distancia e seus corpos ainda buscavam proteção um ao outro.
Desde aquela noite, uma chuva e um vento imaginário enxota Hertha a procurar a guarida do velho alquimista que deixou de querer transformar tudo em ouro, e descobriu o segredo de transformar carne e sentimentos em prazer e amor.

Postado originalmente em 2010.

quarta-feira, maio 30

Hoje acordei apaixonado 
 Veja só que coisa doida
 É pela mesma pessoa! 
 Olhei pro lado ela não estava
 Não me importei não 
 Afinal de contas tenho comigo 
 A paixão!

sexta-feira, março 16

CAMILA ME DEU UM GAFANHOTO


Camila me deu um gafanhoto
Muitos acham que devia dar mais
Mas eu estou muito satisfeito
Presente melhor... Jamais!

Ele é feito de palha de milho
E logo irá secar
Mas mantem o brilho,
Dela, e de seu olhar.

TE ADORO GURIA

segunda-feira, março 12

HAI KAI 9


Minha janela
vai ficar abandonada
esperando por uma
visita inusitada!

terça-feira, fevereiro 14

CACILDO, O EMPREENDEDOR



Conhecer? Não! Eu não o conheci, apenas ouvi a história do Cacildo. Dizem que ele chegou à cidade e se instalou em um quarto no Lord Hotel. Era um cara simpático, não chegava a ser, digamos assim: bonito! Tinha certa presença. Sempre bem barbeado, bem penteado e sempre de terno e gravata. Aliás! Dizem que os ternos eram impecáveis.
Logo no outro dia ele saiu pela cidade a procura de um imóvel para alugar, não queria coisa pequena não. Não que estivesse atrás de muito luxo, mas o que ele queria mesmo era espaço. Locou a velha mansão dos Luzardos e mandou dar uma “guaribada” no prédio.
Dias depois começou a contratar umas meninas para panfletear na cidade e logo a cidade inteira sabia através dos panfletos e do boca-a-boca que o tal Cacildo iria promover uma exposição de um rentável negócio destinado a mulheres de 18 a 35 anos que estavam dispostas a ganhar um bom dinheiro em pouco tempo e em pouco tempo de trabalho, não necessitava de treinamento, estudo e nem nada.
A noticia logo atraiu a curiosidade não só das mulheres que estavam a fim de ganhar uma renda extra como também a todo mundo. Todos queriam saber do que se tratava. Muitos ficavam horas tomando um cafezinho no Bar do Fialho que fica embaixo do hotel na esperança de que o Cacildo chegasse e deixa-se escapar algo que desse uma pista do tal empreendimento anunciado, agora não só em panfletos, mas também em uma enorme placa colocada em frente ao casarão já reformado.
Tem muita gente hoje que diz que na época ficou sabendo do próprio do que se tratava, mas querem saber? Mentira! Ele nunca soltou uma letrinha que fosse, o jeito era esperar o dia da exposição para saber o que era.
Chegado o dia, foi preciso chamar a guarda municipal pra acalmar os ânimos e liberar o trânsito de tanta gente que estava lá na frente da casa dos Luzardos.
Lá pelas dez, dez e pouco chegou o Cacildo com seu terno alinhado e abriu o portão. O pessoal se adiantou e quase que atropelam o coitado, mas ele correu e postou-se na porta da frente e pediu silêncio. Aos poucos ficou dum jeito que até zumbido de mosca dava pra se ouvir.
Então Cacildo limpou a goela com um pigarro e soltou com aquela sua voz de barítono " Só será permitida a entra de mulheres de 18 a 35 anos e que estão realmente dispostas a ganhar uma boa renda, os demais podem se retirar ou então não será possível fazermos a nossa reunião já a muito agendada. ", Rapaz... Foi um zum-zum-zum mas não teve jeito.
Lá pelo meio-dia o último insistente foi embora e Cacildo abriu as portas para umas dez dúzias de mulheres eufóricas. Elas entraram e foram para o antigo salão de festas que agora estava repleto de cadeiras plásticas. Foram se sentando e logo se viu que muitas teriam de ficar de pé. Cacildo deu boa tarde e chamou duas meninas que começaram a distribuir uns copinhos com guaraná e uns biscoitinhos.
Ele foi para uma escrivaninha de mogno já bem velha e começou a chamar uma por uma. Anotava nomes, telefones e idades, e logo ao lado fazia alguns sinaiszinhos como para identificar à entrevistada. Com umas a conversa era bem rápida e com outras já demorava mais um bocadinho. Era noite alta quando ele despachou a última candidata. Pouco se sabe o que ele falava para elas, apenas se sabe que elas seriam avisadas por telefone, se deveriam voltar para outra reunião na próxima semana ou se a "empresa" não havia se interessado por algum motivo pela candidata neste primeiro momento, mas que não desanimassem não, porque logo logo poderiam serem chamadas.
Naquela semana as mulheres que foram entrevistadas estavam em polvorosa falando umas com as outras para saberem o que ele havia dito para cada uma delas, e as que não puderam participar estavam mais malucas ainda querendo saber do que se tratava e, não me levem a mal, sou homem mais sei que homem também é curioso. O “macharedo” era só cochicho nos cantos e teve até caso de marido bater em mulher porque ela não explicou direitinho do que se tratava.
Desde o dia da primeira reunião não se via mais o Cacildo pela cidade, muitos iam ao hotel e perguntavam pelo dito e a resposta era sempre a mesma, a conta do quarto ainda estava em aberto, mas nem sinal do cara.
Naquela tão esperada semana nem era preciso perguntar quais delas haviam sido chamadas ou dispensadas, bastava olhar a cara e já se sabia só pelo sorriso de triunfo ou pela cara de emburrada.
Vai que na outra segunda pela manhã, amanheceu umas vinte e poucas mulheres na frente do casarão com suas melhores roupas e seus melhores sorrisos estampados nas caras bem maquiadas. Como da outra vez, juntou um monte de curiosos e curiosamente via-se lá longe espiando de uma esquina qualquer alguma das mulheres que haviam estado ali na outra vez e agora haviam sobrado.
Dez em ponto o Cacildo chegou em um taxi da capital. Desceu e foi logo abrindo o portão com um olhar de censura para a pequena multidão que não iria participar da reunião. Todos achavam que alguém tentaria entrar de penetra, mas foi impossível pois ele puxou de uma prancheta e começou a chamar pelo nome as convocadas que iam entrando com um olhar de triunfo.
O Vieira... sabe aquele do Cartório? Esse mesmo! Ele fez uma observação quando entrou a última: Bagulho não entra! Só entrou “muié” bonita! A concordância foi geral!
O Cacildo cerrou a porta e foi para a mesma dependência da última vez e para a mesma escrivaninha. Foi chamando uma a uma e fez nova entrevista. Agora todas levavam mais ou menos o mesmo tempo. Umas saiam com um largo sorriso e outras saiam cabisbaixas.
Nova reunião fora marcada para nova data. Das poucas informações que as derrotadas deram, soube-se que ele inquiria se realmente elas queriam ganhar uma grana, se poderia trabalhar com liberdade de horário, se eram casadas, tinham filhos, profissão dos pais, se eram desinibidas e decididas e se concordavam com os percentuais que deveriam compartilhar com a empresa e mais algumas coisas que nem me lembro mais.
A “fofocaiáda” naqueles dias que antecederam a nova reunião foi de assustar. Houve briga, apostas e palpites, mas, o que de fato era nem as vencedoras da nova eliminatória sabiam.
Novamente o Cacildo sumiu, mas vai que na sexta ele aparece e paga a conta do hotel e se instala no casarão por ele alugado semanas atrás e que serviu de local de reuniões.
Segunda pela manhã uma já conhecida multidão postou-se em frente ao casarão. Deu dez horas e nada do Cacildo e foi ai que o mesmo Viera, o do cartório falou: E as “muié bonita”, vocês viram elas aqui hoje? Nem sinal das tais "muié bonita" que o Vieira haviam apelidado e que já tinha se tornado o título popular das sortudas. Cansados de esperar foram indo cuidar de suas vidas e tudo ficou calmo.
Depois das seis da tarde começou a aparecer uma a uma das "muié bonita" e iam entrando após tocarem uma campainha de porteiro eletrônico recém instalado no casarão. Dizem que foi esse o primeiro a ser instalado aqui, mas não sei se é verdade, mas não nos percamos por isso...
Bom! o que se sabe é que depois que chegou a última, as mesmas duas meninas serviram taças de vinho e só então o Cacildo começou a falar. Disse entre várias coisas que o trabalho não era pesado e que poderia até ser bem prazeroso e que elas trabalhariam ali mesmo e com clientes de grana e de bem, que os pagamentos seriam avista e em dinheiro e que o rendimento seria de acordo com o trabalho de cada uma delas e que era um tipo de venda e que ele mesmo se encarregaria de atrair o público alvo e fazer a venda, elas só precisariam consumar a transação.
Nisso uma perguntou se era a tal da Dinastia, ele disse que não, que não era Dinastia, Herbalife ou qualquer tipo de Avon ou Hermes "da vida".
Mas o que venderemos então? Perguntou uma outra e o simpático Cacildo deu um largo e malicioso sorriso e disse: Ora minhas filhas... Não entenderam ainda, é coisa simples, eu vendo e vocês entregam ao cliente.
Drogas? Pulou uma outra lá de trás espantada, ao que ele respondeu: Ora! Não chamem assim. Vocês só terão de entregar e em puro sigilo o precioso material que vocês trazem no meio das pernas!
Verdade! Juro! Perguntem pro pessoal da época então!
Depois dessa, a última noticia que se teve do Cacildo foi que na mesma noite ele ingressou no hospital municipal com o terno rasgado, sem alguns chumaços de cabelo e com muitas lesões por todo o corpo.
Assim, pelo que eu sei terminou a carreira empreendedora do tal Cacildo e, junto o sonho de muitas daquelas moças.
Bem! Não sei se de todas, dizem por ai que uma ou outra gostou do empreendimento de fizeram o seu próprio negócio render um bom dinheiro, se é que vocês me entendem!

domingo, fevereiro 5

O que eu não faço em tua companhia...



Amo dormir em teus braços
amo que tu durmas nos meus
amo te ver se maquiando
como se fosse a primeira vez.
Amo a tua comida
amo picar para ti os vegetais
amo quando tu ficas braba
para mim ser rápido, muito mais.
Amo caminhar contigo
até debaixo da chuva
faço para ti toda mão
és para mim a luva.
Amo ver filme contigo
na tv deitado no sofá
ou na net a muita distância
estando nós dois on-line.
Amo contigo jogar cartas
ou fazer jogos de rima
lembrar a tua imagem
quando estás por cima.
Amo dançar contigo
mesmo não sabendo dançar
Amo comprar teu remédio
Amo te ver sarar.
Amo você na janela
amo te ver fumar
amo emprestar minha camiseta
amo te ver ela tu usar.
Amo contigo tomar café
Amo contigo beber
Amo toda tua alma
amo beijar os teus pés.
Amo a tua risada
amo teu jeito maluco
amo a tua beleza
que acaba com minha tristeza.
Amo te ver a correr
amo te ver a viver
amo as tuas postagens
amo tudo em você.
Sei que te amo
que te amo
te amo
amo.
Mais nada a dizer!

ADEMIR - 1

Não é quente. Também não é frio. É gostoso.
Não é claro e nem é escuro. Não tem tons berrantes ou cores reconfortantes.
Não se sabe se é feio ou bonito, pois, nada se vê! Pode ser negro como um café ou branco como o leite. Não faz diferença, quem não conhece as alturas não tem medo de grandes saltos. Quem não conhece o suplício eterno não tem medo da morte e ri do pecado assim como a criança que não conhece a dor é seduzida a colocar o dedo no fogo.
É como quando se tem uma dor que incomoda. Tipo aquela dor que não fere, apenas da uma sensação de mal estar e a gente encontra uma posição que nos faz esquecer ela. É essa a sensação que Ademir sente nesses nove meses em que ele vive – sem ainda se chamar Ademir – nesse ambiente prazeroso.
São apenas nove meses que ele vive. Apesar de não ter a noção de que tem uma vida, mas ele já sabe que aquilo que ele tem é o que de melhor ele pode ter.
Logo ele irá ter uma outra vida. Pessoas dirão que não é outra vida: É simplesmente a vida.
Ele é apenas um projeto de uma nova vida – vida assim como nós concebemos - , mas ele sente. Ouve mesmo sem ouvir, onde ele está não há sons e, ele percebe mesmo sem ter outras experiências para confrontar que ali é o melhor lugar em que ele poderia estar. Ali ele está seguro. Ali ele reina. Ali ele é “perfeito” e mais ainda: ali ele é amado.
Mas seu pequeno mundo começa aos poucos lhe negar abrigo. Aquele universo tão seu, contrai-se e o empurra para fora. O seu mundo até aqui ideal o não quer mais. Seu tempo ali terminou. Um outro mundo lhe espera.
O que virá ele não sabe, não teve com quem conversar e nem alguém para lhe dizer como será quando ele deixar aquele seu pequeno mundo.
Não quer ir. Esse é seu mundo. Não conhece outro e o desconhecido é de dar medo. Até pode ser melhor, mas quem garante?
Não... Aqui ele esta seguro e é único. Ninguém irá compará-lo com outro alguém.
Seu mundo continua a contrair-se e tenta expulsa-lo para fora. Não irá! Está resoluto. Não trocará o que lhe é familiar por outra coisa que não conhece.
Conhecer deve ser ruim! Essa é a primeira concepção que ele tem.
O conhecimento trás a razão e a razão a certeza. A certeza, fruto da razão acaba com o medo e deixa somente a razão, e a razão acaba com os mitos, as lendas e os sonhos que movem o homem. O homem só reina no mundo movido pela incerteza, ou não se sentiria desafiado a avançar e ficaria numa eterna inércia que o levaria a extinção.
Aos poucos as contrações de seu mundo vão ficando menores. Sua obstinada vontade de ficar está vencendo as vontades desse outro mundo. É a vitória do ser sobre o meio.
E ficaria ali não fosse as tenazes em volta de seu crânio puxando-o para fora
Mãos plastificadas o pegaram. Assim que a pressão em torno de sua cabeça acabou, foi erguido pelos pés e ficou de cabeça para baixo e recebeu a primeira agressão. Uma palmada nas nádegas ainda molhadas com os vestígios de seu mundo anterior.
Não havia mais volta... Chorou!
Não pela dor da palmada e nem pelo mundo que ele não conseguia ver a sua frente, mas por saber que lhe fora roubado o mundo maravilhoso que era o ventre da mãe.

terça-feira, janeiro 24

HAI KAI 8


A minha janela
foi reclamada:
Ainda és minha?
Sim minha Amada!

segunda-feira, janeiro 23

"OVO PARTIDO" - RE-POSTAGEM 17 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração



POSTADO ORIGINALMENTE EM 2010
Cardoso quando soube que Lígia estava grávida teve a certeza que o dia em que ela desse a luz seria o dia mais feliz de sua vida. Para ele até então o dia de seu casamento fora o dia mais feliz de sua vida, mas agora haveria outro melhor ainda. Sempre que ele olhava a intumescência do ventre de Lígia ele tinha essa certeza.
Ele nunca fizera alguma alusão daquele ventre com algo, mas no dia em que teve a noticia que o feto estava em uma posição que dificilmente possibilitaria um parto normal começou a velo como a um ovo. Um ovo que é partido ao meio para liberar a clara e a gema. Era uma imagem que não o agradava, mas que não saía de sua cabeça. Via aquela barriga como um ovo que era fendido com uma leve pancada de uma colher em cutelo e após era aberto por dois dedos estranhos que o separava em duas partes e deixava escorrer aquilo que um dia poderia vir a ser uma vida, não fosse a agressão sofrida.
Pensou até em análise para deixar de pensar naquilo, mas com o tempo acostumou-se. Barriga ou ovo tanto fazia: dali sairia sua filhinha e seria o dia mais feliz de sua vida.
Chegado o esperado dia, fumou uma carteira de Marlboro Lights, apesar de já ter largado do vício há mais de seis anos. - Achava que aquilo era o que um pai fresco deveria fazer para acalmar a espera -.
Passada uma hora e pouco, vieram informar que sua pequenina havia nascido. Ficou naquele momento o homem mais feliz do mundo. Gastou todos o créditos de seu celular a avisar a todos a boa nova. Até para seu irmão Pedro, com quem estava brigado a mais de dois anos ligou.
Levaram-no para ver a pequena Marta – nome que ela iria herdar da mãe dele – e chorou copiosamente com ela nos braços. Quis ver a esposa. Nesse momento descobriu que o dia mais feliz de sua vida na verdade não o seria. Ligia havia perecido na mesa de parto. Martinha havia dado muito trabalho e mesmo a maravilhosa e cara tecnologia não fora suficiente para garantir a vida da mãe, somente da filha. O dia mais feliz de sua vida, havia tornado-se um dia sombrio. Nuvens negras, não apenas metafóricas, mas de verdade cobriram o céu. Choveu muito no dia que seria o dia mais feliz da vida de Cardoso.
Passados velório, enterro e dias de muita chuva e choro, Cardoso estabeleceu-se em casa nova. Não conseguia viver embaixo do teto em que fora feliz.
Os anos passaram e Martinha foi crescendo. Cardoso com a ajuda de uma babá cuidou para que sua filha tivesse uma vida digna e feliz apesar de não ter a presença de uma mãe. A babá chegava cedo da manhã e Cardoso ia para o banco trabalhar, quando voltava entristecido para casa, ficava somente ele e a pequenina.
No dia em que ela completou seis anos deu uma festa com a presença de todos familiares e amigos. Até o irmão Pedro esteve presente.
Fim da tarde, com todos os convidados tendo ido embora, começou a limpar a casa que estava de ponta cabeça devido à bagunça da festa. Recolheu brinquedos, cinzeiros sujos, restos de docinhos e salgadinhos, copos e pratinhos. Lavou o que estava sujo e guardou tudo em seus respectivos lugares.
Após tudo pronto, dispensou a babá e sentou-se para fumar um merecido cigarro – desde o dia que Lígia morrera voltou a fumar com uma voracidade que parecia ser para compensar os seis anos sem fumo -.
O cigarro chamou uma dose de uísque. Serviu sem cerimônia. Voltou a sentar-se para mais um cigarro. Martinha que brincava com uma bola nova, recém ganha de uma tia acertou o copo ainda cheio de bebida que rolou sobre a mesa de centro molhando um jornal ainda não lido e a carteira quase cheia de cigarros. Cardoso pulou em vão tentando evitar o desastre.
A pequena Marta assustou-se com o movimento desesperado do pai e começou a chorar. Cardoso de joelhos no chão ao ver o jornal e os cigarros molhados virou-se abruptamente e gritou para sua filha calar a boca.
_ Chega!
O grito causou o efeito contrário. Assustada a menina chorou ainda mais. O jornal e os cigarros molhados, somados ao estridente choro e soluçar tirou o resto de paciência que habitava a cansada e confusa cabeça do pai. Levantou-se com um grito de “chega” e puxou a pequena pelo pulso. Com uma mão a prendia e com a outra dava violentas palmadas nas pernas e nádegas com o acompanhamento de novos “chega”.
Cansados, o pai parou de bater ao ver a pele branca maculada por manchas avermelhadas e a filha, parou de chorar ao ver os olhos vermelhos e insanos do agressor.
Pegou-a no colo e correu até o quarto da menina. Soltou-a sobre a cama e como um cego e louco mandou-a dormir. Saiu e bateu a porta. Estancou com as costas arfantes contra a porta recém fechada. Correu para a sala e jogou-se no sofá.
Chorou! Chorou talvez mais que a própria filha havia chorado, tentando buscar no fundo do cérebro ou do peito a resposta para a pergunta que lhe atormentava: Chorava porque havia batido na pequena Marta ou porque creditava a ela a morte de Lígia?
Algo estava partido! Algo estava entre eles fendido como se fosse uma casca de ovo.
Tentou em vão lembrar da barriga de Lígia, mas só veio-lhe a memória a maldita imagem de um ovo . Um ovo partido.

terça-feira, janeiro 17

PASSANDO OS DIAS


Um dia você me falou que muitos dias
É muito pouco para quem vai,
E um único dia apenas podia ser
Muitos dias para quem fica.

Mas a verdade é que para mim
Um minuto apenas longe
- Indo ou ficando – produz
O mesmo gosto de partir.

Se ao menos houvesse uma poção
Que fizesse esquecer
Ou uma noite tranqüila
Que pudesse adormecer
E não ver os dias passarem!

segunda-feira, janeiro 16

Toda a natureza


Desenhei na areia teu rosto
Vi nas estrelas teus olhos
Senti nas ondas teus movimentos
No sol todo o seu calor.

Senti na cerração teu suor
Na copa das árvores teus cabelos
Nos troncos tuas firmes pernas
Nas raízes teus doces pés.

Repousei em cumes como se fossem teus ombros
Deitei em planícies como em teu colo
Subi em montanhas feito os teus seios
Dormi em relvas como em teu púbis.

Senti no vento teu hálito
Na chuva a tua saliva
Em úmidas cavernas teu ventre
No trovejar o teu coração.

Não queiras então que eu te esqueças
Se és tu para mim toda a natureza.

terça-feira, janeiro 10

HAI KAI 7




Mesmo não crendo
na espera
minha guarda
continua na janela!