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segunda-feira, agosto 29

"ERRATA" - Cecilia Meireles

Depois de impresso, reparo
que, embora cego, êste espelho
levanta uma sobrancelha
a apontar meu êrro claro

(Os espelhos sem reflexo
guardarão sempre algum brilho
para vírgula, ou cedilha
ou acento circunflexo...)

Como porém, cada dia
vai sendo a vidadiversa,
e, quanto mais fiel, o verso,
mais infiel, a ortografia,

pode ser que, brevemente,
o espelho, nessa moldura,
já não seja cego e impuro,
mas certo e clarividente...

Obra Poética - 1977

quarta-feira, maio 26

TANGUINHO DAS PALAVRAS SOLTAS


Cigarro, cerveja e insônia
Companheiros para mais uma noite
Quem me vê pode achar que estou triste
Pois não sabe o tamanho de minha alegria.

Quando fico na monotonia da noite
Esperando ou espantando o sono
É por que quero afastar mais o raiar do dia
Para ficar só eu no meu abandono.

É justamente quando não se tem platéias
E em sonho a cabeça das pessoas divagam
Que busco criar mais uma história
É aí que coloco em prática as minhas idéias.

É que enquanto as pessoas dormem
As palavras ficam livres sem uso pelo ar
Para eu cáptalas e usa-las para escrever
Algo que possa valer pena, para alguém ler.

quinta-feira, abril 15

Toda a natureza


Desenhei na areia teu rosto
Vi nas estrelas teus olhos
Senti nas ondas teus movimentos
No sol todo o seu calor.

Senti na cerração teu suor
Na copa das árvores teus cabelos
Nos troncos tuas firmes pernas
Nas raízes teus doces pés.

Repousei em cumes como se fossem teus ombros
Deitei em planícies como em teu colo
Subi em montanhas feitos os teus seios
Dormi em relvas como em teu púbis.

Senti no vento teu hálito
Na chuva a tua saliva
Em úmidas cavernas teu ventre
No trovejar o teu coração.

Não queiras então que eu te esqueças
Se és tu para mim toda a natureza.