quarta-feira, novembro 21


ADEMIR - 2



As mãos plastificadas o depositaram sobre dois macios, suados e fartos seios.
Aquele mundo só seu ficou para trás. Ele soube naquele instante que não haveria volta. Teria de encontrar o seu porto seguro e, sem dúvida seria ali naqueles seios macios, suados e fartos que ele iria se proteger. Estava sedento e foi deles que ele se fartou. Sentiu-se seguro.
Algum cheiro ou simplesmente o contato de seus lábios com aqueles seios o fez perceber que não estava só naquele mundo novo. Aquele ser que o alimentava e o segurava com tanto carinho era o mesmo ser que lhe deu abrigo até o momento em que fora arrancado de seu mundo. Sim! Sentiu-se seguro.
Mas logo foi retirado de sua segurança e foi exposto a várias mãos estranhas. Elas não tinham o intento de o machucar e ele percebia que não eram para fazer-lhe mal. Os donos das mãos estranhas estavam certificando-se se estava tudo bem com ele.
Mas não estava!
Em uma sala ali próximo, um homem, alto, negro e forte apesar de manco, estava entre a preocupação e a felicidade. O homem era Rafael. Vinte e dois anos, motorista e ex-jogador de futebol.
Foi um dia uma grande revelação do esporte, pronto para despontar, não fosse uma entrada severa que recebera numa final da segunda divisão que lhe estragou o joelho para sempre.
Depois de muitos meses em tratamento, Rafael ouviu do médico a frase que quase acabou com sua vida...
_Infelizmente o senhor não poderá mais jogar futebol!
O seu grande sonho de conquistas que ele acalentava desde menino estava acabado. Não seria um novo Pelé. Depois de meses de angustias começou uma “carreira” de motorista de taxi. Mas agora tudo podia mudar. Se ele não podia ser o novo Pelé, o seu filho, recém, nascido o seria.
Rafael já se via nos campos treinando o filho para ser o grande “rei da bola”. O que ele não foi, seu filho seria!
 O médico que comandou o parto veio falar com Rafael e disse-lhe para esperar um momento! O médico respondeu ao afoito pai que sem dúvida era um menino, mas, devia aguardar mais uns minutinhos antes de ver o filho. Rafael não era marinheiro de primeira viagem, já tinha duas filhas e sabia que aquilo não era normal, mas o médico lhe garantiu que não era nada para se preocupar...
Rafael não se conteve em ficar ali parado. Desceu correndo pelas escadas e foi ter com seus amigos e parentes que o aguardavam em frente ao hospital.
_Um menino! Um menino! Um novo Pelé! Um novo Pelé! – gritava o orgulhoso pai.
Os amigos o abraçaram e o levaram para um boteco ali em frente para beber em homenagem ao novo Pelé.
Várias cervejas foram abertas em homenagem ao grande craque que havia surgido. Rafael tinha a certeza que seu filho seria uma grande estrela do futebol.
_É um brasileiro... E brasileiro é boleiro! – bradava Rafael – Deixa o basquete prôs gringos. Deixa a ginástica prôs russos, nós brasileiros somos do país do futebol.
Cida a cunhada, apareceu no boteco e chamou Rafael. Rafael não deu nem bola. Cida chamou novamente e Rafael foi ter com ela.
_O Doutor quer falar contigo...
_O que foi cunhada?...
_Não sei Rafael!... É melhor ir lá falar com ele!...
Rafael tentou pagar as bebidas, mas os amigos fizeram questão de pagar em homenagem ao grande craque que veio ao mundo.
Poucos minutos após, retornou um triste Rafael dizendo:
É cego!... Meu filho é cego!

quarta-feira, novembro 14


MARAVILHA!!! ESTOU ORGULHOSO PELA NOSSA SECRETARIA MUNICIPAL DE TRANSITO E TRANSPORTES DE GRAVATAÍ!!!!
Um determinado estabelecimento comercial colocou um automóvel, para fins de publicidade sobre o passeio público- que o gerente do estabelecimento diz pertencer este passeio “público” a sua propriedade -, e bem na esquina do mesmo, exatamente no local onde dá acesso a duas faixas de seguranças. Quando me manifestei dizendo que estava em local inapropriado, o educado gerente disse que eu era ignorante por estar reclamando e falou que deixava ali por que ninguém cumpre lei mesmo, ou seja, pela ótica dele, se alguém rouba eu posso roubar, e logo ele também, deve ser por aí!
Mas o pior é que quando reclamei para a Secretaria Municipal de Transito e Transporte – e fica aqui registrado que fui muito bem atendido, pelos dois funcionários que falaram comigo  -, fiquei sabendo que a própria Secretaria AUTORIZOU a permanência do carro ali, bem em frente às faixas de segurança!
Quando um órgão público que deve zelar pela Lei, autoriza que se faça o contrário eu fico MUITO ORGULHOSO PELA FORMA COMO É ADMINISTRADA A NOSSA CIDADE!
Mas, isso não é privilégio desta Administração, na anterior, reclamei pelo fato de colocarem alimentação de cães na calçada, bem ao lado do hospital, pois os cães estavam avançando nas pessoas que passavam por ali, fui informado que a Prefeitura não podia fazer nada, por que eles estavam alimentando os cães, donde eu logo deduzi que se eu quiser eu posso amarrar um casal de javali num poste bem em frente a prefeitura e criar os bichinhos ali. Desde que eu os alimentem, é lógico!

terça-feira, outubro 30


RE-POSTAGEM 23 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

CONVERSA DE AMIGOS


Joel sentou-se e pediu uma cerveja. Iria tomar só uma e voltar para casa e dormir, amanhã era dia de acordar cedo. Nenhum conhecido no bar. Ficou olhando as pessoas que voltavam pelo calçadão.
_ Joel meu velho... – ouviu – tu por aqui?
_ Edgar? – reconheceu – há quanto tempo cara! - Se abraçaram provando que era há muito tempo mesmo. – senta aí! Vamos tomar uma!
Pediram mais um copo e falaram bobagens como falam amigos que a muito se conhecem. O papo se alongou e veio mais cerveja.
Falaram de futebol, de reminiscências, de política e tudo o mais.
_ Mas e o trabalho? Como ta?
_ Beleza cara! Se melhorar estraga.
_ Ótimo! Eu também não tenho do que me queixar! – falaram sobre mais coisas pueris e veio mais cerveja.
Sempre que alguma mulher bonita entrava, os olhos deles eram roubados para elas e lá vinham piadinhas, até que:
_ E Marta? Como esta a nossa Marta? – perguntou Joel casualmente.
_ Sei lá! Deve estar bem! Nos separamos a uns seis meses. Agora eu quero mais é curtir a vida.
_ Poxa!... Sinto muito cara!
_ Sinta nada cara! A melhor coisa da vida foi à separação. Eu até tinha inveja do amigo!
_ Ora que é isso? Vocês sempre se amaram! A Marta é uma mulher legal e ...
_ É... Vá viver o dia todo com ela pra ver! – acendeu um cigarro – mulher é um porre! – levantou o copo para um brinde.
_ A saúde!
_ Que saúde o que? As mulheres! A pior e melhor coisa do mundo! – deram gargalhadas e tomaram mais uma gelada.
Joel esqueceu que iria voltar cedo pra casa e tomaram mais uma, mais uma, mais uma e mais uma.
_ Joel, tu sabes que sou teu amigo né cara?
_ Ué! Lógico!
_ Eu queria fazer uma pergunta meio... – e sustentou um silêncio que queria dizer: não devo falar, mas quero falar!
_ Fala cara! Sem frescuras!
_ Bom! A Sara? Tu ainda sente algo pela Sara ou é coisa do passado? – Joel mexeu-se na cadeira um pouco incomodado.
_ Posso? – pegou um cigarro de Edgar – O que tu falou mesmo?
_ A Sara?...
_ Ah! Que Sara o que cara? É como a tua Marta, isso é coisa do passado. Tu achas que eu vou ficar pensando em mulher que me separei a mais de um ano? – encheu os dois copos – Mas porque a pergunta?
_ Nada! Curiosidade de amigo. – ergueu o copo – Mais um brinde – soluçou – A amizade!
_ A amizade! – brindaram. Beberam longos goles e ficaram em silêncio. Depois de um longo hiato Joel perguntou:
_ Tu tem visto ela?
_ Quem?
_ A Sara?
_ A Sara? Ah! Não! – novos goles – e tu?
_ Graças a Deus não! Ferreira, trás mais uma aqui pra nós!
Veio mais uma garrafa. Serviram-se.
_ Faz uns quatro meses! – disse Edgar olhando pras unhas.
_ O que?
_ A Sara!
_ O que que tem a Sara? Fala Edgar?
_ Pois é! Faz uns quatro meses que não vejo a Sara!
_ Ah! – pausa – Então vocês se viam?
_ Não!
_ Ué?!
_ Eu a vi há uns quatro meses. Só isso!
_ Éééé?... Só?...
_ Sim! – Beberam a cerveja sem muito conversar.
_ Edgar, fala! – cortou o silêncio pesado que rondava a mesa.
_ Falar o que “Jô”?
_ O que tu ias falar! Do nada tu tiraste a Sara...
_ Bobagem...
_ Então fala!
_ O que?...
_ Essa bobagem!... – Seus olhos se cruzaram. Voltaram a se cruzar e desta vez fitaram-se.
_ Joel! Na verdade eu a encontrei logo depois que me separei.
_ É?
_ Isso! – bebeu um longo gole – Fui num botequim tomar umas e encontrei-a com umas amigas.
_ Hum... – Joel acendeu outro cigarro.
_ Sabe como é quando a gente se separa depois de anos de casado, né?
_ Não! Diga-me...
_ A gente fica feito peixe fora da água! Não conhece mais ninguém e nem sabe o que fazer...
_ Isso é!
_ Pois é! Aí a vi e fui conversar. Ela me apresentou “prum” monte de amigas e ficamos de trova. Dançamos e bebemos todas. A noite foi indo e as amigas foram indo embora e ficamos só nós dois. – apagou o cigarro de cabeça baixa.
Estabeleceu-se mais um longo silêncio na mesa dos dois.
_ Tá! Aí transaram? Foi isso? – perguntou em voz baixa Joel para ninguém ouvir.
_ Desculpa mano! Foi sim! – desviaram os olhares. Encheram os copos com o que restava na garrafa e Joel perguntou com o olhar no copo...
_ E vocês estão bem?
_ Que é isso mano? Eu sou teu amigo.
_ ...
_ Nunca mais nos vimos. Ela disse que mudou de celular e nem me deu o novo e disse que nunca me ligaria. Falou para eu a esquecer e que havia feito tudo como uma forma de revanche!
_ É!... Elas são assim mesmo!
_ Eu não entendi bem esse lance de revanche...
_ Sei lá! Ferreira, trás uma saideira! Joel pediu evitando os olhos de Edgar.

segunda-feira, outubro 15


Continho Miudinho - 9



Rodrigo se apaixonou pela esposa de seu grande amigo Eduardo. Tentou a muito custo fugir deste sentimento, mas um dia o que ele sentia ficou maior que sua amizade e furtivamente colocou um bilhete sob o travesseiro dela dizendo: "Eu te amo meu anjo! Se o sentimento for recíproco, me encontre amanhã às dezoito horas no Jardim Botânico! Beijos! assinado Rodrigo!”.
Rodrigo teve uma terrível surpresa quando no local e horário referido, viu Eduardo chegar com um buquê de flores.
Como ele poderia ter imaginado que o travesseiro que ficava ao lado do criado mudo com uma caixa de lenços umedecidos e um livro de Anne Rice era o de seu amigo Eduardo?

terça-feira, outubro 2


(NÃO) ESTILO!

Minha camisa é de brechó
Minha calça é made in china
E ainda por cima
Meu sapato é de dar dó.

Eu não ligo muito pra moda
E isso não me incomoda
Me visto como eu quero
Não pago uma de cara foda.

Eu escuto Nelson, Wando e Caetano
Eu não ligo para as tendências
Roupa para mim é só um pano
Eu não vivo de aparências.

Desde que ela esteja bem lavada
Uso até camisa de banda de rock
Moda é coisa pra mim ultrapassada
Moda pra mim, é coisa de lóki.


sexta-feira, setembro 14

RE-POSTAGEM 22 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 O GUARDIÃO DE SIMONE


Adroaldo desceu do ônibus e ficou sem saber para onde ir. Nunca havia estado na região norte do estado. Sentou em um banco e pensou em ligar para Simone. Achou melhor esperar. Estava ali para conhecer a família da mulher que ele amava. Daquela família só conhecia Simone – sua noiva -, e achou que seria inconveniente apressar seus anfitriões. Em poucos segundos percebeu que foi melhor não ligar. Logo saltou Simone de uma velha e muito bem conservada Rural Willis. Foi apresentado a duas irmãs e a dois cunhados. Foi levado até a casa – para ele mansão – da família.
Era quase hora do almoço e ele foi levado a uma mesa farta e enorme a sombra de um caramanchão. Conheceu a matriarca – sua futura sogra – da família. O nervosismo logo deu lugar a um bem estar. Todos eram bem receptivos, principalmente as pessoas mais próximas a Simone.
Após a sobremesa se aventurou até a tocar e cantar algumas músicas com um primo de Simone que estava gravando um disco de milongas. A cerveja foi sem parcimônia.
A tarde saiu com a noiva para conhecer a cidade. Conheceu os amigos dela e voltou a casa para o jantar. Conheceu mais alguns familiares e amigos dela e saiu para a varanda. Ficou sabendo que não poderiam dormir juntos como estavam acostumados a fazerem, pois a família era muito conservadora. Mesmo decepcionado aceitou de pronto. Deram alguns cálidos e “educados” beijos e foi levado por Simone até o quarto que fora reservado para ele. Ficariam no mesmo andar e mesmo corredor, mas, separados por um banheiro – que eles chamavam de quarto de banho -.
Deu um último e rápido beijo e recolheu-se para dormir. Estava tudo correndo bem! Havia pensado que seria difícil aquele contato, mas estava tudo muito tranqüilo. Colocou o pijama e foi dormir.
No meio da noite a cerveja consumida na tarde o acordou. Tinha de ir ao banheiro. Conjeturou se deveria ir ao banheiro de pijama ou trocar de roupa. Olhou o relógio e viu que era mais de três horas. Poderia sair sem medo de encontrar alguém no corredor. Saiu.
Tão logo chegou ao corredor, levou um susto ao ver um senhor de vastos bigodes e jaqueta militar parado no corredor, bem em frente à porta onde Simone esta dormindo.
Refeito do susto, deu um aceno e um sorriso para o homem que o olhava sério. Entrou no banheiro. Urinou e ficou culpando-se por ter saído do quarto no meio da noite. Teria o homem pensado que ele esgueirava-se para o quarto de Simone? – pensou.
Saiu do banheiro e percebeu sem muito olhar que ele continuava lá de guarda a porta de Simone. Deu um sussurrado boa noite e voltou ao quarto. Estava com sono e logo adormeceu.
Acordou tão logo os primeiros raios de sol bateram nas frestas da janela. Não soube se acordou pela luz que adentrava pelas frestas ou pela pressão que lhe afligia a bexiga. Havia bebido muito no dia anterior. Viu que era cinco e vinte. Todos deviam estar dormindo. Saiu para o banheiro.
Tão logo chegou ao corredor, viu no mesmo local o homem de espessos bigodes de plantão em frente a porta de Simone. Deu um bom dia que não foi respondido e entrou no banheiro. Realmente a família dela era muito conservadora. Aquele homem ficou ali a noite toda de guarda para impedir que os noivos tivessem algum contato.
Aliviou a bexiga e lavou o rosto. Abriu a porta e percebeu que o guardião de Simone havia ido embora. Voltou ao seu quarto e dormiu.
Foi acordado as oito e trinta pelo irmão de Simone. O estavam esperando para o café na cozinha. Vestiu-se e foi ao banheiro lavar-se e escovar os dentes. Ficou feliz em não ver o homem de plantão a cuidar dele – ou dela -.
Quando chegou na cozinha Simone veio correndo ao seu encontro dando-lhe bom dia e um beijo na boca. O abraçou e cochichou ao ouvido: _ Eles gostaram de ti! Caso contrário não fariam um café assim tão íntimo na cozinha, quando é café com pessoa de fora, eles fazem na sala de jantar e não aqui na parte íntima da casa.
Adroaldo foi saudado com bons dias amigáveis. Sentiu-se integrado a família. Foi levado a sentar entre a futura sogra e Simone. Serviram-lhe um fumegante e perfumado café. Esperou que alguém começasse a beber o café e só então levou a caneca aos lábios.
Em meio ao primeiro gole e a fumaça do mesmo, viu o homem de espessos bigodes que guardara o quarto de Simone em uma pintura desbotada em um quadro de bela moldura. Cessou o gole de café e com a caneca quase colada aos lábios perguntou: Quem é ele?
_ É meu avô! – respondeu Simone orgulhosa - Foi um grande herói que deu sua vida na revolução de trinta.
Adroaldo deu um apavorado grito, mas não pelo calor do café que caiu em seu colo!

segunda-feira, setembro 3

RE-POSTAGEM 21 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 

Prolongando o Fim


Há muito havia acabado. Nós dois sabíamos que nada sobrara daquilo que um dia chamáramos de amor e que um dia fora um casal. Chegamos um dia ao momento que não havia mais o que esconder: Estava terminado!
Um de nós tinha de dar um basta, e foi você! Não tive a coragem de tomar a decisão, você tomou! Chorei! Você chorou! Não choramos por amor, mas pela dor de ver que tudo aquilo que um dia nós havíamos jurado ser para sempre chegou ao fim.
Como dois seres evoluídos e inteligentes resolvemos tudo terminar, mas havia coisas a serem acertadas antes de cada um ir para o seu lado. Ficou combinado que resolveríamos tudo com civilidade. Era só o tempo de acertarmos coisas que julgávamos triviais: casa, pensão, carro, família e tudo o mais que nos unia.
Pensava que tu ficarias em casa ao meu lado como sempre ficara até tudo se resolver, mas não! Tu começastes a ter imediatamente uma nova vida enquanto eu estava ainda entre o apper e a lona. Por respeito ou costume me pedias para sair e eu num fingido desdém te olhava e dizia: Vai!
Vai para tua vidinha pequena e burra, para tua noite falsa e podre, para os teus perdidos e doentes de espírito eu dono de mim dizia.
Tu ias! Eu ficava sozinho naquilo que um dia foi nosso lar. Olhava as paredes e não via as mesmas paredes que um dia serviu de redoma a nossa felicidade. Olhava os móveis que nós compartilhamos por toda uma vida e não os sentia mais como sendo meus. Olhava os retratos na estante e via uma família destruída... podre...
Não bebia! Me reclusava aos meus livros e discos mas eles não me davam o prazer que antigamente no meu silêncio mesquinho e egoísta em tua presença me davam. Vagava pelos corredores e cômodos vazios para preencher-me e mais vazio me tornava.
Não conseguia dormir! Ficava guardião dos ponteiros do relógio da sala de jantar. A todo som que vinha da rua corria para a porta de entrada esperando ver você furtivamente, alegre e embriagada entrar. Não eras tu! Era apenas mais um carro que passava em frente daquilo que um dia nós chamamos de nossa casa.
Finalmente tu chegavas e o desdém que havia lhe dado a “´permissão” de sair era metamorfoseado pela mais dolorosa e rancorosa raiva.
Perdida! Vadia! Burra! Mesquinha! Bêbada! Insana! Eram apenas os primeiros adjetivos que lhe jogava na cara. Tu tentavas ficar indiferente a tudo, mas depois de tanto ouvir imprecações explodias. Brigávamos por pelo menos uma hora até tu desistires e ir dormir no quarto que um dia fora nosso e eu me jogava louco como um kamikase no sofá da sala.
Não dormia de pronto! Em parte devido à excitação do embate e também pelos pensamentos e sentimentos que me percorria a cabeça feito carrossel. Abatido pelo cansaço, finalmente adormecia.
Nem bem clareava o dia pulava do duro sofá e preparava um café para despertar-lhe - Não levava flores junto às torradas porque sabia que seria teatral demais - . e passava o dia inteiro a lhe paparicar e esforçando-me para criar em ti aquele velho sentimento que a muito estava morto, até o amor novamente como um camaleão retomar as cores do desdém.

Postado originalmente em 2011

terça-feira, agosto 21

RE-POSTAGEM 20 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 

O anjo de Hiroshi


Ele sabia que era diferente! Olhava os seus pares e achava-se estranho, por certo seus pares o achava estranho também. Todos tinham aqueles membros emplumados, só ele não.
Nas brincadeiras todos levavam vantagens: ganhavam os ares, só ele não.
Cresceu triste. Procurou a razão de sua diferença com os seus. Ninguém soube dizer. Sonhou em ser como aquelas pequenas pessoinhas que viviam lá embaixo, que chegavam para seus pais e perguntavam: Papai porque sou assim? Mas não tinha essa chance. Ele não tinha pai ou mãe – quer dizer, tinha Um, mas não era a mesma coisa - . Pois ele era apenas um anjo.
Um dia o chamado chegou! É chegada a hora de você fazer a sua parte! – lhe disseram -. Foi jogado do céu como se asas tivesse. Viu lá embaixo um pequeno planeta azul com o qual se chocaria. Adormeceu!...
Acordou em uma sala branca com um monte de caras de roupas brancas. De dentro de uma mulher não muito branca saiu um ser que ele logo entendeu que seria a quem ele sempre deveria cuidar. Não sabia porque, mas sabia que devia.
Dali em diante ele só ficou ao lado daquele pequeno ser. Sabia que devia cuidar dele, só não sabia porque não tinha asas como os seus irmãos.
O pequeno ser não lhe deu muito trabalho. Tudo o que ele precisava, seus pais davam. Tudo era dado ao pequeno Hiroshi.
Os dias que se seguiram foram chatos, ele apenas cuidava do pequeno Hiroshi que morava em Nagazaki, pra não se machucar nas brincadeiras de meninos.
Mas ele percebia uma tensão nos pais de Hiroshi. Eles não desgrudavam o ouvido do rádio da sala que falava em uma guerra que estava acontecendo e que muitos de seus estavam morrendo por causa dela.
No dia cinco de agosto de 1945 ele teimou em soprar no ouvido do pequeno Hiroshi, dizendo que o menino deveria visitar seu avô que morava em Kobe, há quilômetros de distancia dali . No outro dia, depois do menino muito teimar, os pais aceitaram, e mandaram o pequeno para ver o avô.
Da janela do vagão, Hiroshi viu passar aviões em direção a sua cidade. Não pode ler em um deles: “Enola Gay”, mas soube que não era coisa boa que eles traziam.
Olhando para trás, o menino viu um monstruoso cogumelo surgir no local onde era sua cidade. O cogumelo cresceu, o chão tremeu, um som bizarro fez-se ouvir e passou por cima de sua cabeça, se ele estivesse a uma dezena de metros acima seria tragado pela aura demoníaca que consumiu Nagazaki.
Nesse momento, aquele anjo aleijão entendeu porque não tinha asas!
Se as tivesse, voaria e seria tragado pela bomba e teria abandonado Hiroshi. Mas não! Por estar no chão – e não voando – salvou sua vida junto com de Hiroshi!
Entendeu que alguns são diferentes, para fazer o mundo ser diferente e, não precisava fazer algo maravilhoso como voar, mas apenas fazer o que lhe era possível. E isso fazia a diferença.


quarta-feira, agosto 8



 








Depois de desligar a TV
Fui dormir em paz
Com a lembrança bela de Paes
Não era como quando garoto
Em que tinha noites de insônia
Com a lembrança sensual de Sônia.

segunda-feira, julho 16

RE-POSTAGEM 19 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 

Vida de cão





Nasci na rua! Não sei dizer em que cidade. As únicas coisas que lembro é que foi embaixo de um vão de escada de um prédio abandonado e que era frio e chovia muito. Minha mãe - não posso reclamar - até que foi muito cuidadosa. Meu berço era alguns papelões e jornais com muitas palavras que nunca entendi o que queriam dizer. Minha mãe me cobria com a única coisa que tinha: seu velho e cansado corpo.
Ela sabendo que eu teria uma vida difícil, tratou de ficar sempre do meu lado e me ensinou onde deveria buscar os restos. Os restos sempre foram nossa comida e aprendi onde buscar os melhores restos e brigar para garantir meus restos. Vendo minha mãe disputar o que havia nas lixeiras nos melhores bairros a unhas e dentes, logo estava pronto para defender meu pão de cada dia com garra, gana e fome.
Quando minha mãe percebeu que eu já podia me defender por minhas próprias forças, tratou de ir embora e deixou-me dormindo sozinho em um parque. Acordei sozinho e entendi que estava por minha conta e nunca mais veria aquele ser amado que me trouxe ao mundo e agora iria seguir seu destino sem um fardo tão pesado que era seu filho.
Cresci ali pelo centro da cidade vivendo dos restos que alguém me jogava com desdém ou para aliviar a consciência. Do frio e da chuva buscava os vãos mais escondidos que havia.
Já calejado de viver de um lado para o outro, e a própria sorte e pela boa fé de alguns, certa noite fria fui até a lixeira que sabia que sempre haveria algo para comer. Ali sempre tinha um pedaço mordido de pizza ou uma metade de hambúrguer jogada fora. Mas de súbito o encontrei rasgando o saco com seus dentes sujos e afiados. Buscava comida assim como eu. Preparei-me para correr com ele de minha lixeira preferida quando ele me viu e ficou de lado deixando-me os restos de alimentos para mim. A princípio pensei que fosse por medo, mas logo percebi que não. Na verdade ele viu em mim um ser dá mesma espécie e vendo-me com fome, deixou-me comer.
Comi sem cerimônia os restos. Ele ficou ali parado me olhando com a cabeça baixa. Após estar saciado virei as costas e rumei para praça onde eu sempre dormia. No caminho eu virava furtivamente e sempre via ele me seguindo com a cabeça baixa. Cheguei ao local onde sempre dormia e vi ele sentado com um olhar abobalhado a me olhar. Deitei sobre meus jornais e dei-lhe um olhar que ele entendeu que era um convite. Chegou-se sorrateiro e roçou a cabeça em meu peito carinhosamente para provar sua amizade. Dormimos juntos aquela noite lado a lado sabendo que mesmo nós não sendo da mesma raça e família vivíamos na mesma situação.
A amizade estava feita. Ele por mais estranho que possa parecer virou a minha família. Vagávamos juntos pelas cidades, revirávamos as mesmas lixeiras e dividíamos sempre a comida, apesar dos olhares perplexos das pessoas que passavam.
Nas noites de frio ele se enrolada ao meu corpo, nos de calor ele sempre descobria um local mais fresco e sempre que alguém queria fazer-me mal ele botava dos dentes de fora e saia em minha defesa.
Viver na rua é triste! Ainda mais vendo iguais a nós comendo do bem e do melhor e tendo o tratamento VIP que tem.
Mas felizmente eu encontrei um morador de rua um dia buscando alimentos no lixo e que se tornou meu grande amigo, caso contrário minha vida de cão de rua seria muito ruim.

postado originalmente em 11.2010

terça-feira, junho 5

RE-POSTAGEM 18 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


O OURO DO AMOR


Desde muito moço ele foi instruído nas artes, na religião, nas lógicas do ocultismo e nas loucuras da ciência. Não renunciou o Deus natural, mas esqueceu o Deus criado a semelhança do homem. Aventurou-se pelos caminhos da alquimia. Tencionava transformar as matérias mais simples e paupérrimas na complexa e cobiçada matéria batizada pelos homens com o nome de ouro. Viveu os melhores dias de sua juventude entre tratados e discussões, pipetas e frascos, metais e ácidos, pensamentos e escritos, sono e insônia, adulações e ojeriza, observações e dissecações, erros e acertos até os dias – e noites, muitas noites - comerem-lhe o viço.
Já cansado - o corpo mas não o espírito -, velho – de corpo mas não de espírito – e pobre – de matéria mas não de espírito – recolheu-se a uma pobre choupana oferecida por um primo próspero no interior - mais por vergonha para tira-lo dos olhares dos confrades do que por bondade – , e por não ter mais força física que aparelhasse com seu hercúleo pensar, viu-se obrigado a dispor do auxílio de uma empregada.
Hertha, uma cinquentona fastidiosa para as coisa da carne e buliçosa para os afazeres domésticos veio habitar um quartinho nos fundos da pobre casa. Apesar da falta de instrução ela tornou-se uma grande ajudante em seus estudos além de manter o casebre limpo, organizado e aquecido.
O mundo obtuso e reduzido dela logo foi sendo edificado pelos conhecimentos e palavras estranhas daquele homem, ao mesmo tempo em que o mundo aberto e infinito dele começou a ficar embebido pela imagem daquela mulher que alem de fazer o que as mulheres faziam tinha uma curiosidade – até então para ele: coisa de homem. Poucos homens – pelo oculto e a ciência.
Os vinte anos que os separavam fez com que ela tivesse de auxilia-lo a fazer a barba, seca-lo após o banho e corrigir os botões da casaca em suas respectivas casas. Este contato – até então proibidos para seu recato – aumentaram sua adoração pelo patrão.
Os cuidados de Hertha e as mesmas duas décadas que os separavam, fizeram pela primeira vez os olhos atentos aos mistérios da física e do oculto, a anatomia dos corpos dissecados e das formações rochosas, dos movimentos das marés e dos astros a perceberem os mistérios, as formas e os movimentos daquele corpo virgem de meio século.
No segundo inverno que ela residia com ele, uma noite deixou de ser a cena das bruxas e demônios para dar guarida ao cupido. Cupido que veio em forma de uma violenta chuva com ventos piores ainda.
O parco telhado do quartinho de Hertha voou como se mariposa fosse e ela teve de buscar abrigo nos aposentos do velho patrão. O frio e os anos de libido represado os uniu. O vento e a chuva já estavam a inúmeras léguas de distancia e seus corpos ainda buscavam proteção um ao outro.
Desde aquela noite, uma chuva e um vento imaginário enxota Hertha a procurar a guarida do velho alquimista que deixou de querer transformar tudo em ouro, e descobriu o segredo de transformar carne e sentimentos em prazer e amor.

Postado originalmente em 2010.

quarta-feira, maio 30

Hoje acordei apaixonado 
 Veja só que coisa doida
 É pela mesma pessoa! 
 Olhei pro lado ela não estava
 Não me importei não 
 Afinal de contas tenho comigo 
 A paixão!

sexta-feira, março 16

CAMILA ME DEU UM GAFANHOTO


Camila me deu um gafanhoto
Muitos acham que devia dar mais
Mas eu estou muito satisfeito
Presente melhor... Jamais!

Ele é feito de palha de milho
E logo irá secar
Mas mantem o brilho,
Dela, e de seu olhar.

TE ADORO GURIA