terça-feira, outubro 30


RE-POSTAGEM 23 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

CONVERSA DE AMIGOS


Joel sentou-se e pediu uma cerveja. Iria tomar só uma e voltar para casa e dormir, amanhã era dia de acordar cedo. Nenhum conhecido no bar. Ficou olhando as pessoas que voltavam pelo calçadão.
_ Joel meu velho... – ouviu – tu por aqui?
_ Edgar? – reconheceu – há quanto tempo cara! - Se abraçaram provando que era há muito tempo mesmo. – senta aí! Vamos tomar uma!
Pediram mais um copo e falaram bobagens como falam amigos que a muito se conhecem. O papo se alongou e veio mais cerveja.
Falaram de futebol, de reminiscências, de política e tudo o mais.
_ Mas e o trabalho? Como ta?
_ Beleza cara! Se melhorar estraga.
_ Ótimo! Eu também não tenho do que me queixar! – falaram sobre mais coisas pueris e veio mais cerveja.
Sempre que alguma mulher bonita entrava, os olhos deles eram roubados para elas e lá vinham piadinhas, até que:
_ E Marta? Como esta a nossa Marta? – perguntou Joel casualmente.
_ Sei lá! Deve estar bem! Nos separamos a uns seis meses. Agora eu quero mais é curtir a vida.
_ Poxa!... Sinto muito cara!
_ Sinta nada cara! A melhor coisa da vida foi à separação. Eu até tinha inveja do amigo!
_ Ora que é isso? Vocês sempre se amaram! A Marta é uma mulher legal e ...
_ É... Vá viver o dia todo com ela pra ver! – acendeu um cigarro – mulher é um porre! – levantou o copo para um brinde.
_ A saúde!
_ Que saúde o que? As mulheres! A pior e melhor coisa do mundo! – deram gargalhadas e tomaram mais uma gelada.
Joel esqueceu que iria voltar cedo pra casa e tomaram mais uma, mais uma, mais uma e mais uma.
_ Joel, tu sabes que sou teu amigo né cara?
_ Ué! Lógico!
_ Eu queria fazer uma pergunta meio... – e sustentou um silêncio que queria dizer: não devo falar, mas quero falar!
_ Fala cara! Sem frescuras!
_ Bom! A Sara? Tu ainda sente algo pela Sara ou é coisa do passado? – Joel mexeu-se na cadeira um pouco incomodado.
_ Posso? – pegou um cigarro de Edgar – O que tu falou mesmo?
_ A Sara?...
_ Ah! Que Sara o que cara? É como a tua Marta, isso é coisa do passado. Tu achas que eu vou ficar pensando em mulher que me separei a mais de um ano? – encheu os dois copos – Mas porque a pergunta?
_ Nada! Curiosidade de amigo. – ergueu o copo – Mais um brinde – soluçou – A amizade!
_ A amizade! – brindaram. Beberam longos goles e ficaram em silêncio. Depois de um longo hiato Joel perguntou:
_ Tu tem visto ela?
_ Quem?
_ A Sara?
_ A Sara? Ah! Não! – novos goles – e tu?
_ Graças a Deus não! Ferreira, trás mais uma aqui pra nós!
Veio mais uma garrafa. Serviram-se.
_ Faz uns quatro meses! – disse Edgar olhando pras unhas.
_ O que?
_ A Sara!
_ O que que tem a Sara? Fala Edgar?
_ Pois é! Faz uns quatro meses que não vejo a Sara!
_ Ah! – pausa – Então vocês se viam?
_ Não!
_ Ué?!
_ Eu a vi há uns quatro meses. Só isso!
_ Éééé?... Só?...
_ Sim! – Beberam a cerveja sem muito conversar.
_ Edgar, fala! – cortou o silêncio pesado que rondava a mesa.
_ Falar o que “Jô”?
_ O que tu ias falar! Do nada tu tiraste a Sara...
_ Bobagem...
_ Então fala!
_ O que?...
_ Essa bobagem!... – Seus olhos se cruzaram. Voltaram a se cruzar e desta vez fitaram-se.
_ Joel! Na verdade eu a encontrei logo depois que me separei.
_ É?
_ Isso! – bebeu um longo gole – Fui num botequim tomar umas e encontrei-a com umas amigas.
_ Hum... – Joel acendeu outro cigarro.
_ Sabe como é quando a gente se separa depois de anos de casado, né?
_ Não! Diga-me...
_ A gente fica feito peixe fora da água! Não conhece mais ninguém e nem sabe o que fazer...
_ Isso é!
_ Pois é! Aí a vi e fui conversar. Ela me apresentou “prum” monte de amigas e ficamos de trova. Dançamos e bebemos todas. A noite foi indo e as amigas foram indo embora e ficamos só nós dois. – apagou o cigarro de cabeça baixa.
Estabeleceu-se mais um longo silêncio na mesa dos dois.
_ Tá! Aí transaram? Foi isso? – perguntou em voz baixa Joel para ninguém ouvir.
_ Desculpa mano! Foi sim! – desviaram os olhares. Encheram os copos com o que restava na garrafa e Joel perguntou com o olhar no copo...
_ E vocês estão bem?
_ Que é isso mano? Eu sou teu amigo.
_ ...
_ Nunca mais nos vimos. Ela disse que mudou de celular e nem me deu o novo e disse que nunca me ligaria. Falou para eu a esquecer e que havia feito tudo como uma forma de revanche!
_ É!... Elas são assim mesmo!
_ Eu não entendi bem esse lance de revanche...
_ Sei lá! Ferreira, trás uma saideira! Joel pediu evitando os olhos de Edgar.

segunda-feira, outubro 15


Continho Miudinho - 9



Rodrigo se apaixonou pela esposa de seu grande amigo Eduardo. Tentou a muito custo fugir deste sentimento, mas um dia o que ele sentia ficou maior que sua amizade e furtivamente colocou um bilhete sob o travesseiro dela dizendo: "Eu te amo meu anjo! Se o sentimento for recíproco, me encontre amanhã às dezoito horas no Jardim Botânico! Beijos! assinado Rodrigo!”.
Rodrigo teve uma terrível surpresa quando no local e horário referido, viu Eduardo chegar com um buquê de flores.
Como ele poderia ter imaginado que o travesseiro que ficava ao lado do criado mudo com uma caixa de lenços umedecidos e um livro de Anne Rice era o de seu amigo Eduardo?

terça-feira, outubro 2


(NÃO) ESTILO!

Minha camisa é de brechó
Minha calça é made in china
E ainda por cima
Meu sapato é de dar dó.

Eu não ligo muito pra moda
E isso não me incomoda
Me visto como eu quero
Não pago uma de cara foda.

Eu escuto Nelson, Wando e Caetano
Eu não ligo para as tendências
Roupa para mim é só um pano
Eu não vivo de aparências.

Desde que ela esteja bem lavada
Uso até camisa de banda de rock
Moda é coisa pra mim ultrapassada
Moda pra mim, é coisa de lóki.


sexta-feira, setembro 14

RE-POSTAGEM 22 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 O GUARDIÃO DE SIMONE


Adroaldo desceu do ônibus e ficou sem saber para onde ir. Nunca havia estado na região norte do estado. Sentou em um banco e pensou em ligar para Simone. Achou melhor esperar. Estava ali para conhecer a família da mulher que ele amava. Daquela família só conhecia Simone – sua noiva -, e achou que seria inconveniente apressar seus anfitriões. Em poucos segundos percebeu que foi melhor não ligar. Logo saltou Simone de uma velha e muito bem conservada Rural Willis. Foi apresentado a duas irmãs e a dois cunhados. Foi levado até a casa – para ele mansão – da família.
Era quase hora do almoço e ele foi levado a uma mesa farta e enorme a sombra de um caramanchão. Conheceu a matriarca – sua futura sogra – da família. O nervosismo logo deu lugar a um bem estar. Todos eram bem receptivos, principalmente as pessoas mais próximas a Simone.
Após a sobremesa se aventurou até a tocar e cantar algumas músicas com um primo de Simone que estava gravando um disco de milongas. A cerveja foi sem parcimônia.
A tarde saiu com a noiva para conhecer a cidade. Conheceu os amigos dela e voltou a casa para o jantar. Conheceu mais alguns familiares e amigos dela e saiu para a varanda. Ficou sabendo que não poderiam dormir juntos como estavam acostumados a fazerem, pois a família era muito conservadora. Mesmo decepcionado aceitou de pronto. Deram alguns cálidos e “educados” beijos e foi levado por Simone até o quarto que fora reservado para ele. Ficariam no mesmo andar e mesmo corredor, mas, separados por um banheiro – que eles chamavam de quarto de banho -.
Deu um último e rápido beijo e recolheu-se para dormir. Estava tudo correndo bem! Havia pensado que seria difícil aquele contato, mas estava tudo muito tranqüilo. Colocou o pijama e foi dormir.
No meio da noite a cerveja consumida na tarde o acordou. Tinha de ir ao banheiro. Conjeturou se deveria ir ao banheiro de pijama ou trocar de roupa. Olhou o relógio e viu que era mais de três horas. Poderia sair sem medo de encontrar alguém no corredor. Saiu.
Tão logo chegou ao corredor, levou um susto ao ver um senhor de vastos bigodes e jaqueta militar parado no corredor, bem em frente à porta onde Simone esta dormindo.
Refeito do susto, deu um aceno e um sorriso para o homem que o olhava sério. Entrou no banheiro. Urinou e ficou culpando-se por ter saído do quarto no meio da noite. Teria o homem pensado que ele esgueirava-se para o quarto de Simone? – pensou.
Saiu do banheiro e percebeu sem muito olhar que ele continuava lá de guarda a porta de Simone. Deu um sussurrado boa noite e voltou ao quarto. Estava com sono e logo adormeceu.
Acordou tão logo os primeiros raios de sol bateram nas frestas da janela. Não soube se acordou pela luz que adentrava pelas frestas ou pela pressão que lhe afligia a bexiga. Havia bebido muito no dia anterior. Viu que era cinco e vinte. Todos deviam estar dormindo. Saiu para o banheiro.
Tão logo chegou ao corredor, viu no mesmo local o homem de espessos bigodes de plantão em frente a porta de Simone. Deu um bom dia que não foi respondido e entrou no banheiro. Realmente a família dela era muito conservadora. Aquele homem ficou ali a noite toda de guarda para impedir que os noivos tivessem algum contato.
Aliviou a bexiga e lavou o rosto. Abriu a porta e percebeu que o guardião de Simone havia ido embora. Voltou ao seu quarto e dormiu.
Foi acordado as oito e trinta pelo irmão de Simone. O estavam esperando para o café na cozinha. Vestiu-se e foi ao banheiro lavar-se e escovar os dentes. Ficou feliz em não ver o homem de plantão a cuidar dele – ou dela -.
Quando chegou na cozinha Simone veio correndo ao seu encontro dando-lhe bom dia e um beijo na boca. O abraçou e cochichou ao ouvido: _ Eles gostaram de ti! Caso contrário não fariam um café assim tão íntimo na cozinha, quando é café com pessoa de fora, eles fazem na sala de jantar e não aqui na parte íntima da casa.
Adroaldo foi saudado com bons dias amigáveis. Sentiu-se integrado a família. Foi levado a sentar entre a futura sogra e Simone. Serviram-lhe um fumegante e perfumado café. Esperou que alguém começasse a beber o café e só então levou a caneca aos lábios.
Em meio ao primeiro gole e a fumaça do mesmo, viu o homem de espessos bigodes que guardara o quarto de Simone em uma pintura desbotada em um quadro de bela moldura. Cessou o gole de café e com a caneca quase colada aos lábios perguntou: Quem é ele?
_ É meu avô! – respondeu Simone orgulhosa - Foi um grande herói que deu sua vida na revolução de trinta.
Adroaldo deu um apavorado grito, mas não pelo calor do café que caiu em seu colo!

segunda-feira, setembro 3

RE-POSTAGEM 21 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 

Prolongando o Fim


Há muito havia acabado. Nós dois sabíamos que nada sobrara daquilo que um dia chamáramos de amor e que um dia fora um casal. Chegamos um dia ao momento que não havia mais o que esconder: Estava terminado!
Um de nós tinha de dar um basta, e foi você! Não tive a coragem de tomar a decisão, você tomou! Chorei! Você chorou! Não choramos por amor, mas pela dor de ver que tudo aquilo que um dia nós havíamos jurado ser para sempre chegou ao fim.
Como dois seres evoluídos e inteligentes resolvemos tudo terminar, mas havia coisas a serem acertadas antes de cada um ir para o seu lado. Ficou combinado que resolveríamos tudo com civilidade. Era só o tempo de acertarmos coisas que julgávamos triviais: casa, pensão, carro, família e tudo o mais que nos unia.
Pensava que tu ficarias em casa ao meu lado como sempre ficara até tudo se resolver, mas não! Tu começastes a ter imediatamente uma nova vida enquanto eu estava ainda entre o apper e a lona. Por respeito ou costume me pedias para sair e eu num fingido desdém te olhava e dizia: Vai!
Vai para tua vidinha pequena e burra, para tua noite falsa e podre, para os teus perdidos e doentes de espírito eu dono de mim dizia.
Tu ias! Eu ficava sozinho naquilo que um dia foi nosso lar. Olhava as paredes e não via as mesmas paredes que um dia serviu de redoma a nossa felicidade. Olhava os móveis que nós compartilhamos por toda uma vida e não os sentia mais como sendo meus. Olhava os retratos na estante e via uma família destruída... podre...
Não bebia! Me reclusava aos meus livros e discos mas eles não me davam o prazer que antigamente no meu silêncio mesquinho e egoísta em tua presença me davam. Vagava pelos corredores e cômodos vazios para preencher-me e mais vazio me tornava.
Não conseguia dormir! Ficava guardião dos ponteiros do relógio da sala de jantar. A todo som que vinha da rua corria para a porta de entrada esperando ver você furtivamente, alegre e embriagada entrar. Não eras tu! Era apenas mais um carro que passava em frente daquilo que um dia nós chamamos de nossa casa.
Finalmente tu chegavas e o desdém que havia lhe dado a “´permissão” de sair era metamorfoseado pela mais dolorosa e rancorosa raiva.
Perdida! Vadia! Burra! Mesquinha! Bêbada! Insana! Eram apenas os primeiros adjetivos que lhe jogava na cara. Tu tentavas ficar indiferente a tudo, mas depois de tanto ouvir imprecações explodias. Brigávamos por pelo menos uma hora até tu desistires e ir dormir no quarto que um dia fora nosso e eu me jogava louco como um kamikase no sofá da sala.
Não dormia de pronto! Em parte devido à excitação do embate e também pelos pensamentos e sentimentos que me percorria a cabeça feito carrossel. Abatido pelo cansaço, finalmente adormecia.
Nem bem clareava o dia pulava do duro sofá e preparava um café para despertar-lhe - Não levava flores junto às torradas porque sabia que seria teatral demais - . e passava o dia inteiro a lhe paparicar e esforçando-me para criar em ti aquele velho sentimento que a muito estava morto, até o amor novamente como um camaleão retomar as cores do desdém.

Postado originalmente em 2011

terça-feira, agosto 21

RE-POSTAGEM 20 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 

O anjo de Hiroshi


Ele sabia que era diferente! Olhava os seus pares e achava-se estranho, por certo seus pares o achava estranho também. Todos tinham aqueles membros emplumados, só ele não.
Nas brincadeiras todos levavam vantagens: ganhavam os ares, só ele não.
Cresceu triste. Procurou a razão de sua diferença com os seus. Ninguém soube dizer. Sonhou em ser como aquelas pequenas pessoinhas que viviam lá embaixo, que chegavam para seus pais e perguntavam: Papai porque sou assim? Mas não tinha essa chance. Ele não tinha pai ou mãe – quer dizer, tinha Um, mas não era a mesma coisa - . Pois ele era apenas um anjo.
Um dia o chamado chegou! É chegada a hora de você fazer a sua parte! – lhe disseram -. Foi jogado do céu como se asas tivesse. Viu lá embaixo um pequeno planeta azul com o qual se chocaria. Adormeceu!...
Acordou em uma sala branca com um monte de caras de roupas brancas. De dentro de uma mulher não muito branca saiu um ser que ele logo entendeu que seria a quem ele sempre deveria cuidar. Não sabia porque, mas sabia que devia.
Dali em diante ele só ficou ao lado daquele pequeno ser. Sabia que devia cuidar dele, só não sabia porque não tinha asas como os seus irmãos.
O pequeno ser não lhe deu muito trabalho. Tudo o que ele precisava, seus pais davam. Tudo era dado ao pequeno Hiroshi.
Os dias que se seguiram foram chatos, ele apenas cuidava do pequeno Hiroshi que morava em Nagazaki, pra não se machucar nas brincadeiras de meninos.
Mas ele percebia uma tensão nos pais de Hiroshi. Eles não desgrudavam o ouvido do rádio da sala que falava em uma guerra que estava acontecendo e que muitos de seus estavam morrendo por causa dela.
No dia cinco de agosto de 1945 ele teimou em soprar no ouvido do pequeno Hiroshi, dizendo que o menino deveria visitar seu avô que morava em Kobe, há quilômetros de distancia dali . No outro dia, depois do menino muito teimar, os pais aceitaram, e mandaram o pequeno para ver o avô.
Da janela do vagão, Hiroshi viu passar aviões em direção a sua cidade. Não pode ler em um deles: “Enola Gay”, mas soube que não era coisa boa que eles traziam.
Olhando para trás, o menino viu um monstruoso cogumelo surgir no local onde era sua cidade. O cogumelo cresceu, o chão tremeu, um som bizarro fez-se ouvir e passou por cima de sua cabeça, se ele estivesse a uma dezena de metros acima seria tragado pela aura demoníaca que consumiu Nagazaki.
Nesse momento, aquele anjo aleijão entendeu porque não tinha asas!
Se as tivesse, voaria e seria tragado pela bomba e teria abandonado Hiroshi. Mas não! Por estar no chão – e não voando – salvou sua vida junto com de Hiroshi!
Entendeu que alguns são diferentes, para fazer o mundo ser diferente e, não precisava fazer algo maravilhoso como voar, mas apenas fazer o que lhe era possível. E isso fazia a diferença.


quarta-feira, agosto 8



 








Depois de desligar a TV
Fui dormir em paz
Com a lembrança bela de Paes
Não era como quando garoto
Em que tinha noites de insônia
Com a lembrança sensual de Sônia.

segunda-feira, julho 16

RE-POSTAGEM 19 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração

 

Vida de cão





Nasci na rua! Não sei dizer em que cidade. As únicas coisas que lembro é que foi embaixo de um vão de escada de um prédio abandonado e que era frio e chovia muito. Minha mãe - não posso reclamar - até que foi muito cuidadosa. Meu berço era alguns papelões e jornais com muitas palavras que nunca entendi o que queriam dizer. Minha mãe me cobria com a única coisa que tinha: seu velho e cansado corpo.
Ela sabendo que eu teria uma vida difícil, tratou de ficar sempre do meu lado e me ensinou onde deveria buscar os restos. Os restos sempre foram nossa comida e aprendi onde buscar os melhores restos e brigar para garantir meus restos. Vendo minha mãe disputar o que havia nas lixeiras nos melhores bairros a unhas e dentes, logo estava pronto para defender meu pão de cada dia com garra, gana e fome.
Quando minha mãe percebeu que eu já podia me defender por minhas próprias forças, tratou de ir embora e deixou-me dormindo sozinho em um parque. Acordei sozinho e entendi que estava por minha conta e nunca mais veria aquele ser amado que me trouxe ao mundo e agora iria seguir seu destino sem um fardo tão pesado que era seu filho.
Cresci ali pelo centro da cidade vivendo dos restos que alguém me jogava com desdém ou para aliviar a consciência. Do frio e da chuva buscava os vãos mais escondidos que havia.
Já calejado de viver de um lado para o outro, e a própria sorte e pela boa fé de alguns, certa noite fria fui até a lixeira que sabia que sempre haveria algo para comer. Ali sempre tinha um pedaço mordido de pizza ou uma metade de hambúrguer jogada fora. Mas de súbito o encontrei rasgando o saco com seus dentes sujos e afiados. Buscava comida assim como eu. Preparei-me para correr com ele de minha lixeira preferida quando ele me viu e ficou de lado deixando-me os restos de alimentos para mim. A princípio pensei que fosse por medo, mas logo percebi que não. Na verdade ele viu em mim um ser dá mesma espécie e vendo-me com fome, deixou-me comer.
Comi sem cerimônia os restos. Ele ficou ali parado me olhando com a cabeça baixa. Após estar saciado virei as costas e rumei para praça onde eu sempre dormia. No caminho eu virava furtivamente e sempre via ele me seguindo com a cabeça baixa. Cheguei ao local onde sempre dormia e vi ele sentado com um olhar abobalhado a me olhar. Deitei sobre meus jornais e dei-lhe um olhar que ele entendeu que era um convite. Chegou-se sorrateiro e roçou a cabeça em meu peito carinhosamente para provar sua amizade. Dormimos juntos aquela noite lado a lado sabendo que mesmo nós não sendo da mesma raça e família vivíamos na mesma situação.
A amizade estava feita. Ele por mais estranho que possa parecer virou a minha família. Vagávamos juntos pelas cidades, revirávamos as mesmas lixeiras e dividíamos sempre a comida, apesar dos olhares perplexos das pessoas que passavam.
Nas noites de frio ele se enrolada ao meu corpo, nos de calor ele sempre descobria um local mais fresco e sempre que alguém queria fazer-me mal ele botava dos dentes de fora e saia em minha defesa.
Viver na rua é triste! Ainda mais vendo iguais a nós comendo do bem e do melhor e tendo o tratamento VIP que tem.
Mas felizmente eu encontrei um morador de rua um dia buscando alimentos no lixo e que se tornou meu grande amigo, caso contrário minha vida de cão de rua seria muito ruim.

postado originalmente em 11.2010

terça-feira, junho 5

RE-POSTAGEM 18 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


O OURO DO AMOR


Desde muito moço ele foi instruído nas artes, na religião, nas lógicas do ocultismo e nas loucuras da ciência. Não renunciou o Deus natural, mas esqueceu o Deus criado a semelhança do homem. Aventurou-se pelos caminhos da alquimia. Tencionava transformar as matérias mais simples e paupérrimas na complexa e cobiçada matéria batizada pelos homens com o nome de ouro. Viveu os melhores dias de sua juventude entre tratados e discussões, pipetas e frascos, metais e ácidos, pensamentos e escritos, sono e insônia, adulações e ojeriza, observações e dissecações, erros e acertos até os dias – e noites, muitas noites - comerem-lhe o viço.
Já cansado - o corpo mas não o espírito -, velho – de corpo mas não de espírito – e pobre – de matéria mas não de espírito – recolheu-se a uma pobre choupana oferecida por um primo próspero no interior - mais por vergonha para tira-lo dos olhares dos confrades do que por bondade – , e por não ter mais força física que aparelhasse com seu hercúleo pensar, viu-se obrigado a dispor do auxílio de uma empregada.
Hertha, uma cinquentona fastidiosa para as coisa da carne e buliçosa para os afazeres domésticos veio habitar um quartinho nos fundos da pobre casa. Apesar da falta de instrução ela tornou-se uma grande ajudante em seus estudos além de manter o casebre limpo, organizado e aquecido.
O mundo obtuso e reduzido dela logo foi sendo edificado pelos conhecimentos e palavras estranhas daquele homem, ao mesmo tempo em que o mundo aberto e infinito dele começou a ficar embebido pela imagem daquela mulher que alem de fazer o que as mulheres faziam tinha uma curiosidade – até então para ele: coisa de homem. Poucos homens – pelo oculto e a ciência.
Os vinte anos que os separavam fez com que ela tivesse de auxilia-lo a fazer a barba, seca-lo após o banho e corrigir os botões da casaca em suas respectivas casas. Este contato – até então proibidos para seu recato – aumentaram sua adoração pelo patrão.
Os cuidados de Hertha e as mesmas duas décadas que os separavam, fizeram pela primeira vez os olhos atentos aos mistérios da física e do oculto, a anatomia dos corpos dissecados e das formações rochosas, dos movimentos das marés e dos astros a perceberem os mistérios, as formas e os movimentos daquele corpo virgem de meio século.
No segundo inverno que ela residia com ele, uma noite deixou de ser a cena das bruxas e demônios para dar guarida ao cupido. Cupido que veio em forma de uma violenta chuva com ventos piores ainda.
O parco telhado do quartinho de Hertha voou como se mariposa fosse e ela teve de buscar abrigo nos aposentos do velho patrão. O frio e os anos de libido represado os uniu. O vento e a chuva já estavam a inúmeras léguas de distancia e seus corpos ainda buscavam proteção um ao outro.
Desde aquela noite, uma chuva e um vento imaginário enxota Hertha a procurar a guarida do velho alquimista que deixou de querer transformar tudo em ouro, e descobriu o segredo de transformar carne e sentimentos em prazer e amor.

Postado originalmente em 2010.

quarta-feira, maio 30

Hoje acordei apaixonado 
 Veja só que coisa doida
 É pela mesma pessoa! 
 Olhei pro lado ela não estava
 Não me importei não 
 Afinal de contas tenho comigo 
 A paixão!

sexta-feira, março 16

CAMILA ME DEU UM GAFANHOTO


Camila me deu um gafanhoto
Muitos acham que devia dar mais
Mas eu estou muito satisfeito
Presente melhor... Jamais!

Ele é feito de palha de milho
E logo irá secar
Mas mantem o brilho,
Dela, e de seu olhar.

TE ADORO GURIA

segunda-feira, março 12

HAI KAI 9


Minha janela
vai ficar abandonada
esperando por uma
visita inusitada!

terça-feira, fevereiro 14

CACILDO, O EMPREENDEDOR



Conhecer? Não! Eu não o conheci, apenas ouvi a história do Cacildo. Dizem que ele chegou à cidade e se instalou em um quarto no Lord Hotel. Era um cara simpático, não chegava a ser, digamos assim: bonito! Tinha certa presença. Sempre bem barbeado, bem penteado e sempre de terno e gravata. Aliás! Dizem que os ternos eram impecáveis.
Logo no outro dia ele saiu pela cidade a procura de um imóvel para alugar, não queria coisa pequena não. Não que estivesse atrás de muito luxo, mas o que ele queria mesmo era espaço. Locou a velha mansão dos Luzardos e mandou dar uma “guaribada” no prédio.
Dias depois começou a contratar umas meninas para panfletear na cidade e logo a cidade inteira sabia através dos panfletos e do boca-a-boca que o tal Cacildo iria promover uma exposição de um rentável negócio destinado a mulheres de 18 a 35 anos que estavam dispostas a ganhar um bom dinheiro em pouco tempo e em pouco tempo de trabalho, não necessitava de treinamento, estudo e nem nada.
A noticia logo atraiu a curiosidade não só das mulheres que estavam a fim de ganhar uma renda extra como também a todo mundo. Todos queriam saber do que se tratava. Muitos ficavam horas tomando um cafezinho no Bar do Fialho que fica embaixo do hotel na esperança de que o Cacildo chegasse e deixa-se escapar algo que desse uma pista do tal empreendimento anunciado, agora não só em panfletos, mas também em uma enorme placa colocada em frente ao casarão já reformado.
Tem muita gente hoje que diz que na época ficou sabendo do próprio do que se tratava, mas querem saber? Mentira! Ele nunca soltou uma letrinha que fosse, o jeito era esperar o dia da exposição para saber o que era.
Chegado o dia, foi preciso chamar a guarda municipal pra acalmar os ânimos e liberar o trânsito de tanta gente que estava lá na frente da casa dos Luzardos.
Lá pelas dez, dez e pouco chegou o Cacildo com seu terno alinhado e abriu o portão. O pessoal se adiantou e quase que atropelam o coitado, mas ele correu e postou-se na porta da frente e pediu silêncio. Aos poucos ficou dum jeito que até zumbido de mosca dava pra se ouvir.
Então Cacildo limpou a goela com um pigarro e soltou com aquela sua voz de barítono " Só será permitida a entra de mulheres de 18 a 35 anos e que estão realmente dispostas a ganhar uma boa renda, os demais podem se retirar ou então não será possível fazermos a nossa reunião já a muito agendada. ", Rapaz... Foi um zum-zum-zum mas não teve jeito.
Lá pelo meio-dia o último insistente foi embora e Cacildo abriu as portas para umas dez dúzias de mulheres eufóricas. Elas entraram e foram para o antigo salão de festas que agora estava repleto de cadeiras plásticas. Foram se sentando e logo se viu que muitas teriam de ficar de pé. Cacildo deu boa tarde e chamou duas meninas que começaram a distribuir uns copinhos com guaraná e uns biscoitinhos.
Ele foi para uma escrivaninha de mogno já bem velha e começou a chamar uma por uma. Anotava nomes, telefones e idades, e logo ao lado fazia alguns sinaiszinhos como para identificar à entrevistada. Com umas a conversa era bem rápida e com outras já demorava mais um bocadinho. Era noite alta quando ele despachou a última candidata. Pouco se sabe o que ele falava para elas, apenas se sabe que elas seriam avisadas por telefone, se deveriam voltar para outra reunião na próxima semana ou se a "empresa" não havia se interessado por algum motivo pela candidata neste primeiro momento, mas que não desanimassem não, porque logo logo poderiam serem chamadas.
Naquela semana as mulheres que foram entrevistadas estavam em polvorosa falando umas com as outras para saberem o que ele havia dito para cada uma delas, e as que não puderam participar estavam mais malucas ainda querendo saber do que se tratava e, não me levem a mal, sou homem mais sei que homem também é curioso. O “macharedo” era só cochicho nos cantos e teve até caso de marido bater em mulher porque ela não explicou direitinho do que se tratava.
Desde o dia da primeira reunião não se via mais o Cacildo pela cidade, muitos iam ao hotel e perguntavam pelo dito e a resposta era sempre a mesma, a conta do quarto ainda estava em aberto, mas nem sinal do cara.
Naquela tão esperada semana nem era preciso perguntar quais delas haviam sido chamadas ou dispensadas, bastava olhar a cara e já se sabia só pelo sorriso de triunfo ou pela cara de emburrada.
Vai que na outra segunda pela manhã, amanheceu umas vinte e poucas mulheres na frente do casarão com suas melhores roupas e seus melhores sorrisos estampados nas caras bem maquiadas. Como da outra vez, juntou um monte de curiosos e curiosamente via-se lá longe espiando de uma esquina qualquer alguma das mulheres que haviam estado ali na outra vez e agora haviam sobrado.
Dez em ponto o Cacildo chegou em um taxi da capital. Desceu e foi logo abrindo o portão com um olhar de censura para a pequena multidão que não iria participar da reunião. Todos achavam que alguém tentaria entrar de penetra, mas foi impossível pois ele puxou de uma prancheta e começou a chamar pelo nome as convocadas que iam entrando com um olhar de triunfo.
O Vieira... sabe aquele do Cartório? Esse mesmo! Ele fez uma observação quando entrou a última: Bagulho não entra! Só entrou “muié” bonita! A concordância foi geral!
O Cacildo cerrou a porta e foi para a mesma dependência da última vez e para a mesma escrivaninha. Foi chamando uma a uma e fez nova entrevista. Agora todas levavam mais ou menos o mesmo tempo. Umas saiam com um largo sorriso e outras saiam cabisbaixas.
Nova reunião fora marcada para nova data. Das poucas informações que as derrotadas deram, soube-se que ele inquiria se realmente elas queriam ganhar uma grana, se poderia trabalhar com liberdade de horário, se eram casadas, tinham filhos, profissão dos pais, se eram desinibidas e decididas e se concordavam com os percentuais que deveriam compartilhar com a empresa e mais algumas coisas que nem me lembro mais.
A “fofocaiáda” naqueles dias que antecederam a nova reunião foi de assustar. Houve briga, apostas e palpites, mas, o que de fato era nem as vencedoras da nova eliminatória sabiam.
Novamente o Cacildo sumiu, mas vai que na sexta ele aparece e paga a conta do hotel e se instala no casarão por ele alugado semanas atrás e que serviu de local de reuniões.
Segunda pela manhã uma já conhecida multidão postou-se em frente ao casarão. Deu dez horas e nada do Cacildo e foi ai que o mesmo Viera, o do cartório falou: E as “muié bonita”, vocês viram elas aqui hoje? Nem sinal das tais "muié bonita" que o Vieira haviam apelidado e que já tinha se tornado o título popular das sortudas. Cansados de esperar foram indo cuidar de suas vidas e tudo ficou calmo.
Depois das seis da tarde começou a aparecer uma a uma das "muié bonita" e iam entrando após tocarem uma campainha de porteiro eletrônico recém instalado no casarão. Dizem que foi esse o primeiro a ser instalado aqui, mas não sei se é verdade, mas não nos percamos por isso...
Bom! o que se sabe é que depois que chegou a última, as mesmas duas meninas serviram taças de vinho e só então o Cacildo começou a falar. Disse entre várias coisas que o trabalho não era pesado e que poderia até ser bem prazeroso e que elas trabalhariam ali mesmo e com clientes de grana e de bem, que os pagamentos seriam avista e em dinheiro e que o rendimento seria de acordo com o trabalho de cada uma delas e que era um tipo de venda e que ele mesmo se encarregaria de atrair o público alvo e fazer a venda, elas só precisariam consumar a transação.
Nisso uma perguntou se era a tal da Dinastia, ele disse que não, que não era Dinastia, Herbalife ou qualquer tipo de Avon ou Hermes "da vida".
Mas o que venderemos então? Perguntou uma outra e o simpático Cacildo deu um largo e malicioso sorriso e disse: Ora minhas filhas... Não entenderam ainda, é coisa simples, eu vendo e vocês entregam ao cliente.
Drogas? Pulou uma outra lá de trás espantada, ao que ele respondeu: Ora! Não chamem assim. Vocês só terão de entregar e em puro sigilo o precioso material que vocês trazem no meio das pernas!
Verdade! Juro! Perguntem pro pessoal da época então!
Depois dessa, a última noticia que se teve do Cacildo foi que na mesma noite ele ingressou no hospital municipal com o terno rasgado, sem alguns chumaços de cabelo e com muitas lesões por todo o corpo.
Assim, pelo que eu sei terminou a carreira empreendedora do tal Cacildo e, junto o sonho de muitas daquelas moças.
Bem! Não sei se de todas, dizem por ai que uma ou outra gostou do empreendimento de fizeram o seu próprio negócio render um bom dinheiro, se é que vocês me entendem!

domingo, fevereiro 5

O que eu não faço em tua companhia...



Amo dormir em teus braços
amo que tu durmas nos meus
amo te ver se maquiando
como se fosse a primeira vez.
Amo a tua comida
amo picar para ti os vegetais
amo quando tu ficas braba
para mim ser rápido, muito mais.
Amo caminhar contigo
até debaixo da chuva
faço para ti toda mão
és para mim a luva.
Amo ver filme contigo
na tv deitado no sofá
ou na net a muita distância
estando nós dois on-line.
Amo contigo jogar cartas
ou fazer jogos de rima
lembrar a tua imagem
quando estás por cima.
Amo dançar contigo
mesmo não sabendo dançar
Amo comprar teu remédio
Amo te ver sarar.
Amo você na janela
amo te ver fumar
amo emprestar minha camiseta
amo te ver ela tu usar.
Amo contigo tomar café
Amo contigo beber
Amo toda tua alma
amo beijar os teus pés.
Amo a tua risada
amo teu jeito maluco
amo a tua beleza
que acaba com minha tristeza.
Amo te ver a correr
amo te ver a viver
amo as tuas postagens
amo tudo em você.
Sei que te amo
que te amo
te amo
amo.
Mais nada a dizer!