quarta-feira, setembro 29

Continho Miudinho - 8

Ele: Me desculpa amor! Quando eu falei, eu falei algo que eu não queria realmente falar...
Ela: O que importa é que falou!
Ele: Sim, mas é que eu só fui entender o que eu falei...
Ela: Quando era tarde e eu já havia entendido!

terça-feira, setembro 28

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades . 19

Na disputa pelos votos dos eleitores de Gravataí, um candidato a vereador - que não digo o nome nem sob tortura! Sob suborno talvez! -, promoveu um sopão num bairro de classe baixa.
Quando o panelão já estava borbulhando com umas folhas de repolho a boiar, ele proferiu a celebre frase em seu discurso:
Vocês não devem votar nestes candidatos engravatadinhos do centro, porque eles não entende vocês. Eu sim! Porque eu também já fui “chinelão”.



Qualquer semelhança com qualquer coisa ou pessoa é meramente qualquer coisa

segunda-feira, setembro 27

RE-POSTAGEM 4 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração



O táxi parou. Perguntei naquele dialeto arrastado e pastoso que só os taxistas que trabalham a noite ou porteiros de boites entendem, o quanto devia. Paguei. Se fui logrado? Vá saber?!
Não levei muito tempo a achar a chave certa. Abri a porta e acendi a luz.
Joguei as chaves que produziram um estridente som ao bater no tampo de metal da mesa de centro. Olhei para o pé do balcão da pia.
Correu de lá – o que eu já sabia – um camundongo. Meus olhos correram assim como o camundongo para a geladeira. O camundongo passou como uma flecha.
Ele agora iria passar da geladeira para baixo do fogão. Eu já sabia o trajeto havia dias – seriam semanas? Meses? -. Podia pular e com o pé acabar com o infeliz.
Passou. Agora - isso eu também já sabia, sairia do fogão e passaria em uma distância um tanto perigosa frente ao inimigo: Eu, e correria para o banheiro.
No banheiro, por mais que eu procura-se não o encontraria. Havia um local secreto que aquele ser habitava durante o tempo que eu não estava presente – ou não estava acordado -, que eu não conseguia achar.
Teve um dia que me esmerei em procura-lo, mas foi em vão. O danado tinha um local só dele. Desisti. O mais fácil é ir a uma agropecuária e comprar um veneno.
Há pessoas habilitadas para tudo. Talvez as coisas não sejam tão simples na vida como a gente pensa ser. Em vez de procurarmos um eletricista, nós mesmos fazemos, e por isso mesmo nem sempre fica da forma que queríamos. Em vez de um encanador nós mesmos metemos a mão na massa e depois ficamos com aquele cano sempre a pingar.
Procurei quem sabia. O cara com cara de profissional falou que aquele determinado produto era tiro e queda. O bichinho morreria na hora, mas tinha outro que tinha um efeito retardado. Tinha um cheiro sedutor ao meu “amiguinho” e que depois de ele ingerir aquela “maravilha”. iria dar uma necessidade enorme a ele de beber água. “Quando a água entrar em contato com o produto no interior do organismo dele, vai petrifica-lo!”. Ele morreria e o próprio produto ia ressecá-lo e não produziria nenhum odor. Mesmo que eu não achasse o pequeno cadáver, não teria nenhum incomodo, ao contrário do outro que eu enfrentaria o odor da putrefação. Era esse mesmo que eu queria. Comprei.
Essa compra foi há muito tempo atrás.
O produto, eu o guardei em uma gaveta em sua embalagem. Nunca fora aberta. Algo me impedia de abri-la.
Fazia quase dois anos que eu estava morando sozinho. Não tinha filhos e minha mulher havia ido embora sabe lá Deus para onde.
Foi assim:
No começo, foi uma maravilha. Nunca havia sentido uma liberdade tão grande. Nunca havia podido viver desta maneira, sair e voltar a hora que bem entendesse sem dar satisfações a ninguém – havia meu chefe é claro, mas isso para o relato não conta -. Estava me sentindo finalmente livre.
Passei os primeiros dias a tomar cerveja e indo as boites que meus amigos falavam e eu nunca havia ido.
Mas havia dias que voltava para casa tão logo terminasse o expediente. Fazia minha caipira, um jantarzinho, tomava um banho, um chimarrão e via TV e dormia esperando o dia de amanhã.
Com o tempo o vazio da casa começou a me encher. Ouvia barulhos que não haviam e ficava preocupado. Vezes que outras, vultos passavam por trás de mim enquanto lavava a louça. Sabia que era a solidão. Não eram fantasmas. Fantasmas são lembranças que esquecemos de esquecer.
Com o tempo meus afazeres ficaram entediantes e comecei a voltar para casa cada vez mais tarde.
Quando percebi, minha fruteira era um cemitério de frutas gestantes, um ventre fértil de seres nojentos e um mundo convidativo a insetos indesejados.
Fiz uma grande limpeza em um sábado. Pronto: Só porcaria chama porcaria!
Com um fogão inativo e uma geladeira com água e cerveja, adotei os bares como locais de minha alimentação. Quando o último amigo abandonava o bar lembrava que também tinha uma casa.
Foi numa dessas noites em que eu voltava para casa com mais umas duas ou mais garrafas em uma sacola plástica que eu o vi pela primeira vez. Era pequenino. Cinza. Até bonitinho era.
Ao abrir a porta ele correu e fez o trajeto que nós já sabemos. Era metódico o bichinho.
Enquanto eu ficava na rua ele reinava naquela casa vazia.
No começo não dei muita importância a ele. Ia trabalhar e nem lembrava de sua existência, mas com o tempo e com tantas vezes vendo ele fazer o mesmo trajeto, resolvi: Tenho de me livrar deste ser abjeto, e como já falei, comprei o veneno...
Pela manhã não colocava o veneno – nos cantinhos como falou o cara que vendeu-me -, nem lembrava sequer dele ou do veneno. À noite ao ver ele correr, ficava com pena do bichinho. Ele era como eu! Quando eu ia ao trabalho ele fazia o seu mundo. Quando voltava, altas horas, ele se recolhia e deixava eu reinar sobre aquele silencioso mundo.
Assim ficamos por muito tempo. Ele rei de dia eu rei à noite. Se ele se aventurava enquanto eu dormia? ...Eu não sei, mas acho que não! Ele era o meu único amigo fiel.
Sim! Fugia quando eu chegava. Mas imaginem, quem não fugiria tendo aquele “tamanhinho” em frente a um gigante? E um gigante mau que compra veneno para matar seres pequeninos?
Assim ficamos meses. Vendo-nos como se não nos víssemos. E para dizer a verdade, muitas vezes fiz olhos de cego para suas investidas fortuitas. Ele achando que eu não o via passava despreocupadamente próximo ao meu pé.
Não fosse a solidão...
Ele também me via quando eu não o via. Eu sabia. Quantas vezes ouvi um frenético bater de pés no piso do banheiro quando me desfazia do excesso de álcool na privada, ou quando bradava impropérios sozinhos na sala.
É!...Nunca tive coragem de matar meu amiguinho!
Talvez um dia quem sabe?... Após dias sem eu não aparecer ao trabalho, a polícia venha e arrombe minha porta e encontre a embalagem do veneno aberta, caída ao chão, ao lado de meu corpo sem vida, e ao lado o cadáver de um camundongo.


Postado por Stanis Fialho às Segunda-feira, Abril 28, 2008

sexta-feira, setembro 24

Pequenas Crônicas de Pequenas Pessoas de Pequenas Cidades . 18

Quando eles eram casados, presentear com flores ou chocolates, dar carinhos ou prestar atenção às pequeninas coisinhas que ela vinha contar ou então notar uma nova calcinha ou um novo corte de cabelo era para ele uma frescura. "Coisa de mulher" ele dizia.
Agora que ele a percebia feliz longe dele e a casa estava vazia e aquele monte de amigos não estavam mais ao seu lado, ele passou a reparar tudo nela e a presenteá-la com os mais variados mimos



Qualquer semelhança com qualquer coisa ou pessoa é meramente qualquer coisa

quinta-feira, setembro 23

Olhos de Iracema


Lá fora a vida corre apressada
Em um ritmo de gente preocupada
Na fúria de quem se consome;
E a gente aqui embalado pelo ritmo
De uma velha canção da Simone.

Claro que aqui dentro de nosso castelo
Tudo o que temos e fazemos é belo
Estamos resolvidos e não vivemos dilemas;
E eu fico refém de teus beijos e abraços
Deliciando-me com os teus olhos de Iracema.

Pode sumir o sol, sumir até a lua
Aqui tudo se encaixa como a uma luva
Afinal, tudo começou numa noite de chuva!

terça-feira, setembro 21

PRIMAVERA

Com o sol a aquecer à tarde
O passeio ficou pintado de pessoas alegres
E o silêncio habitual virou sons de piqueniques.

Mães correram a passear com os filhos
A aproveitar a trégua dada aos intermináveis dias de chuva;
Jovens cansados de televisão e vídeo-games
Ganharam os parques com seus trajes esportivos
Alguns a procura do prazer de exercícios físicos
Outros – vaidosos – apenas para mostrar o corpo;
Cães ha muito aprisionados em apartamentos
Corriam satisfeitos junto a seus donos;
E livros ha muito fechados, exibiam suas folhas abertas
Como se fossem folhas verdes a processar uma literata fotossíntese.

Eu domino minha heliofobia
E junto-me a esse alegre panorama;
Vou só, com meus discretos e corriqueiros trajes
Com um livro fechado preso ao braço;
Não estou interessado em exercícios ou literatura.
Com a chegada da primavera só tenho um interesse: as flores...

Estas flores que passam sorridentes sob o sol da tarde.
Flores loiras, ruivas, negras e – sempre... sempre – morenas
Principalmente as flores morenas de folhas revoltas e esvoaçantes.

Não sou o único que se dedica a essa botânica sensual
Inúmeros olhos masculinos correm de uma flor a outra
Buscando aquela que lhes pareça à ideal.
As mais enfeitadas ganham maiores quantidades de olhares
Mas meu olhar logo perde o interesse nelas
Pois encontro neste enorme jardim uma flor que não precisa de enfeites para ser bela;
A simplicidade e o despojado trajar a torna a rainha entre estas flores
E mesmo todos os olhares e sorrisos deste saboroso ramalhete
Não se comparam ao seu jeito amado de menina moleca.

terça-feira, setembro 14

RE-POSTAGEM 3 ou sem tempo e/ou preguiça e/ou inspiração


Coisas que acontecem
postado em abril de 2008



Não tem um aviso. Não é como o corte do fornecimento de energia elétrica, que chega com um comunicado alertando que se não houver o pagamento da fatura ficarei no escuro. Não é como a carta de uma amante ressentida ou entediada que diz: acabou, ou a bravata de um inimigo que alerta que serei atacado. Apenas fico sabendo.
Chego em casa para dormir, como todos os outros dias. Mas em determinados dias percebo: é hoje.
Tento de todas as formas postergar a hora de dormir. Pois será exatamente na hora do sono que irá acontecer. Penso em virar a noite acordado. Em vão tento passar toda à noite lendo um livro, mas o sono vem. Se ligo a TV logo meus olhos começam a pesar como se de chumbo fossem. Inutilmente jogo água fria ao rosto. À vontade – necessidade ou ordem – me levam de novo a cama.
Uma força que vem não sei de onde, sempre me encaminha para a cama. Não sinto medo. Apenas sei que devo deitar.
Um sentimento idiossincrático, me obriga a dormir, vencendo um paradoxo sentimento muito primitivo que tenta um duelo. Mas não há razão, a lógica perde o sentido, o sentimento de preservação é obscurecido como o de um viciado em frente à droga, É o néctar da adrenalina de um pára-quedista, que mesmo sabendo que pode se estatelar ao chão; arrisca-se. Sou como o Gnú que sabe que o rio está infestado de crocodilos e mesmo assim tento a travessia. Assim sou eu, atiro-me aos braços de Morpheu.
Em uma última tentativa de fuga, deito de bruços.
Há a proteção do lençol, do colchão, do lastro da cama, da forração do piso e o piso. Estou no quarto andar. Abaixo de mim, há concreto, aço, mobílias e um monte de coisas que sei que não irão impedir de meu peito ser tocado, mas mesmos assim como uma última tentativa, eu tento.
Disseram-me que contar carneirinhos ajuda a dormir. Já fiz isso em noites de insônia. Perdi as contas de quantos carneirinhos contei e junto com eles, perdi a chance de dormir. Com o passar dos dias – ou melhor, as noites -, aprendi que tentar relembrar o último livro lido ou filme que havia assistido, me trariam o sono perdido. Isso é para mim muito precioso, pois sofro de uma interminável insônia. Parece que só durmo normalmente – se é que pode ser chamado de normal -, quando sinto que será “naquela noite”.
Já falei que meus olhos pesam como chumbo! Nunca fiz yoga! Mas deve ser assim que ficam os grandes mestres ao atingir a plenitude da concentração. O tempo some. Meu corpo fica leve. O coração – órgão que nunca sinto, em outros momentos – começa a retumbar calmamente como ao de um cortejo fúnebre. E vai diminuindo, diminuindo, diminuindo até eu não o perceber mais.
Não tenho mais senso de equilíbrio e de espaço, não sei mais se estou de bruços ou não. Ouço coisas que não sei dizer o que são, apenas sei que são aprazíveis. É como um gozo! Não um gozo normal. Não é carnal...
Mesmo não sabendo nada, sei que sentirei algo entrando em meu peito. É como um braço com uma mão não humana percutindo todo o interior de meu interior. A sensação não é ruim, mas também não causa nenhum prazer.
Essa mesma “mão” sobe pela garganta e detém-se em meu cérebro, e é nesse momento que tudo some. Não lembro de mais nada, e no outro dia acordo sem lembrar de nada, nem sequer do que estou revelando agora. No outro dia é como se nada houvesse acontecido.
Sei que hoje ira acontecer de novo, por isso estou escrevendo, pois logo não conseguirei mais concatenar nenhum pensamento e terei de ir dorm.........